Em queda desde 2014, os preços dos hotéis no território cresceram em 2018, passando para 1.342 patacas em média até Novembro, um aumento de 7,2% quando comparado com os valores de 2017. Penny Wan, do IFT, acredita que este ano a tendência se vai manter. Já Leonardo Dioko entende que os aumentos mais significativos aconteceram logo em 2011 e que desde aí as mudanças não foram determinantes. Por sua vez, Anthony Wong está mais preocupado com o que acontecerá em 2020, quando não estiver perspectivada a abertura de novos hotéis
Inês Almeida
Ainda não são conhecidos os dados referentes ao ano inteiro mas os números dos primeiros 11 meses de 2018 mostram que se inverteu a tendência de quebra dos preços dos hotéis que se vinha a registar desde 2014. Nesse ano, marcado por uma descida acentuada nas receitas do jogo, um quarto de hotel custava em média, por noite, 1.617 patacas, valor que caiu para 1.475, em 2015, e 1.284 no ano seguinte. Em 2017, os preços ficaram-se pelas 1.252 patacas. Dados da Associação de Hotéis de Macau revelam que até Novembro do ano passado se registou um aumento de 7,2%, para 1.342 patacas em média.
Entre Janeiro e Novembro, a subida mais pronunciada verificou-se nos hotéis de três estrelas, com os preços a crescerem 8,6%, de 957 patacas para 1.039. Curiosamente, o valor médio cobrado nos quartos de unidades com quatro estrelas foi inferior, situando-se em 827 patacas, mais 7,7% do que no mesmo período de 2017. Por seu turno, o aumento nos preços dos hotéis de cinco estrelas foi de 4,2%, de 1.575 patacas para 1.641.
Já a taxa de ocupação hoteleira, que tem vindo a crescer desde 2015, manteve a tendência. Nesse ano, em média, a taxa de ocupação dos hotéis do território foi de 83,4%, depois de uma quebra de quase 7% em relação à taxa de 90,5% registada no ano anterior, referem os dados da Associação de Hotéis. Em 2016, a taxa de ocupação média foi de 84,6% e em 2017 esse número cresceu para 87,1%. No ano passado, até Novembro, foram ultrapassados os valores de 2014, ao atingir-se uma média de 90,7%.
Para Penny Wan, do Instituto de Formação Turística (IFT) a tendência de aumento na taxa de ocupação hoteleira pode ter várias justificações. “Há cada vez mais pessoas a visitar Macau. O número de visitantes ascendeu de 31 milhões em 2016 para 32,6 milhões em 2017, e a DST espera que em 2018 este número chegue a 35 milhões. As estatísticas mais recentes revelam que tanto o número de pessoas que pernoitam como dos visitantes de apenas um dia tem vindo a crescer. O período médio de estadia é 2,2 dias”, indicou a académica numa resposta à TRIBUNA DE MACAU.
Para a investigadora, esta subida deve-se “à diversificação no produto turístico, com novos e mais modestos espaços de jogo e complexos hoteleiros”. Ao mesmo tempo, a inclusão de Macau na lista de Cidades Criativas da UNESCO no ramo da Gastronomia levou a uma melhoria “significativa” nos serviços e produtos com ela relacionados.
Ponte do Delta facilita vindas
A abertura da Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau também terá impacto no sector hoteleiro. “Esta ponte facilita as visitas das pessoas que vivem em Hong Kong e no Delta do Rio das Pérolas. Vai trazer mais visitantes que planeiam estadias médias e mais longas ao tirarem vantagens da nova ponte, uma vez que ela pode ser usada durante 24 horas”, defende Penny Wan.
Ao mesmo tempo, verificaram-se mudanças ao nível dos objectivos das pessoas. “Hoje em dia, muitas pessoas vêm por lazer, para visitar amigos ou para fazer negócios. A maioria vai passar mais tempo a explorar os serviços relacionados com o turismo, hotéis e produtos, em vez de apenas ficar no espaço de jogo todos os dias. As pessoas gostam de provar a comida, ir às compras nos hotéis, experimentar os spas e actividades aquáticas, tirar fotografias nos diferentes hotéis ou ir a concertos”, exemplificou, defendendo que tudo isto pode prolongar a estadia dos visitantes.
Em particular no caso de quem chega de Hong Kong, o principal objectivo é “relaxar”. “[Os visitantes] são atraídos pelos novos serviços e jogos providenciados pelos hotéis. Muitos estão interessados em pernoitar se tiverem planeado uma viagem de dois ou três dias. Muito raramente regressarão a Hong Kong só para voltar ainda dentro desse período de tempo”, apontou a docente.
Além disso, acredita que os visitantes da China Continental preferem ficar nos hotéis da RAEM em detrimento dos complexos de Hong Kong uma vez que na RAEHK “os preços são muito elevados, os espaços são pequenos e há falta de infra-estruturas, quando comparadas com as que existem em Macau”.
Penny Wan acredita que este ano o número de visitantes vai continuar a aumentar pelos motivos já apontados e, caso isso se confirme, não há razão para a tendência de subida nos preços dos hotéis se inverter, mesmo com a abertura do Grand Lisboa Palace, uma vez que ainda se regista uma elevada procura para a oferta existente. “Haverá mais procura pelos hotéis e a taxa de ocupação vai manter-se alta ao longo deste ano”, antevê a professora do IFT.
Por seu turno, Leonardo Dioko, director do Centro de Investigação sobre Turismo do IFT acredita que este aumento não é de todo “anormal”, pelo contrário, está dentro dos “preços esperados”. “A única subida significativa nos preços dos quartos foi a observada a partir de 2011. Antes desse ano, os preços custavam apenas cerca de 1.000 patacas”, apontou o docente numa resposta à TRIBUNA DE MACAU.
A taxa de ocupação é “um fenómeno totalmente diferente” porque é sempre elevada no caso de Macau, tendo em conta o “enorme volume de visitantes”. “Com a nova Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, estamos a monitorizar se a duração das visitas muda significativamente porque um dos seus efeitos é que pode tornar Macau num destino de passagem mais fácil”.
Por sua vez, Anthony Wong, da Universidade Sun Yat-Sen, em Zhuhai, acredita que o “recorde” de visitantes levou ao aumento da procura por hotéis e, por consequência, à subida dos preços. O académico prevê que no corrente ano a indústria dos hotéis e casinos continue a crescer.
“A parte mais complicada desta tendência de crescimento é que ela pode abrandar devido a duas razões: uma delas é a desaceleração da economia chinesa, especialmente durante a guerra comercial com os Estados Unidos e a falta de novos hotéis e casinos depois de 2019”, alerta Anthony Wong. Nesse sentido, embora as perspectivas para este ano ainda sejam “relativamente boas”, 2020 “pode ser um ano duro”.
Dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos mostram que no final de Novembro existiam no território 116 hotéis e pensões em actividade, mais seis em termos anuais, disponibilizando um total de 39.000 quartos de hóspedes, 63,1% dos quais pertenciam a hotéis de cinco estrelas.



