O director-geral da Hovione Macau critica a pouca aposta no ensino mais direccionado para as Ciências, apelo que, de resto, renova sempre que se encontra com o Governo, explicou em entrevista à TRIBUNA DE MACAU. Esta realidade incentiva muitos residentes interessados na indústria farmacêutica a estudar no exterior deixando à Hovione a tarefa de promover o seu regresso para trabalharem no sector e, logicamente, na empresa. Na gestão da Hovione Macau há oito anos, Eddy Leong traça um balanço positivo da empresa que mantém uma relação “muito rica” com Portugal e tem planos para se expandir. Para o director-geral, a Hovione Macau é um bom exemplo que o Governo pode usar para “vender a ideia de que é importante diversificar” a economia

 

Catarina Almeida

 

-A Hovione Macau funciona há mais de três décadas. É director-geral há oito anos. Como “abraçou” esta responsabilidade?

-Tinha alguma vantagem [dentro da empresa] porque comecei na Hovione Macau na parte da produção. Desde então comecei a aprender o negócio principal da empresa que passa muito pela produção. Claro que, a partir do momento em que assumi este cargo de gestão, as coisas mudaram. Comecei a preocupar-me com muitos outros aspectos, nomeadamente, funcionários, negócios, desenvolvimento da empresa e como poderíamos estar ao nível de toda a estratégia do grupo. A parte mais importante foi perceber de que forma poderíamos potenciar o crescimento da empresa tirando partido do desenvolvimento de Macau e 30 anos depois as coisas estão diferentes, o ambiente e a sociedade.

 

-Imaginava a companhia na posição em que está  hoje?

-Quando me juntei à empresa, já eram criados alguns produtos-chave. Testemunhei o crescimento da empresa que tem trazido novos produtos e crescido de forma estável pelo menos nos últimos 20 anos. E, enquanto grupo [internacional], também cresceu bastante.

 

-O princípio activo do medicamento que deu o Prémio Nobel da Medicina a um norte-americano e japonês, em 2015, é produzido pela Hovione Macau. Sentiu que a empresa colheu alguns frutos dessa distinção?

-É um produto muito especial [medicamento contra os parasitas] na medida em que não só foi o primeiro produto sobre o qual recebi formação como o primeiro a chegar a Macau. Acompanho a evolução do produto há pelo menos 20 anos. É bom ver o seu crescimento e perceber que permitiu dar o Nobel da Medicina. Claro que nos deixou cheios de orgulho porque somos uma das maiores empresas que desenvolve este fármaco para consumo humano e é também um óptimo canal para que os residentes percebam que Macau não é só jogo, convenções e turismo e que, aliás, tem uma fábrica que trabalha há pelo menos 30 anos com e nesta indústria.

 

-Sendo uma empresa única em toda a China, esta situação facilita o negócio e agiliza relações com o Governo?

-Facilita no sentido em que não temos competição, não existem outras empresas deste género, pelo menos em Macau. Mas, precisamente por não haver outras empresas semelhantes, muitos procedimentos e políticas não foram feitas ou não são devidamente especializadas para esta indústria. Muitas vezes, o Governo tem de perder tempo para pensar e perceber de que forma vai agir em determinada situação. Quando tentamos submeter algo ao Executivo – seja de que ordem for – confrontamo-nos com um longo tempo de espera pois nem sempre se sabe bem como se deve/vai actuar. Resumindo, acabamos por ter as coisas mais facilitadas na medida em que não temos grande concorrência mas, ao mesmo tempo, perdemos algum tempo a explorar e avaliar como actuar de acordo com as leis que temos em vigor e as condições da nossa indústria.

 

-A relação com o Governo é positiva?

-Sim, é boa, mas também perdemos muito tempo a tentar compreender-nos mutuamente, ainda que estejamos mais próximos da população e da comunidade do que há 10 anos. No passado éramos uma empresa mais fechada, também porque não vendemos para o mercado local, para as farmacêuticas. O que, por arrasto, gera desconhecimento. As pessoas não vêem a nossa marca nas farmácias, só reconhecem o edifício, e mesmo assim o que vêem é a fachada que não transmite que tipo de empresa se trata, se é privada, pública…

 

-Foi neste sentido que sentiu necessidade de estabelecer o Dia Aberto?

