O Museu de Macau celebra este ano duas décadas de existência e o seu director mostra ter objectivos bem definidos, nomeadamente ensinar à população mais jovem a importância de preservar a cultura e a história local. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, Loi Chi Pang ressalva, no entanto, que este conhecimento sobre o longo passado do território não deve ser visto como uma imposição, pelo que entre os desafios que enfrenta está a procura de meios mais eficazes para ensinar

 

Inês Almeida

 

-O Museu de Macau comemora duas décadas este ano. Como é que vê a evolução ao longo deste período?

-O Museu de Macau tem vindo a seguir uma missão e funções já definidas. Queremos continuar a melhorar os serviços externos e o trabalho interno. Como é um Museu que apresenta a história da multiculturalidade de Macau, exibe mudanças históricas ao longo de centenas de anos e conta a experiência dos residentes com diferentes origens. Procuramos continuamente enriquecer e explorar a cultura, organizando exposições e palestras temáticas que ampliam o conhecimento do público sobre a história, literatura e arte, permitindo uma profunda compreensão da cultura. Nos últimos anos estamos mais dedicados aos projectos de desenvolvimento nacional e cultural, como “Uma Faixa, Uma Rota”, com cooperação e intercâmbio com Guangdong e Hong Kong. Ao longo dos anos organizámos várias exposições, uma delas foi ‘De Versailles à Cidade Proibida – Gravuras da Colecção do Museu do Louvre’ para mostrar que as gravuras de cobre apareceram na Europa no século XV e foram trazidas para Macau pelo missionário Ricci, dos Jesuítas. Outra exposição foi “Uma Viagem Através da Luz e da Sombra”, a invenção da fotografia e as primeiras fotografias de Macau, tiradas pelos franceses em 1839, algumas da Praia Grande e do Templo de A-Má. Estas foram algumas das primeiras imagens da China. Ao longo das últimas décadas, o Museu de Macau transformou-se enquanto museu da cidade, prestando serviços culturais ao público, recebendo mais ou menos 4,5 milhões de visitantes, incluindo líderes de vários países, turistas e cidadãos. Também se tornou num símbolo de trocas culturais entre o Ocidente e a China, oferecendo instalações culturais e educativas. O Museu recebeu 44 mil visitantes em 2017 e foram realizadas 1.680 actividades culturais e educativas incluindo visitas guiadas, seminários, oficinas e outras actividades com um total de 21.172 participantes.

 

-Quais eram os planos que tinha para o Museu quando tomou posse como director?

-Pretendia manter as funções importantes do Museu como exposições, colecções, pesquisas, educação, a fim de permitir que os cidadãos e turistas aproveitem a conveniência dos recursos culturais. Desde que estou no Museu quero melhorar as instalações para mostrar que houve evolução, e que ele está diferente e para melhorar as visitas. Não só para os turistas mas também puxar mais as visitas dos residentes de Macau porque o Museu é para todos, seja cidadãos de Macau, seja que vêm de fora. Quero ainda fazer mudanças quanto às colecções, exposições permanentes, temáticas, para melhorar a diversão do público.

 

Que tipo de mudanças nas instalações quer fazer?

Temos feito vários tipos de exposições para atrair as pessoas, quer de fora, quer de cá. No ano passado fizemos uma exposição pela primeira vez acerca da educação sobre os canhões, que era sobretudo dirigida às crianças. Também podia ser visitada por adultos mas foi feita a pensar nas crianças porque pretendemos melhorar os conhecimentos da cultura e da história, não apenas dos adultos como das crianças. Tentámos atrair crianças das escolas e este ano tivemos uma exposição sobre as memórias do passado, com pivetes, panchões, fósforos para puxar pela memória da população para o que tínhamos antigamente e hoje, realmente, desapareceu. O Museu também pretende abrir novamente à noite com ‘workshops’, teatro, para a população. Além desses aspectos, vamos tentar criar novas aplicações móveis porque são uma tendência mundial. No ano passado já lançámos o ‘wi-fi’ gratuito. No 20º aniversário pretendemos apresentar a primeira aplicação de navegação móvel real, com tecnologias como realidade aumentada e realidade virtual para permitir que os visitantes permaneçam no Museu de Macau virtualmente. Se, não estando no Museu, quiser ver algumas das peças, poderei usar a aplicação. Vamos disponibilizar as peças principais para que mesmo que as pessoas não possam vir, possam ver as peças. Em princípio faremos as primeiras experiências em Abril, mas vamos pôr em funcionamento em meados deste ano.

