Movida pela realidade de Cabo Verde, seu país de origem, mas também visível um pouco por todo o mundo, Dina Salústio começou a escrever sobre a condição da mulher e as desigualdades de género em diversas situações da vida quotidiana. A escritora quer juntar a sua voz a outras para dizer às mulheres que é preciso gerir melhor as emoções e que também elas devem ser uma fonte de protecção da sociedade e até dos homens

 

Inês Almeida

 

Dina Salústio esteve pela primeira vez em Macau por ocasião do Festival Literário “Rota das Letras” onde falou sobre o seu primeiro romance “A Louca de Serrano”, que comemora 20 anos este ano e fala sobre a vila de um país não identificado, cujo nome advém de uma mulher louca.

“Quis escrever sobre situações que me incomodavam e que incomodavam a sociedade cabo-verdiana e até mesmo perceber quais eram as inquietações que se colocavam ao mundo inteiro, como a problemática das mulheres. Isso levou-me a escrever o livro e procurei transpor essas situações limite que nos perturbavam a todos”, explicou Dina Salústio à TRIBUNA DE MACAU.

Entre as situações que lhe desagradam estão “a violência doméstica, desigualdade nas lei, a falta de voz da mulher, de oportunidades concedidas às mulheres e desigualdades sobretudo legais porque [em 1998] uma mulher não podia viajar sem autorização do marido, não podia levar os filhos sem autorização dele”, frisou a autora, ressalvando que a última situação é algo compreensível. Ao mesmo tempo, as mulheres “eram a camada mais analfabeta do país, mais pobre, desempregada”. “Isso perturbava-me”.

Infelizmente, hoje em dia “ainda faz sentido [falar destas questões] porque apesar de as coisas terem melhorado ao longo do tempo, de termos uma legislação muito boa em relação à violência, à desigualdade, as situações continuam a existir”, explicou a escritora. “A desigualdade salarial é visível, as mulheres não ocupam os postos cimeiros da função pública. Vai havendo [mulheres], mas para cada cinco homens há uma mulher”, lamentou.

Além disso, há “comportamentos sociais muito agrestes em relação à mulher”. “Se vamos na rua, os homens ainda nos insultam por usarmos uma mini-saia ou um decote”. “O assédio sexual no espaço laboral também é um problema que ainda existe e temos de lutar contra ele”, exemplificou. Outra das preocupações de Dina Salústio é o facto de “a mulher não ter ainda a firmeza” necessária. “Há algumas mulheres que se deixam subjugar pela afectividade. Isto tudo são coisas que perturbam e continuam a existir”.

Assim, a autora cabo-verdiana começou a escrever contos, poesia e romances com um propósito bastante específico. “É para juntar a minha às outras vozes e dizer às mulheres que estamos juntas, que também sofremos isso na pele, que às vezes facilitamos um bocado as coisas que acontecem e que o processo precisa de ser outro”, destacou. Para tal, “precisamos de gerir melhor as nossas emoções”.

Dina Salústio destacou ainda a importância da “não dependência afectiva”. “Aquela ideia de que o homem protege a mulher tem de ser desfeita, temos de nos proteger, de ter o nosso discurso e de ser uma fonte de protecção da sociedade, dos homens inclusive”, defendeu a escritora cabo-verdiana.