Kuong Wing Tsan, proprietário da gelataria “Lai Kei Refrescos Sorvetes e Doces”
Kuong Wing Tsan, proprietário da gelataria “Lai Kei Refrescos Sorvetes e Doces”

Para mergulhar no mundo dos amantes dos gelados, a TRIBUNA DE MACAU foi conhecer espaços tradicionais que adocicam o paladar de turistas e locais à base de técnicas caseiras. As gelatarias tradicionais ainda resistem, mas em menor número, levando a que o seu romantismo se desvaneça com as mudanças de hábitos e gostos. Ainda assim, há quem tente recuperar este negócio antigo com um toque mais ocidental

 

Viviana Chan

 

Em tempos remotos, ter um frigorífico em casa era visto como um luxo. Uma condição social que levava muitas pessoas às gelatarias da época, caracterizadas por um estilo diferente do actual. Em Macau, a gelataria tradicional chinesa é conhecida por “sala de gelos”. Contudo, nos tempos correntes, muitos estabelecimentos conhecidos por essa nomenclatura são cafés, na sua essência, pelo que o negócio não coadune com a designação do espaço. A este facto soma-se a popularidade dos gelados exóticos e a diversidade de doces, o que deixa muitas lojas antigas cheias de vazio.

Na Macau antiga, as gelatarias tradicionais eram um “paraíso para namorar”. E, como nem todos tinham rádio ou televisão em casa, eram perfeitas para o convívio entre amigos e jovens, que ouviam ópera chinesa no éter dos rádios ali disponíveis.

Kuong Wing Tsan é o actual proprietário da gelataria “Lai Kei Refrescos Sorvetes e Doces”, que refresca turistas e residentes há já quatro décadas. “Sou da terceira geração da família com um negócio vocacionado para a venda de gelados, um mercado que conta com mais de 70 anos de existência”, explicou à TRIBUNA DE MACAU.

Num pequeno regresso ao passado, Kuong Wing Tsan lembra-se do tempo em que os jovens ocupavam as cadeiras e mesas das gelatarias. Espaços que, num primeiro contacto, transbordavam romantismo equiparando-se a um excerto cinematográfico. “Os namorados podiam ver um filme e depois vir comer um gelado” algo que, nessa altura, já era por si só romântico, recorda.

Perante tempos modernos, que trouxeram mudanças às próprias relações pessoais, Kuong Wing Tsan reconhece que o aparecimento de karaokes e salas de jogos esvaziaram as lojas de gelados tradicionais, já que as alternativas de lazer para um casal de namorados também se alteraram.

Aberta há mais de 40 anos, a gelataria situada na Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida oferece um leque variado de opções. Se o ditado já diz que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, no mundo dos gelados a frase popular tem sentido, admite Kuong Wing Tsan. “As receitas tradicionais para fazer gelados são as mesmas, mas os gostos das pessoas mudaram”.

A título de exemplo, quem se dirigisse à “Lai Kei Refrescos Sorvetes e Doces” encontrava no menu “frutas frescas”, isto porque eram literalmente retiradas do frigorífico para a mesa dos clientes. “Antigamente não havia muitos ingredientes para confeccionar gelados, nem químicos ou conservantes. Os ingredientes são muito simples e estas receitas têm mudado muito pouco”, contou.

Além disso, e tendo em conta que os gelados da “Lai Kei” são artesanais, é fácil controlar a quantidade produzida. “Se estivermos em tempos de muito calor, produzimos mais e os gelados esgotam-se rapidamente. Se o tempo estiver mau, já produzimos pouco”, explicou Kuong Wing Tsan.

 

Um menu que resiste ao sabor dos tempos

No negócio dos gelados, a variedade não é problema. Por ser confeccionada artesanalmente – à base de lacticínios, como leite ou nata, adicionando fruta ou outros ingredientes e sabores – esta sobremesa desperta vários sabores e, obviamente, gostos. Na gelataria “Lai Kei”, o gelado com sabor de taro é o mais popular, apontou o proprietário, aproveitando para desmistificar a discrepância entre a planta (e seus produtos derivados) e o aspecto gelado. “As pessoas pensam que o gelado de taro fica roxo mas, na realidade, aparenta uma cor abaunilhada. Por outro lado, o gelado de manga também é popular”, explicou.