 

-Tem outras iniciativas pensadas para comemoração do aniversário?

-O Museu faz anos a 18 de Abril, então, em colaboração com o ‘Guangdong Haishang the Silk Road Museum’ pretendemos organizar uma exposição chamada ‘Tesouro do Mar Profundo – exposição de relíquias arqueológicas subaquáticas de Nanhai nº 1’, referente a um navio de carga que tem uma longa história e teve a preservação mais completa e relíquias culturais descobertas na China. Esta exposição foca-se na arqueologia e conservação subaquática. O Nanhai nº1 foi descoberto em 1987 e um grande volume de relíquias culturais valiosas foi descoberto naquele tempo. A exposição vai contar com cerca de 80 artefactos de ouro, prata, cerâmica e permite ao público compreender a cultura chinesa, as grandes descobertas arqueológicas subaquáticas, a rota marítima da seda. Além da exposição vamos ter dois seminários e ‘workshops’. Até ao final de Julho vamos organizar visitas ao museu em Guangdong para ganhar conhecimentos sobre a importância do Nanhai nº1. Em Setembro, iremos realizar outra exposição temporária sobre a colecção do Museu de Macau para dar ao público conhecimento sobre a evolução do estilo de vida de Macau ao longo da história.

 

-O Museu tem a projecção que deve ter ou ainda é preciso investir nessa área?

-É impossível chegar a toda a gente, quer em Macau, quer no exterior, mas vamos fazer o melhor para chegar a todos. O caminho é longo. Nunca iremos chegar ao fim, sabendo que diariamente a população pede mais e mais coisas. Antigamente o Museu era um local onde as pessoas faziam uma visita e depois iam embora. Hoje em dia as pessoas são mais exigentes. Vamos fazer o máximo para melhorar as instalações do Museu, tentar evoluir, não ficar para trás. Isso é o essencial. Tentamos recorrer a ecrãs gigantes, música. Vamos usar estes mecanismos e estamos sempre a estudar sobre o que pode atrair a população. Também vou a outras regiões para estudar o que os museus fazem para atrair mais pessoas e tentar adaptar isso a Macau.

 

-Tem conseguido atrair a população mais jovem?

-Acho que sim. Anualmente recebemos várias visitas de jovens. Como também temos visitas guiadas, muitos jovens das escolas têm feito pedidos para fazer essas visitas, quer escolas portuguesas, inglesas e chinesas. Também fizemos várias actividades cá no Museu, que tendem a atrair mais os jovens como música, os passeios nocturnos nos arredores do museu. Mas os idosos também nos visitam porque gostam muito de saber mais sobre a história e o passado. Em comparação com anos anteriores, houve um aumento na população jovem que visita o museu. Também temos uma página no Facebook e recorremos a códigos QR porque os jovens hoje em dia estão sempre com o telemóvel e assim foi possível atrair mais jovens. Eles, os jovens, são o nosso futuro. Isso quer dizer que hoje em dia não vamos puxar pelos idosos. Também podemos fazê-lo mas eles já tiveram alguma experiência de vida. Agora o que queremos é passar todo o conhecimento que temos para os jovens porque através deles podemos passar os conhecimentos às gerações futuras. É através da experiência e do conhecimento que podemos transmitir as informações aos outros. Hoje em dia, é preciso amar a história e a cultura de Macau. A população tem de aprender a gostar dos conhecimentos sobre Macau. Quero puxar pelo conhecimento dos jovens, pô-los a fazer mais perguntas e a saber mais sobre a cultura e a história de Macau.

 

Como pretende fazer isso?

