Garcia Leandro considera que apesar de não haver uma orientação clara de Portugal para Macau, o país está a acompanhar a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, onde poderá retirar vantagens do relacionamento que tem com a China. Por outro lado, para o ex-Governador, o papel de Macau enquanto plataforma não é o de influenciar, mas antes de abrir portas a contactos entre empresas dos países lusófonos

 

Salomé Fernandes

 

O General Garcia Leandro concorda que existe uma falta de estratégia de Portugal para Macau, mas aponta que essa realidade não é nova e ressalva que as possibilidades geradas pela iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” estão a ser acompanhadas de perto. “Mesmo no tempo da administração portuguesa, nunca tivemos uma orientação forte – a tal estratégia – para a presença em Macau. Isso é um bocadinho a constatação de uma realidade que nem sequer é nova”, comentou o ex-Governador em entrevista à TRIBUNA DE MACAU.

O cenário foi diferente quando, depois do 25 de Abril, se procurou desenvolver Macau. “E quando aconteceu 1999, transferiu-se uma boa jóia para os chineses. Depois, não sei acompanhar em pormenor o que se terá passado, mas também parece que não há uma orientação geral para Macau”, disse, alertando porém não ser possível comparar esse aproveitamento com o benefício que a China tem retirado do uso de Macau como plataforma para a Portugal e a Europa.

Por outro lado, assegurou, a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” tem sido acompanhada por várias entidades em Portugal, nomeadamente o Governo e a própria Fundação Jorge Álvares, “porque é um projecto de intervenção global mais completo, mais bem estruturado do que existe aí, onde Portugal pode tirar vantagens desse relacionamento com a China, e onde Macau já está a tirar vantagens porque também é o centro das relações da China com os países de língua portuguesa”.

Já da parte de Portugal, deve haver capacidade de compreender os interesses e possibilidades derivados da integração no projecto, onde também o ex-Governador aponta Sines como uma infra-estrutura importante de entrada na Europa.

Por outro lado, Garcia Leandro considera natural a integração de Macau no projecto da Grande Baía ao invés de uma lógica de desenvolvimento isolado. E, apesar de se escusar a comentar o impedimento de entrada a pessoas no território, admitiu que há “problemas que não têm solução de um momento para o outro”.

O ex-Governador mantém que seria importante para o território e os seus habitantes não estarem completamente dependentes dos empregos em hotéis e casinos. “Tínhamos aqui uma base industrial nas áreas do mobiliário, dos têxteis e das lãs, que me parece que não deveriam ter desaparecido por causa de se ter dado mais importância aos casinos”, lamentou.

Embora note que a economia da RAEM tem “dado resultados financeiros muito bons”, Garcia Leandro entende que o desenvolvimento que se relaciona mais com a construção civil, hotelaria e turismo, “não deixa de ser algo que está incompleto”.

Ao nível dos bairros sociais, apontou que é mais fácil construir em zonas novas de aterros, como no COTAI ou Porto Exterior, mas que “não deixa de ser importante o problema social que se põe com bairros mais antigos, onde há pessoas mais velhas, a que tem de se dar uma atenção especial”. Apesar de reconhecer que o Governo tem tentado solucionar a questão através de subsídios de residência, mostra-se convicto de que isso não é impeditivo de uma acção nesses bairros. “Não digo que não seja difícil, mas deveria ser tentado”, disse Garcia Leandro.

Quanto à representatividade na Assembleia Legislativa reiterou ter sido “um problema que resolvi da maneira que pude”, considerando que o modelo existente “funciona”. Assim, justificou a existência de deputados eleitos por via indirecta para dar espaço a organismos de carácter social, e dos nomeados com a possibilidade de o Governador à época poder completar A assembleia com “gente mais nova, mulheres, pessoas sem ligações ao poder económico ou ao grande poder social”.

