A artista portuense Ana Aragão está de regresso a Macau, desta vez para exibir na Casa Garden um conjunto de trabalhos inéditos que retratam uma nova abordagem do conceito que tem vindo a explorar há já quase seis anos. Desta nova colecção faz parte um Mapa de Macau – em grande dimensão e desprovido de cor – concebido a partir da leitura e interpretação pessoal da artista, conjugado com o estudo da construção da cidade, mas mesclado numa concepção utópica de um lugar que poderia existir entre a realidade e o imaginário

 

Catarina Almeida

 

Ana Aragão, a artista que “faz desenho”, está de regresso a este lado do Oriente. As paisagens do território captadas na sua primeira visita, no ano passado, a reboque de outro pretexto, servem também de base para o que se propõe a revelar amanhã na Casa Garden. A mostra “Vertical Reclamation of Individual Spaces” insere-se no âmbito da residência anual da Fundação Oriente, desta feita integrada nas comemorações do “Junho, Mês de Portugal”.

A viver no Porto, Ana Aragão dedica-se, entre outros formatos, ao desenho de cidades que habitam no seu imaginário e que transpõe, de forma quase intuitiva, para o papel. Chegou a Macau no início do mês, trazendo 10 trabalhos inéditos que tem “vindo a desenvolver ao longo de muitos meses” e que reflectem uma nova abordagem e técnicas da artista. Até à abertura da mostra, que ficará patente durante cerca de dois meses – com curadoria de João Ó -, Ana Aragão tem trabalhado intensivamente num mapa de Macau. Um desenho de grande dimensão, inteiramente arquitectado com caneta preta BIC, que acaba por cruzar um “estudo da evolução de Macau” e a experiência e vivência pessoal da artista com o território. “Existe um estudo acerca da evolução da cidade até efectivamente começar a crescer e a conquistar espaço à água – que é assim que a cidade se tem vindo a construir e que é muito interessante. Há também o estudo do contraste entre a cidade desenvolvida espontaneamente, com uma malha intricada, de difícil simplificação, e aquela cidade […] absolutamente pensada e feita pela mão do Homem”, explica, em conversa com a TRIBUNA DE MACAU.

Ilustração feita para a 14ª Bienal de Veneza

Esse cruzamento entre os diferentes “pontos que marcaram o percurso ao longo destes dias”, mediante as viagens pelas diferentes malhas e artérias locais, ajudaram a que este projecto específico sobre o território começasse a ganhar forma. “Claro que é um mapa subjectivo e parcial, obviamente, porque é uma leitura e interpretação. Contudo, é uma interpretação que tem muitos sentidos ocultos, ou seja, muitas coisas para descobrir, com muito detalhe que vai, pelo menos, desafiar as pessoas de Macau a entenderem e cruzarem a Macau deles com a minha Macau. Acho que vai haver lugar para um diálogo interessante com os observadores neste mapa que me está a dar um gozo e um trabalho incrível”, salienta.

Este objecto gráfico que apresenta reflecte, por si só, um fascínio pessoal por Macau, que “tem imensas camadas”, o que torna esta representação “extremamente difícil”. “É uma cidade com infinitas camadas que, realmente, são inextrincáveis o que acaba por ser muito estimulante, mas adoro cenários assim”, admite.

As jornadas pelas ruas de Macau têm permitido uma “imersão muito grande nesta experiência urbana” devido a uma série de realidades como “a forma como nos chamam os letreiros”, passando pelas “quase infinitas” gaiolas e “incontornáveis” grades que se acumulam nos prédios; aos “edifícios altos de arquitectura banal”, que servem de habitação, à “incontornável camada do jogo” que é também “absurda e sem limites”, descreve.

Há também “uma mimetização, enfim, de gostos europeus e mundiais”. “São ícones realmente levados ao limite e esse contraste entre o pequenino altar que está no passeio até ao absurdo casino de dinheiro incontável é o que mais me impressiona”, conta.

 

Dos ícones à ironia arquitectónica  

Partindo para uma análise particular, a exposição que Ana Aragão apresenta agora no território reflecte também um desafio profissional, com a artista a apostar numa abordagem marcada por trabalhos de maior dimensão concebidos noutro material.

Pretende com o produto final motivar o público a questionar-se sobre a “pertinência de construirmos ainda ícones arquitectónicos na cidade actual que, eventualmente, já é uma espécie de território global”. Por outro lado, “há uma crítica subentendida à arquitectura enquanto produto mediático, de consumo, como tudo o resto, mas o meu foco é a arquitectura”, explica.

O ponto de partida para estas questões é um rol de cinco desenhos que são, no fundo, reinterpretações irónicas, de edifícios que existem e que “são os mais tecnológicos, mais caros, mais altos, espectacular, enfim, tudo o que seja o edifício ‘mais’”. “Propus uma leitura de uma certa decadência, ou seja, em vez de serem objectos brilhantes para chamar a atenção dos investidores, dei-lhes um twist um bocadinho mais negro e saturei-os de informação”, aponta. Informação essa que foi, de resto, buscar ao baú das memórias da primeira vinda a Macau, em 2017. “Os ares condicionados, fios, letreiros, objectos do quotidiano que vão sendo projectados na fachada e janelas”.

Além desta componente, estarão representados os “anti-ícones”: “edifícios de estruturas altas e que se estivessem efectivamente construídos chamariam a atenção das pessoas, mas que são feitos apenas de arquitectura banal”. “Isto tudo para questionar o possível crescimento da cidade e também qual a liberdade que ainda temos de nos apropriarmos do espaço que tantas vezes parece tão condicionado, mais pequeno, etc”, explica.

No fundo, Ana Aragão explora também a “relação entre o global e depois o individual, a pessoa” – ao adicionar estes elementos mais humanos nas peças em causa.

A Casa Garden exibe ainda outra secção no âmbito da mesma mostra que pretende funcionar como retrospectiva da artista portuense ao longo destes quase seis anos de trabalho numa expressão artística tão particular. “Tem alguns trabalhos importantes do meu percurso como as tapeçarias que fiz em colaboração com a Ferreira de Sá, um projecto com a Jofebarr, alguns rótulos de garrafas que desenvolvi com a Porto Barros, alguns cartazes para determinados eventos e ainda um vídeo, que será exibido pela primeira vez, em que sou eu à conversa com os arquitectos Nuno Grande e Camilo Rebelo e que, enfim, discutem comigo estas questões que me proponho abordar”, desvenda.