-Nós guardamos muitos artigos que são doações e eles também são objectos que permitem educar as pessoas. Por exemplo, antigamente usava-se apenas o fogo para cozinhar e hoje há outros meios. Para as pessoas novas saberem o que se usava antes, temos de os educar. Pretendemos mostrar como era o passado. Há outro exemplo que posso contar. Um dia, estava a passear nas zonas mais antigas e numa banca de jornais vi o vendedor sentado numa cadeira e achei que ela tinha muitos anos e merecia alguma preservação porque antigamente pertencia a um restaurante tradicional de ‘yum cha’. A cadeira era muito antiga, por isso, queria que o senhor a doasse, mas ele ia certamente recusar. Então, comecei a passar ali todos os dias, durante várias horas, a olhar para a cadeira para ver se o senhor mudava de opinião e a doava. Passado algum tempo, o vendedor de jornais, ao ver-me todos os dias, achou interessante estar sempre ali e perguntou-me porque queria a cadeira. Então expliquei-lhe que a queria porque ela é uma parte da história de Macau e queria que toda a gente soubesse que ela existe e que tem uma história. Mas a história não fica por aqui. Não contei a ninguém este episódio mas um jovem notou que eu tinha ido à banca de jornais todos os dias e achou estranho. Por isso, um dia, perguntou-me para que queria a cadeira. Expliquei que o que queria é que todas as pessoas doem aquilo que têm porque a história nunca acaba e começa sempre pelas coisas mais pequenas. Quero chegar ao ponto em que todas as pessoas doam os objectos para proteger estes artigos sobre a memória e história de Macau. Quando todos as pessoas conseguirem guardar alguma coisa do seu passado, não fará sentido haver museus.

 

-A história e a cultura de Macau ainda têm a importância devida ou foram de algum modo ofuscadas pelo desenvolvimento do sector do jogo?

-Macau tem uma história longa. Os casinos são apenas uma muito pequena parte da história. Há muita história popular. Como exemplo disso, temos os pequenos santuários ao Deus da Terra que encontramos pelas ruas. Sobretudo na zona atrás das Ruínas de São Paulo há muitos. Mas, em Hong Kong já não há, já se perderam estes elementos. Em Macau continuam. Por isso, os casinos são apenas uma fracção pequena da História de Macau e não a sua totalidade. Além disso, agora os casinos são muito importantes mas temos de ver o futuro, pensar nas gerações mais novas. Temos de continuar a estudar a história e a cultura de Macau, não por nós, mas pelas novas gerações. A história e a cultura precisam de continuar. Em Macau ainda se dá importância a estes aspectos da cultura, não desapareceu como em Hong Kong. De qualquer forma, apesar dos casinos serem agora muito importantes, não sabemos como será no futuro. A História de Macau terá de continuar a ser ensinada às crianças. Pelo menos até aos 18 anos as pessoas têm de conhecer coisas sobre Macau e estudar. Além disso, não podemos pensar só nas pessoas de Macau. Temos de pensar também nos turistas e nas pessoas que vêm de fora, de muito longe até, de propósito para fazer pesquisas e saber mais. Essas pessoas passam pelo nosso Museu. O ensino da história e da cultura de Macau não deve ser uma imposição. Antigamente vivia nesta zona das Ruínas de São Paulo mas não sabia a história desta zona. É preciso os cidadãos saberem mais sobre a história de Macau. Isso parte do trabalho dos museus, das escolas, da educação. Os turistas quando vêm cá também têm de saber sobre a cultura e a história local. Nos casinos podem ir ‘brincar’, mas têm de saber a cultura e a história.
-Há alguma área da cultura que merecesse mais atenção do que recebe actualmente?

-O mais importante pode resumir-se numa frase só: as pessoas devem saber que Macau tem cultura e história. É nisto que pretendo também trabalhar. É complicado estar a explicar porque se começasse a falar nunca mais acabava mas só com esta frase já é possível explicar. No entanto, saber como transmitir essa informação pode ser mais complicado.

 

-Como se passa essa mensagem então?

-Agora utilizamos actividades muito tradicionais como exposições, o “Dia Divertido no Museu de Macau” para apresentar a história de Macau. A ideia é construir uma plataforma da cultura para a população conhecer mais sobre a história. No entanto, agora precisamos de usar outro tipo de actividades, como já temos feito.