-O Dia Aberto iniciou-se quando era responsável pela produção e segurança e quando começámos a ter vizinhos. Convidamos diferentes grupos sociais, mesmo que não vivam do lado oposto à fábrica, e explicamos o que fazemos porque é importante que se sintam seguros. Se não existir um canal de comunicação é claro que, em caso de dúvida, a primeira coisa que as pessoas fazem é contactar as autoridades. Portanto, durante o Dia Aberto, distribuímos panfletos, divulgamos a nossa linha aberta 24 horas na qual recebemos e esclarecemos dúvidas nos casos em que possam haver preocupações sobre qualquer tipo de movimento no perímetro da fábrica que possa suscitar preocupação. Ao longo deste anos, tem corrido muito bem. Recebemos chamadas, claro, mas maioritariamente são feitas num tom normal. Perguntam se está algo de errado e nós vamos investigar e ligamos de volta a explicar o que se passou.

 

-Há três/quatro anos, a Hovione Macau esteve no centro do descontentamento dos moradores do Edifício do Lago que receavam que os fumos emitidos fossem prejudiciais à saúde…

-Isto suscitou de facto alguma preocupação porque a verdade é que as pessoas acabam por fantasiar sobre aquilo que vêem porque não compreendem o que estão a ver. Por exemplo, vêem fumo branco a sair da chaminé… associam logo que estamos a poluir o ar ou que estamos a causar danos à saúde pública. Claro que depois explicamos que tipo de fumo se trata e as coisas ficam esclarecidas, mas, em todo o caso, achamos sempre por bem convidá-los [quem se queixa] a visitar a fábrica e aproveitamos para mostrar os nossos resultados laboratoriais, testes que fazemos e medidas de segurança que implementamos. Dizemos sempre que temos a porta aberta para mostrar o que somos, até porque somos muito transparentes em relação àquilo que fazemos.

 

-A zona habitacional à volta da Hovione Macau cresceu. Quando os terrenos estavam desocupados, alguma vez foram contactados pelo Governo para perceber os contornos que estes projectos teriam na zona e na própria empresa?

-Quando começaram a construir habitação eu ainda não estava na gestão da empresa, mas já tinha um contacto próximo com o então director-geral. A verdade é que escrevemos uma carta ao Governo a perguntar sobre o que se estava a passar, o que estava a ser construído mesmo em frente ao nosso edifício, mas não houve resposta. Quando construíram o segundo empreendimento habitacional tentámos também falar com o Governo, mas já calculávamos que não iria mudar nada porque este segundo projecto era muito maior e sabíamos que ia ajudar a colmatar algumas necessidades sociais. Compreendo que a cidade está em constante desenvolvimento, mas o Governo deveria fazer um melhor planeamento e saber como harmonizar a relação entre os projectos e as infra-estruturas já existentes.

 

-Mas face às actuais condições, a localização é ideal?

-É claro que sentimos maior necessidade de estar mais atentos e conscientes sobre aquilo que estamos a fazer se queremos manter uma boa relação com a vizinhança. É óbvio que não estaríamos na mesma posição se estivéssemos situados num complexo industrial. Não é que, nessas condições, pudéssemos ser mais relaxados em termos de normas e regras, mas não estaríamos sujeitos a tantas perturbações como agora. Mesmo trabalhando de acordo com a lei, os nossos vizinhos – e a população em geral – faz os seus próprios julgamentos, mesmo que esses ultrapassem a lei. Por outras palavras, mesmo que a lei me permita fazer barulho até determinada hora é claro que as pessoas preferem que não se faça barulho nenhum. É difícil. Mas, temos de ouvir e estar atentos a todo o tipo de comentários. Há determinados esforços que temos de fazer para garantir que continuamos cá. Não é errado estarmos nesta zona. Já lá vão 30 anos, e duas décadas de trabalho com a comunidade e a nossa vizinhança, que de certa forma ajudou a cultivar uma maior atenção e sensibilidade social para as questões ambientais e os nossos trabalhos. Perante tudo isto, continuamos a querer operar nesta localização, e a trabalhar no desenvolvimento dos nossos sistemas de segurança. Estamos também a trabalhar num sistema de tratamento ambiental para melhorar as nossas emissões e este é um dos maiores compromissos do nosso CEO em relação ao meio ambiente. O objectivo é garantir que podemos trabalhar harmoniosamente com os nossos vizinhos. E, mais uma vez, é por isso que organizamos o Dia Aberto, até porque aproveitamos para convidar escolas. Queremos contribuir para promover o ensino das ciências nas escolas.

 

-Sendo Macau uma cidade focada no jogo, outras áreas como a ciência passam quase despercebidas. Deveria haver mais esforços na aposta desta vertente curricular?

