Diferentes traduções dos nomes dos locais do Património de Macau para a sua língua materna estão a confundir os visitantes coreanos. A conclusão é de um estudo de duas académicas do Instituto de Formação Turística que alerta para a necessidade de haver uma maior uniformização na tradução do nome das atracções turísticas para melhorar a experiência dos visitantes oriundos da Coreia do Sul

 

Inês Almeida

 

Há duas principais fontes de informação sobre Macau para os visitantes da Coreia do Sul: a Direcção dos Serviços de Turismo (DST) e o “site” sobre o Centro Histórico de Macau produzido pela Comissão Nacional da Coreia para a UNESCO (KNCU, na sigla inglesa). No entanto, as traduções para coreano do nome das atracções turísticas patentes em ambos estão a confundir os visitantes e a manchar, de certo modo, a sua experiência na RAEM. A conclusão é de um estudo intitulado “Toponímia, conversão dos nomes dos locais e sinalização: os turistas independentes da Coreia do Sul em Macau” da autoria de Suh-hee Choi e Cora Un, do Instituto de Formação Turística.

As académicas acreditam que pode haver várias justificações para esta situação. “Note-se que a maioria dos locais tem nomes em Português, inglês e chinês que são compostos por nomes próprios ou comuns e os nomes comuns podem ser tanto transcritos como traduzidos”. Outro dos problemas é que há “três possíveis fontes linguísticas [para as traduções]”.

Com o propósito de compreender como os visitantes independentes coreanos ultrapassam os desafios linguísticos com que se deparam durante a preparação das viagens, as docentes entrevistaram 15 pessoas que ficaram no território em média 2,9 dias. Sete dos entrevistados estiveram em Macau pela primeira vez.

Através das conversas que duraram cerca de uma hora e meia foi possível compreender que há diferenças nas traduções dos nomes de atracções turísticas feitas pela DST e pelo KNCU, levando a que os visitantes pensem que se trata de locais diferentes. As académicas dão como exemplo o Templo de A-Má, que foi traduzido tanto para “A-Ma Sawon” como para “Majogak”. “Dez entrevistados acreditavam que eram duas localizações diferentes”.

O mesmo problema ocorreu com as Ruínas de São Paulo, levando a que quatro entrevistados acreditassem que as traduções com que se depararam eram locais próximos um do outro, mas distintos.

Apesar de ser “difícil evitar inconsistências na era da informação, onde há diversos disseminadores de informação que criam e recriam informação turística sem ter em conta a sua exactidão”, este foi o principal problema enfrentado pelos entrevistados. “Alguns dos inquiridos disseram ter feito um esforço extra e ter demorado mais tempo para ter informações claras, levando-os a compreender que a confusão é gerada pela existência de diferentes nomes para a mesma localização”, refere o estudo.

Houve ainda quem optasse por não fazer uma pesquisa exaustiva no país de origem por considerar que na RAEM teriam acesso a mais informação, no entanto, essas pessoas acabaram por ser “surpreendidas” com o que encontraram no território. “Os guias da DST usam diferentes traduções para os nomes. Os turistas que prepararam a sua visita online, muitas vezes, acabam por ficar ainda mais confusos quando usam a informação da DST ou outras brochuras disponíveis em Macau”, afirmou Jimin Lee, um dos entrevistados.

“Rapidamente se tornou visível que a maioria dos entrevistados considerou confuso o facto de haver diferentes nomes em coreano para as mesmas zonas e apontaram que isso tinha efeitos adversos na sua experiência enquanto turistas”, aponta o estudo. “Demora muito tempo encontrar informação turística devido à inconsistência nos nomes dos locais e é difícil ter informação correcta. Eventualmente, os turistas desistem de a procurar”, apontou Yumi Jang.

 

As imagens mentais

Outros problemas manifestados pelos visitantes coreanos foram considerados “inesperados” pelas autoras do estudo. “O primeiro tem a ver com a imagem mental que um visitante de uma grande cidade coreana tem do que é uma praça, vista como um grande espaço aberto”. Como resultado, muitos dos visitantes entrevistados “não conseguiam acreditar que estavam no sítio certo” quando visitaram alguns locais turísticos como o Largo do Senado.

“Quando visitei o Largo do Senado pela primeira vez perguntei a mim própria se estava mesmo no sítio certo porque não me parecia nada uma praça. É tão pequenino”, apontou Jongmi Yoon. Já Hyejin Park teve dificuldade em “descobrir” a Igreja de São Domingos porque não conseguia encontrar o largo onde esta se encontra. “Não sabia que a Igreja de São Domingos estava mesmo junto ao Largo do Senado”.

Outra reacção “típica” dos visitantes sul-coreanos está relacionada com o facto de, por norma, esperarem que o nome de uma igreja indique se é católica ou protestante, o que não acontece na RAEM. No entanto, em Macau todas são católicas, com excepção de uma.

As barreiras linguísticas também se fazem sentir quando chegam ao território uma vez que, embora as pessoas que os visitantes abordaram para pedir indicações lhes tenham parecido dispostas a ajudar, há uma dificuldade em comunicar. “Usar os nomes que conhecia, vários para cada um dos lugares, não resultou com os locais, não importa quão claro tentei ser. Perguntei a um segurança como ia para Coloane, mas ele não conseguia compreender-me”, indicou Seoungchoul Yoo. Assim, a família acabou por perder 30 minutos a procurar indicações por si própria.

Gyul Lee teve uma experiência semelhante. “A população parece não ter ideia nenhuma do que os visitantes estão a perguntar. Pedir direcções para o templo de A-Má com a designação em inglês ou coreano não resultou”. O mesmo acontece com taxistas, que, muitas vezes, “não estão formados para lidar com turistas e sabem muito pouco inglês ou nenhum”.

As académicas concluem, destas entrevistas, que a conversão do nome dos vários locais é uma “operação mais difícil do que pode parecer à primeira vista”, sobretudo num local como Macau onde há várias possíveis línguas de origem para as traduções. Isso leva a que os nomes dos locais apresentados pela DST e pelo KNCU não sejam consistentes. “Como resultado, um turista que tenha consultados as duas fontes, pode encontrar dois nomes completamente diferentes para o mesmo local”.

Suh-hee Choi e Cora Un destacam que não é objectivo deste estudo criticar a informação fornecida nem propor um melhor sistema de conversão mas sim sugerir que, particularmente “em casos difíceis como Macau”, esta questão “merece mais atenção do que tem recebido por parte dos responsáveis pela gestão do turismo, tanto na esfera pública como privada”.