A contestação dos moradores da Taipa foi suficiente para motivar o Governo a recuar e suspender a construção do crematório no Cemitério Sa Kong. Para o IACM, importa esclarecer a população sobre este equipamento e avançar com a revisão legislativa por forma a escolher um local mais apropriado, fora de um cemitério. José Tavares considera que a localização proposta era a “ideal” e não representava perigos para a saúde pública, mas os vários obstáculos levantados pelos residentes pesaram muito nesta decisão que, de resto, envolve um “risco” que todos devem assumir
Catarina Almeida*
A população reclamou e o Governo recuou. A proposta de construção do crematório no Cemitério Sa Kong na Taipa caiu por terra, revelou ontem o presidente do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM). A ideia é avançar com uma revisão à legislação – à luz da qual só é possível construir um crematório dentro de um cemitério -, elucidar a população sobre estas instalações e escolher um local “mais apropriado”.
Esta decisão irá arrastar ainda mais a construção de um equipamento necessário para fazer face a eventuais surtos de doenças infecto-contagiosas, já que o risco de contágio de um corpo exumado é muito inferior. A isto soma-se também o aumento da procura por parte deste serviço já que 75% dos mais de 2.100 falecidos no ano passado foram transladados para a China.
Para o organismo “sem a revisão é muito difícil encontrar um sítio melhor porque [a lei] obriga-nos a construir as tais instalações dentro do cemitério”. “Depois teremos mais hipóteses para encontrar um local mais disponível e de acordo com as expectativas das pessoas. Somos um órgão que quer ouvir as pessoas e havendo uma opinião muito forte a contrariar esta nossa sugestão estamos abertos”, disse José Tavares, que se mostrou “chocado” com a reacção da sociedade.
Assim, acrescentou, serão necessários “talvez dois anos para mudar a lei, mais um ano e meio para encontrar um terreno e talvez tenhamos de fazer nova auscultação antes de lançar a decisão final para prevenir o que aconteceu hoje. Julgo que vai levar uns bons anos para chegarmos a bom porto”.
Todavia, não deixa de ser uma decisão tomada na base do contraditório. Isto porque, segundo José Tavares, a intenção do Governo com este serviço fúnebre iria respeitar as exigências europeias, o meio ambiente e garantir a saúde pública. Seria um equipamento “ecológico”, “eficiente” e que “não emitisse gases poluentes para o exterior”. “O gás natural foi uma das coisas que pensámos porque essa zona já está bem circunscrita para [receber] canalizações de gás natural e também porque é um combustível bastante ecológico”, disse, dando como exemplo o que é praticado em Hong Kong, onde os crematórios chegam a estar a 200 metros de distância de zonas habitacionais.
O cemitério de Sá Kong seria, na visão do IACM, o local ideal. “Atrás do cemitério há um monte que criaria um efeito biombo, [funciona como] uma espécie de separador que divide o cemitério dos bairros habitacionais. Em termos de planeamento urbano é um local ideal para minimizar o impacto na vida da população. O trajecto entre as casas fúnebres e o cemitério é de sete quilómetros o que é bastante conveniente para o transporte de cadáveres. Em termos de localização, tendo em conta todos os factores, é de facto o local ideal”, argumentou.
“É um risco que estamos a correr”
Porém, para José Tavares, a opinião da população é de grande importância para o organismo pelo que será melhor adiar o projecto enquanto não houver consenso. “Ainda ontem recebi uns moradores que me disseram ter muita reserva sobre o sítio onde íamos construir o crematório. Pelo que ouvi na rádio e li nas redes sociais achámos por bem suspender agora o presente sítio porque havendo tanto obstáculo por parte dos residentes da Taipa julgo que devemos ouvir e respeitar”.
Ainda assim, advertiu que se está a correr um risco com este adiamento. “É uma responsabilidade que deve ser assumida tanto pelo Governo como pela população. É um risco que estamos a correr porque a população e a procura por este serviço estão a crescer, mas espero que no futuro se possa encontrar uma solução através da revisão da legislação. Ao mesmo tempo procuramos encontrar um local mais apropriado para este fim”, vincou.
Por outro lado, José Tavares admite que na próxima tentativa para avançar com o crematório a população deve ser mais e melhor informada. “Houve, sem dúvida, falta de informação”, reconheceu, ressalvando ainda assim que não foi possível dar informações atempadas. “Não podíamos com uma certa antecedência divulgar os acontecimentos para a população saber o que estávamos a pensar saber. Não se comungou essa informação e, de repente, quando viram as notícias sobre a PCU reagiram desta maneira”, acrescentou.
Esta falta de informação motivou, portanto, uma reacção desfavorável de moradores da zona e outras partes, nomeadamente imobiliárias. Segundo José Tavares, houve quem temesse que os imóveis adjacentes e até outros mais afastados perdessem valor por causa do crematório. “O primeiro passo será esclarecer o que é um crematório, o que não está a ser feito. Depois, abrir a legislação para encontrar um sítio mais propício para que pessoas não tenham medo, por razões culturais ou outras, de ver o crematório ali. Isto tem de ser ponderado”, concluiu.
Ontem, o director da DSAT, Lam Hin San, foi questionado pelos jornalistas sobre o facto da empresa gerida pelo seu irmão (Lam Hin Wai) e familiares ser uma dos sócios do projecto “Taipa Hills Memorial Garden” desenvolvido pela Shun Tak (accionista maioritário). Sobre esta informação, noticiada já há quatro anos, Lam Hin San rejeitou-se a tecer comentários. A aquisição foi reavivada pelo “All About Macau” já que o Cemitério Sa Kong da Taipa está perto do Cemitério Hau Si, em frente ao “Taipa Hill Memorial Garden”.
Na conferência de imprensa, depois de questionado pela imprensa de língua chinesa, José Tavares desmentiu que o irmão de Lam Hin San esteja também envolvido na empresa que gere o Sa Kong.
Mesmo com o recuo do Governo continua de pé uma intenção de protesto para domingo, às 15:00, a partir do Tap Seac. Mesmo após o anúncio do IACM, o grupo “Aliança contra a construção do crematório” quer manter a acção que conta já com o apoio de Sulu Sou e Pereira Coutinho. Na página de Facebook criada para o evento é referido que os legisladores irão ajudar o promotor com a entrega do aviso ao IACM.
* com V.C.



