Victor Ângelo destacou à TRIBUNA DE MACAU a importância de uma concordância mínima relativamente a direitos humanos e não interferência política em gestão empresarial para que a União Europeia e a China continuem a aprofundar o relacionamento económico. O antigo Representante Especial do Secretário-Geral da ONU adverte, por outro lado, para o crescimento do populismo na Europa e a ameaça que a Rússia coloca à UE
Salomé Fernandes
A União Europeia (UE) e a China entendem que a cooperação é a relação mais viável entre as duas partes, embora haja dificuldades ao nível do entendimento dos direitos humanos e da gestão de empresas que podem desafiar a aproximação económica, considera Victor Ângelo, que está em Macau para uma conferência sobre as “Relações UE-Ásia”, a realizar hoje, pelas 17:30, no auditório da Biblioteca da Universidade de Macau, e outra na Fundação Rui Cunha sobre a “UE e os Desafios do Populismo”, amanhã pelas 18:30.
“Quer Bruxelas quer Pequim sabem que não há rivalidades profundas entre ambos os lados, há sim hipóteses de cooperação. (…) A rivalidade estratégica [da China] é com os EUA. Com a Europa há competição, evidentemente, mas não há grandes dificuldades estratégicas”, disse à TRIBUNA DE MACAU.
O antigo Representante Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas reconhece a vertente ambiental como um dos aspectos positivos das relações entre Pequim e Bruxelas para além do apoio às missões de paz e à Organização Mundial do Comércio. “Quer a Europa quer a China têm vantagem em aprofundar as suas relações económicas e políticas, embora existam também grandes disparidades quanto à forma como se vê a questão dos direitos humanos”, apontou.
Questionado sobre a possibilidade da vertente económica limitar a importância dada pela UE a esses valores, Victor Ângelo admitiu que “é difícil a partir de determinada altura aprofundar o relacionamento económico e comercial entre as duas partes se não há um mínimo de concordância em relação às políticas e às políticas que têm a ver com as liberdades, boa governação, direitos humanos e a não interferência política na gestão das grandes empresas”.
O limite pode estabelecer-se em duas frentes. Por um lado, quando a dificuldade na gestão correcta das empresas europeias na China assumir uma importância que as leve a diminuir o investimento no país. Por outro lado, “se a opinião pública europeia estiver muito sensibilizada para as questões dos direitos humanos e se houver grandes divergências entre a maneira de ver europeia e chinesa, evidentemente que isso será o limite e vai pôr um travão na relação entre ambas as partes”, referiu.
Para isto contribui o facto de a Europa não olhar para a Ásia de maneira única, considerando também o Japão, Índia e países do sudeste asiático, como a Indonésia e a Tailândia, como fundamentais para o reforço das relações económicas. “Ainda que a relação com a República Popular da China seja muito importante e com um gigante económico, o mundo é diverso, incluindo a Ásia”, notou.
A par dos interesses económicos, há que observar o desenvolvimento social destes países. “Penso que têm realizado nos últimos anos progressos importantes e mais tarde ou mais cedo notaremos um arranque económico dessas zonas económicas, desses países, que permite tirar ainda mais gente da pobreza”, analisou Victor Ângelo. A nível de pobreza, apontou, a preocupação continua a ser o continente africano, cujos problemas de desenvolvimento económico e desemprego jovem levam uma larga camada da população a migrar para a Europa.
Relações multilaterais e problemas de identidade
Desde 2015 que o problema da migração permanece sem uma política comum, considera o antigo Representante Especial do Secretário-Geral da ONU. “Se há uma área em que a Europa tenha falhado de uma forma espectacular e de uma maneira inadmissível é na migração”, constatou. Para além da falta de um quadro político que resolver o problema, os países de entrada dos imigrantes têm também permanecido sem apoio, o que é uma das razões do desenvolvimento acelerado do populismo na Itália.
Os movimentos populistas, “sobretudo os de extrema-direita, têm vindo a ganhar votos”. O populista, explicou Victor Ângelo, “procura sempre simplificar ao máximo e encontrar apenas uma solução, uma causa e uma solução para problemas que na realidade são extremamente complexos, diversos e que exigem todo um conjunto de respostas”.
A par da migração, crises de desemprego e atentados terroristas ligados a populações vindas da emigração têm potenciado ideias de xenofobia. “Evidentemente que a combinação de uma presença relativamente forte de gente muito diferente, de uma crise económica e de atentados terroristas são ingredientes muito fortes para aumentar o sentimento identitário e de não aceitação de quem é diferente”, considerou.
Ainda assim, o apoio à UE é superior ao registado na altura do referendo do Brexit. “Pelo menos 66% dos europeus apoiam a UE e pensam que o futuro da Europa passa por uma união mais forte dos países europeus. Sobretudo porque a Europa olha à sua volta e na vizinhança imediata vê muitas dificuldades”, observou.
“Evidentemente que as pessoas preocupam-se, olham por exemplo para o que está a acontecer em Washington e pensam que na realidade é melhor que a Europa tome conta de si própria”, acrescentou.
O desafio da defesa
Emmanuel Macron e Angela Merkel reacenderam o debate na última semana sobre a necessidade de criação de um exército europeu, No entanto, explicou Victor Ângelo, para além do reduzido investimento dos países da UE em forças armadas comparativamente ao dos EUA, há outras dimensões a dificultarem o projecto.
“Na Europa os exércitos continuam muito divididos. Cada nação tem o seu exército. Cada exército tem as suas capacidades operacionais e muitas vezes não conseguem funcionar em conjunto com os países vizinhos. Cada um tem as suas regras, o seu tipo de armamento, e isso torna as operações conjuntas extremamente difíceis e praticamente ineficientes”.
Os desafios da reorganização da defesa passam pela união de recursos como o armamento, a formação dos militares, “mas acima de tudo há um problema que a Europa ainda não definiu, que é dizer quais são as principais ameaças ao continente europeu”. O analista destacou três fontes de ameaça fruto de correntes distintas: a Rússia, o Médio Oriente e as migrações dos países africanos.
No entanto, para Victor Ângelo, “neste momento o principal inimigo continua a ser a Rússia”, dado ao sentimento nacionalista que tem sido desenvolvido pelo presidente Putin, necessário à sua continuidade no poder. “Precisa de criar um inimigo, esse inimigo exterior é a Europa e evidentemente ele procurará a todo o preço dividir a Europa e criar divisões dentro do continente europeu. Mas isto não são necessariamente apenas ameaças militares. São mais ameaças políticas e de segurança do que de defesa”, notou, apontando para a necessidade de respostas complexas que envolvam militares, polícia, diplomacia e comunicação social.
Para além disso torna-se necessário que a população europeia se sinta protegida da migração descontrolada, “porque se sentirem que não têm protecção ao nível europeu, refugiam-se nos seus espaços nacionais e procuram criar a nível nacional e local esse nível de protecção”.