“O nosso menu preserva o sabor antigo e conseguimos manter os nossos clientes até porque, hoje em dia, é difícil encontrar gelatarias tradicionais em Macau e Hong Kong”, realça.

Para o proprietário, a abertura do sector do jogo foi positiva para aumentar o número de turistas, muitos dos quais fascinados e curiosos por encontrar o lado mais tradicional dos locais por onde passam. “Muitos turistas andam à procura de coisas tradicionais, mas as lojas antigas estão a desaparecer gradualmente”, considera, assegurando que o seu negócio é o único sobrevivente em Macau.

O dono da “Lai Kei” recorda o tempo em que a Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida era uma verdadeira rua gastronómica, rica em estabelecimentos cujos cheiros abriam o apetite a quem lá passava. Hoje, as vitrines ocupadas com menus e opções de pratos foram substituídas por promoções e uma panóplia infindável de sapatilhas e sapatos. “Isto sucedeu devido às elevadas rendas”, realça.

Além disso, a essência cultural de Macau começa a desaparecer no meio de uma invasão de marcas internacionais que vencem a batalha pela sobrevivência, em prejuízo dos negócios tradicionais, critica, salientando que não está a defender as lojas antigas apenas por representarem uma actividade de outros tempos. “Se as pessoas de Macau viajam para o Japão, porque vão a uma loja de franchising que podem encontrar em todo o lado do mundo?”, questionou.

 

“Matcha” japonesa conquista Michelin

Goto Reiko, responsável da gelataria “Kika”

A gelataria “Kika”, de estilo japonês, abriu portas em Junho de 2016 e rapidamente mereceu o “selo” de reconhecimento no famoso Guia Michelin. Goto Reiko, responsável pela loja, natural do Japão, explica que o gelado nipónico integra “generosos” ingredientes e uma atitude muito séria durante o processo de produção – a chave para este negócio.

Segundo aponta, os produtos “made in” Japão são muito populares em Macau, o que é essencial para o sucesso do negócio. “Caso contrário, não haveria uma gelataria típica japonesa”, frisou.

Os gelados com diferentes intensidades de sabor a “matcha”, são a especialidade da gelataria “Kika”. “As pessoas gostam muito dos gelados com sabor a ‘matcha’, ‘hoji’, ‘earl grey’, entre outros. Os de ‘sakura’ e ‘tofu’ também são muito procurados”, referiu.

A “matcha”, pó de chá verde, é muito conhecida internacionalmente, sendo que a receita do gelado nasceu de uma mistura de técnicas italianas e ingredientes japoneses, explicou. A cultura das gelatarias japonesas é, por isso, a que mais se aproxima da ocidental, na medida em que, por exemplo, tanto oferecem a opção “take-away” como bancos e mesas para os clientes desfrutarem das sobremesas no local.

Embora os climas típicos do Japão e Macau sejam muito distintos, os gelados são populares nos dois territórios. “No Japão, quanto mais frio está, mais gelados se vendem”, contou.

Admitindo estar apaixonada pela cultura de Macau, Goto Reiko também realça a importância do legado português numa cidade onde começou por trabalhar como guia turística, função que cumpriu durante dois anos. “Nesse período fiquei a conhecer esta cidade da qual gosto muito. Ao mesmo tempo, as pessoas de Macau também gostam muito da cultura nipónica”, afirmou.

A dona da Gelataria “Kika” consegue falar fluentemente chinês, após ter rumado a Xangai para uma viagem de autêntica aprendizagem linguística. Embora a língua não seja uma barreira para os negócios, Goto Reiko lamenta que, à semelhança de muitos outros pequenos e médios proprietários, as rendas sejam um entrave ao bom funcionamento dos estabelecimentos comerciais.