O presidente da Associação de Auxílio Mútuo de Condutores de Táxi de Macau critica o Governo pela forma como avançou com o concurso público para a obtenção de 100 alvarás destinados apenas a veículos eléctricos, classificando essa postura como “irresponsável”. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, Tony Kuok reconhece, por outro lado, que o sector lida com o problema dos taxistas infractores, representando entre 10% a 20% do total de condutores, e sustenta que a solução poderá passar pelo aumento das penalizações, nomeadamente elevar as multas para 3.000 patacas. Em termos da gestão do negócio, revelou ainda que ainda este ano poderá ser apresentada uma proposta de aumento das tarifas dos táxis provavelmente igual à última actualização
Viviana Chan
-O concurso para atribuição de licenças para táxis eléctricos está a gerar polémica. Será possível resolver as preocupações do sector antes do fim desse processo?
-Será difícil eliminar esses problemas, tanto que a Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) foi clara ao avisar que os interessados devem pensar duas vezes antes de concorrerem. Aliás, uma das questões a ponderar antes de concorrer é perceber como podem contornar o facto de haver poucos postos de carregamento para os táxis eléctricos. Além de ser impossível que um indivíduo tenha um posto de carregamento exclusivo para seu uso, é preciso ter em conta que são necessárias mais de cinco horas para completar o carregamento, o que representa um desperdício monetário para o negócio. Por exemplo, se o mesmo veículo for usado por dois taxistas, em regime de turnos, isso irá afectar totalmente o serviço e, inclusive, prejudicará o trabalho por turnos. Actualmente, os táxis funcionam 24 horas, pelo que se o horário de funcionamento tiver de ser reduzido terá implicações para os taxistas. Há uma dezena de táxis eléctricos em circulação em Macau que precisam de estar totalmente carregados até às 15:00, sendo que é ridículo obrigar estes táxis a estarem parados para carregar numa hora de muita procura. Ao mesmo tempo, o Sistema de Navegação Global por Satélite (GPS) também será sujeito a exigências impossíveis de cumprir em Macau.
-Em que sentido?
-A concessão de alvarás de táxis exige que os veículos devem estar equipados com GPS, mas nenhuma companhia vai querer recorrer à aplicação desse sistema para apenas um veículo. A menos que seja uma encomenda colectiva, vai ser complicado para quem anda à procura disso. Sei que a programação dessa aplicação para GPS custa mais de dois milhões de patacas…
-Considera que este concurso para obtenção de 100 alvarás não foi bem preparado?
-A abertura deste concurso foi repentina. Além disso, os concursos para atribuição de alvarás de exploração de táxis costumam realizar-se em Junho. Desta vez, coincidiu com o período do Ano Novo Chinês – altura em que os bancos fecham durante alguns dias pelo que os que quisessem levantar documentação para o concurso não conseguiam ter acesso a essa informação. No fundo, esta prorrogação do prazo de entrega das propostas também não vai mudar nada.
-Qual é a reacção dos taxistas relativamente à aposta da DSAT nos táxis eléctricos?
-Há muitas opções de veículos para os taxistas. Como referi, os taxistas são obrigados a carregar os veículos eléctricos numa hora que coincide com o período de maior procura e os condutores não gostam disso. Depois do Governo ter aplicado a Norma Euro IV [para a emissão de gases dos automóveis], as pessoas habituaram-se aos veículos híbridos. Os custos de manutenção são elevados em comparação com as viaturas tradicionais, mas, ao mesmo tempo, conseguiu-se reduzir os gastos associados ao combustível. A companhia chinesa de veículos eléctricos BYD só entrou no mercado de Macau há um mês, teve muito pouco tempo para testar o serviço, pelo que nem sequer há uma avaliação sobre a circulação e uso desses veículos no território. Hong Kong foi pioneiro no uso dos carros da BYD mas o seu uso não alcançou o sucesso pretendido, apesar do Governo ter distribuído subsídios no valor de 300.000 dólares de Hong Kong por cada veículo. Em Macau, o Governo diz que não vai apoiar os proprietários de veículos eléctricos mas aconselha-os a ponderar bem a sua capacidade. Isso não faz muito sentido.
