A Cardinal*
Quando se fala de ilusionistas amadores num ambiente, supostamente, “dominado” por ilusionistas profissionais, parece estar a aceitar-se a existência de duas espécies de mágicos posicionados num modelo em degrau, operando, entre si, num espaço de vivência desarticulada e conflitual.
Não corresponde, no todo ou no quase nada, à sã e frutuosa convivência existente entre praticantes que são arrumados ou identificados por via da suas capacidades, menores ou maiores, no conceito da hierarquia. A consideração ao amador, atribuída pelo profissional, ou vice-versa, é uma constante quando em causa estão os valores inerentes à profissão do profissional, neste caso do ilusionista que dali tira o seu salário estabelecido por cachet.
É ainda, no inconformismo dos amadores que mais se extrai a divulgação, inovação e/ou aplicação das novas tecnologias. São ainda quem mais tempo dedicam à criatividade à planificação, ao estudo e mais participam, na esmagadora maioria das Associações de Mágica, fomentam e estimulam a realização de centenas de Festivais/ano pelo Mundo. A realização trianual FISM é disso um bom exemplo. Seguramente dos cerca de 3.000 inscritos, 80% desses são ilusionistas amadores.
Para essas realizações – Festivais – são convidados ilusionistas profissionais (de salário) seja na qualidade de actuantes, conferencistas, júri ou, expositores/vendedores.
Das largas centenas de milhar de ilusionistas amadores, alguns com profissões ditas nobres, não se ausentam monarcas como Alfonso XIII, rei espanhol, o príncipe da Dinamarca, Knud, João Bosco – Santo João Bosco padroeiro dos Ilusionistas- o duque de Edimburgo (príncipe Filipe), ou o aviador Charles Lindbergh, o escritor Charles Dickens, o genial actor de cinema Orson Welles, falecido em Outubro de 1985, aos 70 anos de idade. Welles foi casado com a também afamada actriz americana Rita Hayworth, sua terceira esposa, no período de 1943/1948. Ou o nosso almirante Gago Coutinho, nascido em 1869, com passagem, em comissão de serviço, por Timor em 1912, pioneiro da aviação, glorificado mundialmente após a primeira travessia aérea do Atlântico Sul na companhia de Sacadura Cabral, no contexto das celebrações do 1º centenário da independência do Brasil.
O amador ilusionista contra-almirante Gago Coutinho (infelizmente apagado nas memórias das gerações actuais) viria a ser promovido a almirante aos 90 anos de idade, exactamente na véspera do seu falecimento. Pode dizer-se, com amarga ironia, que a magia de ser almirante, em vida, foi de, apenas, um dia.
Na advocacia e nos anos recentes, encontramos Arturo de Ascânio, que bem conheci, 1º Prémio FISM/Holanda em Cartomagia, em 1970. Nascido em 1929 viria a falecer em Madrid, em 1997. Revolucionou a concepção psicológica aplicada na magia. Os seus efeitos e técnicas confirmavam, de forma sólida, a teoria que desenvolvia, mereceu o reconhecimento da comunidade mágica de Espanha ao instituir o “Prémio Ascânio” do qual Helder Guimarães, campeão FISM em Cartomagia, tornou-se, também, o primeiro e único português a vencer, em 2004.
– Neste mês de Novembro lembramos, 41 anos depois, a morte de Cardini, ilusionista nascido a 24 de Dezembro de 1874 e falecido em 1973. Brilhante no estilo, construiu, com a esposa Swan Walker, um número original de manipulação de impacto extraordinário, com cigarros e cartas, por muitos copiado mas nunca igualado. Foi soldado na I Guerra Mundial e ferido em 1916, conduzido ao hospital onde ficou internado, aproveitou esse período para praticar e desenvolver técnicas originais de manipulação com luvas.
– Pires de Lima que em tempos disse ser um “soldado” neste Governo, tomando, desta vez, como palco a Casa da Democracia deu azo à criatividade e brindou os portugueses e o Mundo com um “show” na linha do trágico-cómico com destaque para os alongamentos e nuances de voz. O “soldado” surpreendeu, enquanto comediante mas desiludiu como ministro. Dúvida de Mágico: será que esta actuação do “soldado” põe em causa a liderança do anedotário governamental? Rui Machete que se cuide.
– O amigo Fenando Neves num truque, para o qual estou bem preparado, fez-se desaparecer no passado domingo. Eu, ilusionista, vou encontrá-lo. Quando? Não me comprometo.
* Ilusionista – Coordenador do Magic Valongo Festival Internacional de Ilusionismo.




