Obras de três artistas de Macau já estão expostas em Florença. A mostra procura questionar a forma como as pessoas e os locais constroem a sua identidade, partindo da cartografia para chegar a conceitos como a descolonização

 

A Zona de Estudantes de Artes Visuais de Macau organizou em Florença, Itália, uma exposição colectiva de três artistas locais, Wong Ka Long, Eric Fok e Cai Guo Jie, intitulada “The Impossible Black Tulip”. A exposição encontra-se em exibição em “Le Murate” desde quinta-feira e está patente ao público até 3 de Junho.

É a terceira exposição que do ciclo “Identidades globais: narrativas pós-coloniais e transculturais”, da directora artística Valentina Gensini. O projecto foca-se no conceito de pertença, sendo que o nome “Impossible Black Tulip of Cartography” remete para um mapa desenhado pelo missionário italiano Matteo Ricci para o imperador chinês em 1602, onde a China aparece como o centro do mundo. É o primeiro mapa chinês a reconhecer e a incluir as Américas. Como a exposição pretende mostrar, um mapa não é só um mapa.

“Mapas e identidades têm uma correlação profunda: como são representações territoriais e fronteiras nacionais, a acção de mapeamento está vinculada à política nacional de identidade de um país. (…) Esta iniciativa visa explorar e aprofundar os debates pós-coloniais relacionados aos conceitos de hibridismo, descolonização e identidade fluida”, explica a galeria “Le Murate” na descrição do evento.

Os três artistas questionam nas suas obras a legitimidade em desenvolver uma identidade local tendo por base apenas alguns aspectos da história colonial, a relação entre pertença e propriedade, bem como a ligação entre a memória do território e a apropriação da paisagem pela modernização arquitectónica.

Wong Ka Long apresenta ao público capacetes, para impedir que as pessoas se esqueçam da história. Eric Fok optou por desenhos de mapas para deixar o público comparar o passado e o presente de Macau. Já Cai Guo Jie representa a venda de limites de terra num desafio ao capitalismo.

“Durante a palestra de abertura da exposição, muitos moradores locais e também chineses italianos participaram”, comunicou a coordenadora, Sandy Chan, acrescentando que “a questão [da auto-identificação] é, na verdade, um problema global que chama a atenção de todos os participantes”. Pelo menos, já foram vendidas 15 obras.

Sublinhando que a dicotomia entre Leste e Ocidente está obsoleta, a coordenação indicou que o título tem um duplo significado: “a implicação de que o ato de mapear é em si uma busca impossível, e que qualquer tentativa de mapear o mundo e seu futuro será sempre incompleta e tendenciosa”.

Sob a curadoria de Livia Dubon, a exposição foi patrocinada pelo Instituto Cultural de Macau e recebeu o apoio de diversas instituições, incluindo a “Le Murate Progetti Arte Contemporanea – Mus.e Association”, o Instituto Confúcio de Florença, o Instituto Camões, o Departamento de Línguas, Literaturas e Estudos Interculturais da Universidade de Florença. Teve ainda a colaboração da Associação “Chì-na” e do “Dragon Film Festival”.

 

S.F.