“É um sistema que pode ser difícil de concretizar mas dá as respostas se for bem executado. O sufrágio directo são os resultados que aparecerem. As pessoas que não forem votar não podem ser representadas”, afirmou, remetendo a solução final para as autoridades locais.

De entre as áreas a melhorar no território, a poluição insere-se antes num âmbito mais global. “Macau nem sequer é das cidades mais poluídas da China, mas a poluição é sensível em qualquer área do globo”, indicou, assumindo que, sem ser dramática, é uma matéria que merece preocupação.

 

Macau potencia, mas não influencia

À margem de um seminário sobre o intercâmbio sino-luso-brasileiro no IIM, e questionado sobre o papel de Macau tendo em conta que o Brasil tem um canal de negociação mais directo com a China através do BRICS, o ex-Governador respondeu que “é sempre bom ter mais do que um caminho aberto”.

“A África do Sul e o Brasil estão numa grande crise, a economia russa não corresponde ao passado histórico e à importância que o Putin pretende dar à Rússia e a Índia é uma grande economia e um país tecnologicamente já muito avançado, mas tem grandes problemas de carácter social”, realçou, ao defender que esta falta de homogeneidade tem mostrado a China como o país mais consistente no desenvolvimento e estabilidade.

“Dito isto, as relações entre o Brasil e a China com certeza são directas, mas o Fórum Macau dá oportunidades a nível empresarial de os empresários tratarem uns com os outros. São duas linhas diferentes. Mesmo que não houvesse a actual crise no Brasil e tudo estivesse a correr muito bem, poder ter no Fórum Macau uma ligação entre a China e os países de Língua Portuguesa seria de manter”, frisou Garcia Leandro.

O Fórum Macau permite assim um aproveitamento desta plataforma por parte das empresas, não do país como um todo, dando resposta ao carácter dos acordos que tendem a ser bilaterais, e de acordo com a capacidade e interesse dos investidores. “O que Macau pode fazer não é influenciar isso, é abrir as portas a esse tipo de relações e contacto. E tanto quanto eu sei tem sido feito”, comentou.

 

Investimento voltado para África

O desenvolvimento promovido pela China chega também a África, não ficando de parte os países de língua portuguesa. Apresentada como uma política de desenvolvimento estabelecida país a país, com benefícios mútuos, tem levantado preocupações da comunidade internacional.

“É evidente que a conclusão desse plano global da China, e os americanos estão muito assustados com isso, pode parecer que é um desejo de hegemonia pela via da área económica, mas depende das condições”, notou Garcia Leandro, advertindo que se a banca internacional realizasse empréstimos mais baratos do que a China, talvez a opção seguida pelos países que vão receber o investimento fosse diferente.

No entanto, deixa claro que “é o país que tem de decidir” sobre a sua capacidade de pagar de volta este investimento. “Ainda há pouco tempo na Malásia o governo anterior tinha feito um acordo de investimento, mas o novo Governo disse que não tem capacidade para o pagar. Portanto, tem uma demonstração de vontade, finanças e tecnologia, mas o outro também tem de dizer se pode ou não”, exemplificou.

Questionado sobre se a abertura económica da China tem sido acompanhada pela mesma tendência ou pelo fecho a nível social, o General comentou apenas que “cada país tem o seu ritmo”. Recordando como a China passou muitos anos fechada, uma tendência que se intensificou depois do regime Maoísta e passou por sucessivas revoluções internas até que esta visão se alterou com Deng Xiaoping, indicou não lhe parecer existir um encerramento.

“É um processo que vai adiante, que estão a encarar caso a caso, e região a região como fazer. Mas o que tem acontecido é um aumento da classe média, no seu conjunto nunca viveram tão bem, o que não significa que não tenham problemas de migração interna, integração nas cidades, poluição”, ponderou. Nesse contexto, alertou não considerar que “ninguém tenha moral para criticar uma experiência que nunca teve no passado” já que a história mundial nunca teve um Governo a liderar 1.400 milhões de pessoas.