-Qual foi então a principal causa do insucesso da utilização de veículos eléctricos em Hong Kong?
-Foi por causa dos carregamentos. Os taxistas perceberam que perdiam muito tempo e não conseguiam lucrar o suficiente quando recorriam a essas viaturas.
-Embora os taxistas e o Governo continuem a ter opiniões muito distintas, será possível encontrar uma solução para este impasse?
-O Governo disse mais do que uma vez que as pessoas devem pensar duas vezes nessa questão dos carregamentos antes de entregarem propostas, mas isso, como já referi, não faz muito sentido. Um indivíduo tem capacidade limitada. Perguntei ao Governo sobre a hipótese de criar uma companhia para a gestão dos táxis eléctricos de forma colectiva mas a resposta foi negativa. O Governo tem uma atitude muito irresponsável sobre os táxis eléctricos. Compreendo que o Governo deva dar sempre um passo em frente no processo de definição de políticas mas, ainda assim, deveria ter partilhado os planos em pormenor com alguma antecedência.
-O futuro dos veículos eléctricos no território não está a ser bem planeado pelo Governo?
-Claro que não. O Governo disse-me que não tem planos na medida em que não sabe quantos novos veículos eléctricos vão circular no próximo ano.
-Como se tem desenvolvido o sector dos táxis nos últimos anos?
-As receitas dos taxistas são afectadas pelas mudanças do trânsito de Macau. Quanto maiores forem os congestionamentos, menos ganham porque ficam bloqueados no meio do trânsito impossibilitando-os de angariar clientes. Por outro lado, como condutor profissional, noto que o sector dos táxis encara também o problema de envelhecimento, não há jovens interessados em ingressar na área. A média de idades dos taxistas é superior a 50 anos. Como há muitas opções de trabalho no território, os jovens não encaram a actividade de taxista como uma profissão ideal. Para os proprietários, é difícil arranjar taxistas e, nesse contexto, ao longo dos anos, a renda não tem aumentado, mas o custo de vida subiu muito. Actualmente, o salário dos taxistas está ao mesmo nível do dos “croupiers”, variando entre 15.000 e 16.000 patacas. Por outro lado, há taxistas que ganham muito bem, porque cobram taxas abusivas. Por norma, são pessoas novas no sector, que aprenderam com outros colegas a abusar na cobrança de tarifas e não se sentem dissuadidos pela lei, porque acham que não serão punidos. Portanto, existe sempre um grupo de taxistas que se aproveita das lacunas na lei. O Regulamento do Transporte de Passageiros em Automóveis Ligeiros de Aluguer ou Táxis está em revisão há mais de cinco anos. A proposta foi entregue à Direcção dos Serviços para os Assuntos de Justiça (DSAJ), mas acabou por ser mandada para trás devido a questões técnico-práticas. A DSAT anda às voltas com o diploma e ainda não chegou ao processo legislativo.
-Tanto o Corpo de Polícia de Segurança Pública, como a DSAT têm reforçado o combate às infracções. Como é que tem sido a relação entre os taxistas e a polícia?
-Os taxistas que protestaram contra a polícia são exactamente as ‘ovelhas negras’. Este grupo de taxistas é muito agressivo quando sente que os seus interesses foram afectados. As autoridades têm os registos de queixas, mas poucas resultaram em penalizações. Digamos que entre 10% e 20% dos taxistas são ‘ovelhas negras’.
-Qual é o problema fundamental?
-É o atraso na revisão da lei. É essencial agravar as punições para taxistas infractores. Como os custos das infracções são muito baixos, não lhes custa rejeitar o transporte a passageiros e cobrar tarifas abusivas. Se a multa aumentar de 1.000 para 3.000 patacas e as infracções repetidas implicarem multas a dobrar o efeito dissuasor será maior. A polícia trabalha mais nas ruas para combater as infracções, mas os casos vão para a DSAT e a queixas podem não ter quaisquer consequências. Em cada 100 casos só 20 poderão, eventualmente, culminar em multas. E se houver recurso da decisão os processos podem arrastar-se por mais de seis meses. É por tudo isto que as actuais penalizações não têm um efeito dissuasor.
