O Governo convocou ontem uma conferência de imprensa durante a qual o IACM disse ter um plano para os galgos caso a Yat Yuen não apresente nenhuma solução até amanhã, no entanto, não adiantou mais pormenores, indicando apenas que preferia não ter de dar uso à estratégia. O presidente da ANIMA criticou a posição do Executivo por considerar que a divulgação de um plano pressionaria a empresa a encontrar uma solução, ressalvando, porém, que o Executivo vai “de certeza absoluta” ficar a gerir o espaço. Sulu Sou também acredita que essa é a opção “mais fiável”

 

Inês Almeida e Viviana Chan

 

O Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM), a Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ), a Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT), o Instituto do Desporto (ID), a Direcção dos Serviços de Finanças (DSF) e o Porta-voz do Governo organizaram ontem uma conferência de imprensa conjunta na qual passaram uma mensagem clara: terá de ser a Companhia de Corridas de Galgos a encontrar uma solução para os animais até amanhã. O Executivo só intervirá caso nada aconteça até ao fim do prazo de concessão do terreno. O IACM diz já ter um plano delineado, porém, não avançou detalhes.

O presidente da Sociedade Protectora dos Animais de Macau (ANIMA) criticou a falta de clareza. “Se fosse Governo, anunciava o plano. A razão é simples: é que a Yat Yuen não vai ser autorizada a movimentar animais de um lado para o outro. Para onde é que vão levar os animais? Não podem levar para casa de Angela Leong. O Governo já podia anunciar o que vai fazer, nesse dia, se os animais não forem movidos. Isso se calhar até pressionava a Yat Yuen a encontrar uma solução”, sublinhou Albano Martins em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

“Ao longo de tantos anos que a ANIMA anda a dizer que estas questões não se resolvem de um dia para o outro, que é preciso preparar, é preciso pessoal, e o Governo actua quase de emergência, o que não é bom”, referiu. Assim sendo, “qualquer que seja a solução, provavelmente, nos primeiros tempos vai ser complicado gerir”. “A curto prazo, um mês ou dois, os animais ficarão numa situação muito pior do que quando estavam com a Yat Yuen”.

No fundo, entende Albano Martins, “é tudo muito pouco claro e concreto a dois dias do final da concessão”. “Ninguém diz preto no branco o que vai acontecer. A dois dias do final, fazer um plano de contingência a correr e não o assumir já não me parece adequado”.

O presidente da ANIMA justifica a situação actual com a atitude da administradora da Companhia de Corridas de Galgos. “Isto é tudo porque Angela Leong, com a sua política ‘quero, posso e mando’, esteve convencida até ao último momento de que ia convencer o Governo a ficar lá mais tempo. Ela não consegue perceber que os tempos mudaram”, criticou Albano Martins, que ainda foi mais longe. “Angela Leong devia pôr o director do Canídromo, Stanley Lei, em tribunal por gestão danosa, porque ele foi o principal responsável pelo facto de o Canídromo ter chegado à situação a que chegou, uma situação lamentável do ponto de vista social da comunidade, financeiro para o Canídromo e na medida em que criou uma situação que vai manchar a imagem de todas as organizações ou empresas que estejam com Angela Leong, incluindo a Sociedade de Jogos de Macau, que é a questão mais importante do universo de Angela Leong”, acredita Albano Martins.

Ao longo dos últimos dois anos já podia ter sido feito um plano, “apresentado e negociado”, considera o mesmo responsável. “Mesmo que não quisessem negociar com o Governo ou a ANIMA, tinham um plano para resolver o problema. Não é dinheiro que lhes falta, é perderem um pouco da arrogância, porque a arrogância já não governa ninguém em Macau neste momento”.

 

Colaborar pelas adopções

Ontem de manhã, sete associações de defesa dos direitos dos animais e a Associação Novo Macau (ANM) entregaram uma carta ao IACM exigindo que o Executivo tome conta dos galgos. A presidente da Associação de Protecção dos Animais Abandonados de Macau (APAAM) sugeriu um ano como período em que as associações poderiam ajudar o IACM com as questões da adopção.

Yoko Choi estima que é possível resolver a questão localmente até porque “se forem exportados para outro país, deve ser um onde haja uma lei de protecção dos animais”. “Desconhecemos o plano do IACM mas, pelo menos, pretendemos que o IACM não tenha uma postura demasiado descontraída, tem de cumprir a Lei de Protecção dos Animais”.