-Temos contratado locais, e esse ainda é o nosso objectivo pois a empresa quer ter essa base ao nível da mão-de-obra. Eu sou local. Não é fácil encontrar residentes habilitados e formados em farmacêutica porque, primeiro, as universidades em Macau não oferecem este tipo de formação. Tanto que a maior parte se vê quase obrigada a estudar no estrangeiro para se formar nesta área de estudos. Obviamente, grande parte desses alunos quer é arranjar emprego nesse país, cidade ou região porque não sabe se em Macau isso é possível e entende que é mais fácil e acessível trabalhar e ter acesso a alta tecnologia no exterior. Na maior parte das vezes, temos de apostar em grandes acções de promoção para explicar que a Hovione Macau é uma empresa de bases científicas, com tecnologias de última geração ao nível da indústria farmacêutica. Os residentes que contratamos são, maioritariamente, formados no exterior. Além disso, também temos funcionários que estudaram na China, Taiwan mas ou esperamos ou temos mesmo de contactar as universidades nesses locais para tentar atrair jovens residentes que estejam lá a estudar e a especializar-se na área. Nesses casos, oferecemos estágio curricular, oportunidades de emprego depois dos estudos e de ter concluído o estágio com sucesso, actividades através dos Serviços de Educação para que alguns alunos desempenhem algumas tarefas mais básicas na Hovione Macau para perceberem se ainda querem ingressar neste sector. Tenho envidado esforços neste sentido e aproveito cada oportunidade para falar com representantes do Governo para insistir que Macau precisa de se diversificar. Não porque queremos mais casinos, mas porque temos de dispor de oferta variada para os residentes, temos de manter profissionais e atraí-los para ficarem cá a trabalhar. Se não oferecermos estas oportunidades eles vão embora e o que resta no território são pessoas que querem trabalhar em casinos, nas convenções. E não é porque queiram mesmo ter esse tipo de emprego mas porque, nalguns casos, não conseguem ver outra opção e alguns acabam, inclusive, por sair. Facto é que grande parte dos engenheiros químicos e profissionais desta área que estão em Macau trabalharam ou trabalham na Hovione.

 

-Quantos funcionários emprega a Hovione Macau?

-Sensivelmente mil funcionários mas ainda estamos a crescer e queremos ter a certeza de que os universitários e recém-graduados têm vontade de trabalhar com a Hovione Macau. Oferecemos todas as oportunidades de estágios e formação técnica que quiserem. Apesar de tudo temos ainda um número considerável de recém-graduados que vêm bater à porta depois de terminarem os estudos. Alguns ficam, outros não, mas regra geral as coisas acabam por correr bem.

 

-Ainda empregam funcionários de nacionalidade portuguesa?

-Sim, claro. Sejam funcionários portugueses que já viviam em Macau ou que vieram através de estágios e acabam por ficar. Além disso, temos também em Macau funcionários que foram recolocados de outras fábricas da Hovione espalhadas pelo mundo. É importante para nós que os nossos trabalhadores tenham a oportunidade de cruzar experiências, conhecer novas culturas e Macau é uma das fábricas da Hovione com mão-de-obra mais diversificada. Trabalham todos muito bem em conjunto e sentem-se bem aqui. Não somos uma típica empresa chinesa, somos mais ocidentalizados e, nesse sentido, a experiência é diferente. Uma vez que também acolhemos funcionários que trabalhavam originalmente noutras fábricas da Hovione, isso permite que os nossos funcionários locais fiquem a conhecer outras técnicas e métodos de trabalho o que é positivo para todos.

 

-Em que medida a empresa mantém laços com Portugal e de que forma essa relação traz mais-valias?

-Apesar da companhia ter sido fundada e administrada no início por Portugal actualmente a administração [em Macau] é feita mais ao nível local. A nossa fábrica sempre produziu e temos evoluído e apostado em novos produtos porque se queremos crescer não podemos ficar presos apenas ao produtos que mais vendem. É preciso diversificar a esse nível. Todos esses produtos são desenvolvidos nos Estados Unidos ou em Portugal. Portanto, grande parte da interacção que temos com Portugal é feita ao nível de transferência de tecnologias. Quando há novas tecnologias, equipamentos, etc, no processo de produção tentamos sempre partilhar o que sabemos com o que já foi implementado em Portugal. A verdade é que grande parte da tecnologia, dos novos avanços, é de mais fácil acesso em Portugal ou nos Estados Unidos. Uma vez que em Macau não há muita indústria farmacêutica, o acesso a este tipo de equipamentos é muito complicado, por isso é que as tecnologias inovadoras são partilhadas com Portugal de modo a que a Hovione Macau possa crescer. Tudo isto para dizer que, basicamente, a relação com Portugal é muito rica e garante-nos que vamos crescer e estamos a crescer.

