O director do GCS apelou aos órgãos da imprensa local para que “saiam do território”, através dos novos meios de comunicação. Porém, para Lam U Tou, presidente da Associação de Sinergia e antigo jornalista, apesar de muitos jornais tentaram aproveitar os novos meios de comunicação não o fazem de forma ideal, podendo comprometer a qualidade da informação passada ao público. A aposta deve assentar em conteúdos únicos, defende, alertando ainda para a falta de quadros no sector devido ao preconceito de que é uma profissão sem futuro
Rima Cui
Cerca de 200 académicos e profissionais participaram na “Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento Global dos Média” subordinada aos temas “Uma Faixa, Uma Rota” e “inovação e cooperação dos média”.
À margem do evento, o director do Gabinete de Comunicação Social (GCS) realçou que a ascensão dos novos media faculta melhores oportunidades de desenvolvimento para o sector, contribuindo para atrair um universo maior de público e abranger mais conteúdos. Nesse sentido, Victor Chan apelou à imprensa local para não se focar apenas nos assuntos locais e procurar meios para “sair do território”.
“Os media locais podem aproveitar as vantagens de Macau, enquanto Centro Mundial de Turismo e Lazer e plataforma sino-lusófona, para reforçar o contacto com a imprensa exterior, encontrando novos caminhos de desenvolvimento”, sugeriu.
O director do GCS reiterou ainda que o Executivo da RAEM respeita completamente a liberdade de imprensa, sendo que o Gabinete de Comunicação Social assume como sua competência promover e ajudar o seu desenvolvimento.
Por ocasião desta conferência mundial, o Chefe do Executivo encontrou-se com Tan Tianxing, sub-chefe do Departamento de Trabalho para os Assuntos da Frente Unida do Comité Central do Partido Comunista da China. No discurso proferido no evento, Tan Tianxing deixou quatro conselhos para o futuro desenvolvimento dos media, nomeadamente insistir na responsabilidade social, aumentar a sua competitividade fundamental, respeitar as circunstâncias, dando prioridade aos novos media, e, impulsionar o desenvolvimento integrado do sector, através da inovação.
A conferência foi patrocinada pela agência Xinhua, o jornal “Ou Mun” e a Fundação Macau, com co-organização do CGS e da Associação de Chineses Ultramarinos Retornados de Macau.
A imprensa tradicional e os novos media
Apesar de concordar com a necessidade de aproveitar a “onda” dos novos meios de comunicação, Lam U Tou, presidente da Associação da Sinergia de Macau, considera que, acima de tudo, será importante que a imprensa tradicional aprofunde o seu conhecimento sobre as técnicas e modelos desses novos meios. Além disso, deve prestar mais atenção à escolha de conteúdos.
“Os novos media têm gerado uma crise na imprensa tradicional. Para se adaptarem às novas operações e para diminuir a disparidade, os media tradicionais têm vindo a reforçar a divulgação online, mas neste processo, não é feito um aproveitamento ideal desses novos meios. Desapareceram muitas vantagens da imprensa tradicional e os conteúdos usados podem não ter a melhor qualidade, sendo que, em muitas situações, a imprensa tradicional insere simplesmente os conteúdos, estando em desarmonia com o público”, apontou à TRIBUNA DE MACAU.
Como antigo jornalista, Lam U Tou afirmou que, para corresponder às exigências das notícias instantâneas curtas e resumidas, por vezes há situações que não são bem explicadas e os dados não são muito claros. “Se isto continuar, a credibilidade da imprensa tradicional poderá diminuir, por isso, se esses meios pretendem seguir a tendência dos novos media, têm de envidar esforços para escolher notícias de boa qualidade, direccionadas e com características únicas”, sublinhou.
Para além disso, o presidente da Associação de Sinergia alertou para a deterioração da qualidade das reportagens longas feitas por jornais em papel. “Na verdade, existe uma certa procura por reportagens sistemáticas e temáticas que critiquem os vícios da sociedade e apresentem soluções. Contudo, os jornais enfrentam desafios motivados pelos custos e pela necessidade de manter a quantidade desse tipo de reportagens, por isso muitas vezes a qualidade não surge como prioridade”, salientou.
Por outro lado, Lam U Tou lamentou o facto do Governo comunicar menos com a imprensa. “Quando eu era jornalista, o Governo levava a cabo frequentemente comunicações profundas com os media, que assim conseguiam perceber melhor as políticas das autoridades”.
O antigo jornalista apontou ainda que, devido ao sistema de financiamento e falta de competição ligada à fragilidade do mercado, os meios de comunicação locais vivem num ambiente geral muito mau, em que as exigências relativas à qualidade dos conteúdos são cada vez mais baixas e é difícil reter quadros de qualidade.
Lam U Tou acredita que, hoje em dia, o sector enfrenta o desafio da falta de quadros, sendo principalmente sustentado por não locais, devido a remunerações relativamente baixas e ao preconceito social de que o sector não tem futuro.