Recordando o caso da morte de um galgo 10 horas depois de ser adoptado, Yoko Choi frisou a necessidade de o IACM examinar todos os galgos do Canídromo, caso venha a tomar conta do espaço.

Além da APAAM, a carta entregue ao organismo liderado por José Tavares foi assinada pela Casa de Animais Abrigo dos Long Long, a “Everyone Stray Dogs Macau Volunteer Group”, a “Dandelion Animals Protect Association of Macau”, a “Macau Animal Welfare Association (MAWA)”, “Macao Volunteer Association of Furry that wish a family — Furmily”, Associação Protectora para os Cão Vadio de Macau e a “Paradise for Homeless Dogs”, bem como pela Associação Novo Macau (ANM).

A ANIMA foi também convidada para a conferência e a assinar a carta entregue, porém, optou por não o fazer embora apoie a iniciativa. “A ANIMA ouviu com muita atenção o que disseram, leu o texto todo e concorda integralmente com o texto mas não assina aquela carta apenas porque ela é assinada por um político. Se fosse só pelas associações de protecção dos animais, a ANIMA tinha todo o prazer em assinar”, indicou Albano Martins.

De qualquer forma, a associação “comprometeu-se a mandar uma carta ao IACM hoje [ontem] ou amanhã [hoje] a dizer que concorda com a solução e que também quer ser parte activa na solução”. “Comprometemo-nos a enviar uma carta ao IACM e dar apoio à carta que fizeram, pôr termo a essa guerra do passado, pró-corridas ou contra as corridas, que já não faz sentido porque elas terminaram”.

Depois de ao início da tarde o IACM ter assegurado que estava a negociar com os organismos congéneres de Hong Kong a simplificação do processo de adopção, Albano Martins frisou que é tudo relacionado com a quarentena. “É facilitar que grande parte da quarentena seja feita em Macau e a última quarentena de um mês seja feita na casa do residente de Hong Kong e não ser feito no canil municipal porque não tem capacidade para isso”.

Albano Martins acredita que “o que o Governo vai fazer, de certeza absoluta, é ficar a gerir o Canídromo”. “Se a Yat Yuen quiser, mais tarde, ter os animais de volta, terá de ter um terreno e, então, paga as penalizações que vai ter de pagar ao Governo pelo abandono dos animais lá, mas se assim for, nenhum desses animais vai ser adoptado”, alerta o presidente da ANIMA. “Vai comprometer todas as adopções porque a partir do momento em que os animais ficam à guarda do IACM, se a propriedade não for transferida, não pode haver adopções. Essa é outra coisa que me deixa muito perturbado”.

Por este motivo, era necessária mais clareza nas estratégias do Governo. “Tem de se dizer que a Yat Yuen perde os animais e que o IACM fica com eles e faz uma adopção responsável. Gostava de ouvir isso do Governo, mas são políticos, uma vez dizem uma coisa, outra dizem outra, ou não dizem nem uma nem outra, por isso, estamos no meio de um cenário muito turvo”, atenta Albano Martins.

Para Sulu Sou não há dúvidas de que a Companhia de Corridas de Galgos “não vai conseguir ter um plano adequado dentro de dois dias”. “Sem dúvida que a Yat Yuen deve assumir a responsabilidade pelo caso. A companhia pode desistir dos galgos mas deve assumir as responsabilidades, ou seja, pagar a multa. O IACM deve insistir na questão”, sublinhou o vice-presidente da ANM. “Na realidade, mesmo que abandonem os animais, os galgos não podem ficar na rua, têm de ficar em algum sítio, provavelmente no canil do Canídromo. Nesse caso, desconfio que todos os custos podem ser cobrados de forma legal à Yat Yuen”.

Por essa ordem de ideias, “o IACM tomar conta do Canídromo é o plano menos arriscado e pode ser mais fiável”. “Esta deve ser também o último recurso, porque já estamos em cima da hora. Não acredito que o Canídromo consiga ter um plano ou uma solução para este cenário mas quando o IACM tomar conta do Canídromo também não pode ser para sempre, por isso, as associações locais de protecção dos animais concordam que podem cooperar com o IACM para trabalhar no tratamento dos animais”.