 

-Olhando para o futuro, e tendo em conta a relação com Portugal, a Hovione Macau pensa em apostar no mundo lusófono?

-Essa oportunidade de negócio ainda não foi colocada, mas temos expandido em Portugal. Nos Estados Unidos também estamos a expandir não só na vertente tecnológica como também de terreno. Neste momento, não planeamos investir noutros países porque temos de garantir que os planos de expansão se concretizam e geram dinheiro. Por exemplo, a fábrica de Macau é muito importante para o grupo e se houver a possibilidade também queremos expandir.

 

-Expandir no sentido de aumentar a fábrica?

-Sim, expandir para ocupar mais espaço porque estamos muito limitados nesse sentido. As nossas instalações já estão muito condensadas. O negócio está a crescer e, para o futuro, vamos precisar de mais espaço. Claro que, ao crescermos, poderemos não só contratar mais mão-de-obra como criar mais ‘know-how’. Do meu ponto de vista isto seria positivo tanto para nós como para Macau. O Governo tem vindo a falar na necessidade de diversificar indústrias e a Hovione Macau é um bom caso e exemplo que o Governo pode usar para vender a ideia de que é importante diversificar. O sector farmacêutico confere estabilidade. Trabalhamos há 30 anos e não temos lidado com grandes dificuldades, por isso, o Governo deveria considerar investir nesta indústria. Ainda nos perguntam porque razão continuamos a defender e a projectar construir mais fábricas, e a resposta é simples: desde que se trabalhe de acordo com a lei não há problema qualquer em ter fábricas farmacêuticas em Macau. Mais importante do que isso, a grande maioria dos nossos funcionários trabalha nesta área há pelo menos 20 anos e por isso sabem muito sobre a indústria farmacêutica. Se crescermos aqui, ou na China, ou em zonas próximas, Macau será a fonte de recursos para suportar possíveis novas instalações.

 

-Este plano de expansão ainda está no papel ou já há avanços?

-É uma ideia, ainda não há nada concreto, mas o crescimento que temos alcançado indica, claramente, que precisamos de aumentar e crescer em Macau. Agora, claro que o problema é sempre o espaço. E, atenção, não é que não haja terreno disponível em Macau até porque não estamos a pedir um espaço de enormes dimensões. A questão está antes em tentar perceber qual será a importância que o Governo atribuirá a determinado terreno e na forma como o quer aproveitar. Antes de termos o COTAI, quem pensava que Macau conseguiria ter espaço para ver construídos todos os casinos que existem agora? Isso foi possível porque o Governo assim o quis, logo decidiu avançar nesse sentido. Tudo depende do que o Governo quer e se vê o nosso projecto de expansão como uma prioridade para desenvolver o terreno. Em todo o caso, iremos continuar em Macau, temos tido bons lucros.

 

-Planeia continuar nos comandos da Hovione Macau por mais alguns anos?

-Sim, desde que me queiram (risos). Gosto muito desta indústria, tem um grande significado porque sabemos que, à partida, o produto que estamos a desenvolver irá, de uma forma ou de outra, fazer a diferença na vida de alguém. Claro que às vezes pensamos que seria muito melhor não ser preciso trabalhar nestes medicamentos pois não haveria doenças, mas esse pensamento não é realista. Pelo menos estamos a ajudar alguém, a fazer a diferença, a salvar vidas… Gosto muito do que faço, desde o início. A Hovione, enquanto grupo, tem lidado com os seus funcionários de uma forma muito correcta, está atenta às condições de trabalho, crescimento na carreira… Vou apoiar sempre a empresa.

 

-A Hovione Macau foi uma das vencedoras dos “Macau Business Awards”. O que representa este prémio?

-Quando anunciei este prémio, a equipa ficou muito contente sobretudo porque se trata de uma distinção a nível local que, de certa forma, veio reconhecer o trabalho que temos vindo a fazer para e em Macau. No fundo, foi sentir que o que a Hovione tem feito é importante para a cidade, é reconhecido e significa que os nossos esforços ao longo de 30 anos estão a produzir efeitos.