-Qual é a sua posição sobre os apelos à importação de condutores? Poderia afectar o sector?
-A profissão dos condutores é como a dos ‘croupiers’. Há um grande risco social se as autoridades permitirem a importação de trabalhadores para estas duas áreas. Os actuais funcionários dessas categorias profissionais poderiam ser totalmente eliminados do mercado. De uma forma geral, os condutores não têm muita escolaridade, pelo que não encontram outros empregos que lhes garantam o mesmo nível de receitas.
-As tarifas do serviço de táxis foram actualizadas há um ano. Planeiam pedir novos aumentos em 2018?
-Sim. Queríamos apresentar o pedido no final deste ano mas precisamos de analisar factores como a inflação, as receitas e a situação de trânsito. Da última vez, o aumento foi cerca de 10% e agora a percentagem pode ser semelhante. O Governo raramente aprova aumentos na ordem dos 20%. Se os congestionamentos afectarem muito os vencimentos dos taxistas, provavelmente vamos pedir uma cobrança de tarifas maior. Neste momento, não vejo grande problemas por causa dos congestionamentos e há muito negócio devido ao grande fluxo de turistas. Antigamente, no final do período do ano novo lunar registavam-se menos negócios mas agora a situação é inversa porque Macau atrai muitos turistas.
-Alguns condutores de autocarros queixam-se do agravamento do trânsito e dizem que são tratados como “sacos de pancada”. Os taxistas sentem o mesmo?
-Claro que sim. As áreas que prestam serviço às pessoas têm de lidar sempre com clientes menos bem dispostos. Dou o exemplo do grave acidente em Hong Kong que envolveu um autocarro: o motorista sentiu-se mal na sequência do descontentamento dos passageiros. Hoje em dia, os condutores são “mal educados”, não fazem ‘pisca’ quando mudam de direcção… Suspeito que o exame de condução não seja muito sério. Os motoristas não são bem treinados.
-Quais são as suas expectativas em relação ao trânsito local?
-Macau precisa de uma rede de transportes que funcione na periferia, de uma estrada rápida à volta do território, para, desse modo, retirar os veículos do centro da cidade. Além disto, a construção do Metro Ligeiro estagnou e isso é uma má notícia para todos.
-Como tem sido a evolução da Associação de Auxílio Mútuo de Condutores de Táxi?
-Trabalho há 32 anos na Associação de Auxílio Mútuo de Condutores de Táxi, que foi criada em 1986. Entrei no sector em 1975 e fui um dos fundadores da associação. Na altura, não existia outra associação que defendesse os interesses dos taxistas e também havia poucos táxis. Actualmente estão em circulação mais de 1.600 táxis, o ambiente mudou muito e é mais complicado ser taxista. O envelhecimento é um problema natural, acontece em todas as áreas tradicionais, pelo que não podemos fazer nada neste momento contra isso.
-Apesar da Uber ter suspendido a actividade no ano passado, acha que a emergência dos serviços partilhados pode ameaçar as indústrias tradicionais, como o sector dos táxis?
-Temos trabalhado para criar aplicações de telemóvel com o objectivo de melhorar os serviços de táxis. No futuro, os residentes poderão chamar um táxi através de uma aplicação para telemóvel. A nossa rede poderá ser lançada em Junho deste ano e vai ser abrangente, com mais táxis online em comparação com as outras plataformas. Ao mesmo tempo, vamos trabalhar para introduzir o pagamento electrónico, como por exemplo, ‘MacauPass’, ‘Wechat Payment’, etc. Em relação à Uber, não estou preocupado com isso, porque é um serviço ilegal em Macau. E, mesmo que regresse, o Governo deverá tomar mais medidas.