 

Responsabilidades não acabam sexta-feira

Na conferência de imprensa de ontem o vice-presidente do IACM reiterou a mensagem já transmitida várias vezes: “A 20 de Julho o Canídromo vai ter de sair. O IACM já enviou vários ofícios para o Canídromo que tem de cumprir as responsabilidades. A companhia não pode passar a responsabilidade de tratar dos cães para o Governo e tem de encontrar adoptantes”, indicou Lei Wai Nong.

“O IACM, como responsável pela protecção dos animais, depois de 20 de Julho, vai interferir se houver abandono de cães. Vamos acompanhar e interferir nos processos se houver necessidade. Temos um plano de contingência para isto, não vamos deixar que qualquer animal fique sem casa”, assegurou o mesmo responsável.

Caso seja necessário, “a Yat Yuen tem já um espaço para os cães”. “Vamos ponderar um local para alojamento provisório dos cães, que é da Yat Yuen, mas não queremos que se dê esta situação. Além disso, 20 Julho não representa o termo das responsabilidades”, destacou indicou Lei Wai Nong.

De qualquer modo, até ao momento, o IACM acredita que “o Canídromo vai assumir as responsabilidades”. “Havendo casos de abandono vamos tomar medidas especiais para tomar conta dos cães, mas no registo do IACM os galgos pertencem à Yat Yuen”, por isso, reiterou o vice-presidente, a responsabilidade “continua a existir” no dia 21.

Assim, a empresa tem “de procurar donos para os galgos”. “Temos de assegurar que os galgos não vão deixar de ter uma casa e ser abandonados. Se quando o Canídromo sair houver galgos abandonados vamos tomar conta desses animais”, garantiu o vice-presidente do IACM.

A última vistoria ao Canídromo por parte do IACM aconteceu na terça-feira e o organismo verificou “que os cães são bem tratados”. Ainda assim, “gostava de destacar que a companhia deve tomar conta dos galgos”.

No contrato de concessão da Companhia de Corridas de Galgos não há nenhuma cláusula referente ao tratamento que deve ser dado aos animais, no entanto, assegura Paulo Martins Chan, “é aplicável a Lei de Protecção dos Animais”.

O director da Inspecção e Coordenação de Jogos falou também da situação dos trabalhadores. “Desde 2016, quando informámos a companhia de que ia ter de sair, os trabalhadores falaram com a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais que vai fazer o possível para ajudá-los a fazer bolsas de emprego”. O Canídromo emprega 129 trabalhadores.

 

O futuro do terreno

Terminado o prazo de concessão, as instalações do Canídromo passarão a pertencer à Administração e compete à DSF “receber os equipamentos de apostas”. “Vamos fazer um inventário e receber todo o património”, assegurou o director. Além do terreno, está prevista a reversão de todos os “edifícios, instalações e equipamentos”, de acordo com os termos do contrato de concessão. Os galgos não estão incluídos, frisou Iong Kong Leong.

Presente também na sessão, o director dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes referiu que o terreno tem uma área de 40.000 metros quadrados. “Após recebermos [o terreno] vamos fazer trabalho de limpeza e depois de tratarmos dos equipamentos vamos ver se podem ser aproveitados ou não. O que não puder ser aproveitado demolimos para que possa ser um terreno de reserva. O plano está praticamente pronto”, assegurou Li Canfeng, recordando que o lote será utilizado para fins de educação, desporto e construção de instalações públicas.

Sobre a questão das actividades desportivas falou Pun Weng Kun, apontando que o centro desportivo estará aberto ao público. “Há actividades que decorrem ali como futebol, natação ou atletismo. Agora só podemos ter [actividades] duas noites por semana, com a deslocação pode ser usado sete noites por semana”.

 

Jockey Club não apresentou pedido sobre galgos à DICJ

Não chegou à Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos  qualquer pedido com vista a alojar os galgos nas antigas cavalariças do Jockey Club por parte do mesmo. A garantia foi dada por Paulo Martins Chan indicando que deve ser o Jokey Club e não a Yat Yuen a apresentar o requerimento. “O pedido para alojar [galgos] no Jockey Club devia ter sido feito pelo Jockey Club mas não foi apresentado nenhum pedido”. Além disso, apontou o director da Inspecção e Coordenação de Jogos, as instalações podem apenas ser usadas para restauração e entretenimento. A deslocação dos galgos do Canídromo para lá implicaria, por isso, uma alteração da finalidade daqueles espaços.