A gastronomia local tem de ser preservada, nomeadamente através da criação de uma base de dados de receitas que possa ser consultada pelas novas gerações e levar à criação de novos pratos. A ideia é lançada pela presidente do Instituto de Formação Turística que acredita que a inclusão de Macau na Rede de Cidades Criativas da UNESCO na área da Gastronomia um novo ímpeto ao sector. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, Fanny Vong revela-se optimista em relação ao futuro do turismo tendo em conta o que está preconizado no Plano Geral do Desenvolvimento do sector, porém, ressalva que tudo depende da sua aplicação na prática
Inês Almeida
-As artes culinárias têm sido uma das áreas em que o Instituto de Formação Turística (IFT) tem apostado. Com a integração de Macau na Rede de Cidades Criativas da UNESCO no ramo da Gastronomia esse investimento vai ser reforçado?
-Mesmo antes da designação, o IFT já tem vindo a promover a área da gastronomia com muitos cursos profissionais, uns mais curtos, outros mais longos, todos relacionados com o campo da restauração, bem como o lançamento da Licenciatura em Artes Culinárias, em 2011. Nessa altura já dávamos muita ênfase a esta área porque acreditávamos em preservar as tradições culinárias de Macau e a essência da gastronomia macaense. No futuro, com esta designação, toda a gente está mais atenta ao desenvolvimento de talentos no sector da restauração e gastronomia e também é expectável que façamos muito mais nessa área.
-A designação da UNESCO poderá despertar maior interesse pela área?
-Mesmo antes já havia muito interesse mas consigo prever que no futuro cada vez mais pessoas estejam interessadas nas artes culinárias, seja cursos de curta duração, formações profissionais, ou mesmo as nossas licenciaturas.
-O IFT vai investir mais nesses cursos?
-Certamente vamos investir mais, mas no campus de Mong-Há estamos limitados em termos de espaço pois todas as caves foram transformadas em cozinhas. Não temos mais espaço para desenvolvimento, mas temos as instalações no antigo campus da Universidade de Macau. Também há limitações relacionadas com as infra-estruturas porque a restauração exige muito “hardware” e instalações modernas. De qualquer forma, além das infra-estruturas, também temos um investimento intangível, nas pessoas: no nosso pessoal de restauração e ensino. Haverá mais investimento nesta área.
-O que gostariam de fazer no campus da Taipa?
-Ainda estamos a analisar a possibilidade de construir um Centro de Gastronomia mas isto vai demorar muito tempo. Há muitos detalhes a definir, por isso, não tenho mais informação para partilhar.
-O que é que a integração na Rede de Cidades Criativas pode fazer pelo sector da restauração?
-É sobretudo e em primeiro lugar uma questão de chamar muito a atenção para o nosso sector da restauração, para a excelência da cozinha. Não é que já não se saiba disso mas agora, que há um reconhecimento internacional, as pessoas vão estar mais atentas. Mesmo pessoas que não estão ligadas a esta área vão saber que é uma herança intangível muito preciosa. Em segundo lugar, as pessoas vão dar mais importante ao desenvolvimento de recursos humanos na área da culinária, não apenas para promover as tradições mas também para preservá-las. Há necessidade de preservar o conhecimento da cozinha macaense mas não apenas limitar-nos a isso. Há outros pratos tradicionais em Macau que merecem ser preservados. Estamos a trabalhar para construir uma base de dados para a gastronomia macaense mas também outras tradições culinárias que se encontram em Macau.
-Como seria esta base de dados?
-Seria, por exemplo, uma base de dados de receitas. Teríamos de coleccionar algumas receitas, por vezes, até algumas perdidas há muito tempo. Com a designação enquanto Cidade Gastronómica há a expectativa de que se tem uma espécie de descrição padronizada do que é a nossa cozinha mas sabemos que a gastronomia macaense é muito familiar, evolui de uma fusão da gastronomia portuguesa com ingredientes chineses e vice-versa, com muitas especiarias, trazidas pelos portugueses na altura dos Descobrimentos. É um tópico muito interessante de investigação para as instituições de ensino superior ver se conseguimos criar uma base de dados para preservar o conhecimento que já temos da gastronomia macaense. Tendo por base esse conhecimento, talvez as gerações mais novas, além de preservar o que já sabemos, consigam inovar para encontrar novas formas de se expressar e de promover a cultura gastronómica local. É difícil, claro, mas deve haver uma forma de o fazer. Não estamos a trabalhar sozinhos, trabalhamos em parceria com serviços governamentais e associações de gastronomia macaense para conseguir atingir este objectivo. Ao longo do nosso percurso devemos ter de afinar algumas coisas.
-Esta base de dados é a prioridade ao nível do investimento na Gastronomia?
-Acho que estamos a fazê-lo a diferentes níveis, não apenas fixando-nos em algumas medidas. Criar a base de dados é uma. Ao mesmo tempo, vamos continuar com o trabalho que temos vindo a fazer na formação de profissionais para a área, mantemos a Licenciatura em Artes Culinárias e, ao mesmo tempo, estamos a contemplar um Mestrado numa área relacionada com essa. Outra coisa que podemos fazer é partilhar conhecimento com as entidades congéneres da Grande Baía.
-Vai ser criado um mestrado?
-Ainda estamos a analisar. Estamos a comparar com outros programas, mas queremos ter um mestrado relacionado com as artes culinárias num futuro próximo, idealmente, já em 2019. Esperamos começar já no próximo ano.
-Além das artes culinárias, o IFT está a pensar expandir a oferta curricular?
-Estamos a pensar lançar outros mestrados relacionados com a indústria hoteleira e com o turismo porque estes têm sempre sido os nossos pontos fortes. A nova Lei do Ensino Superior entra em vigor em Agosto. Já estamos a trabalhar no desenvolvimento de programas de pós-graduação porque a Lei dá mais espaço de desenvolvimento às instituições de ensino superior. No passado, não podíamos oferecer além das Licenciaturas. Com a nova lei vai ser possível fazê-lo, por isso, enquanto a lei está em vias de entrar em vigor, estamos a preparar a revisão do currículo.
-Quais são as prioridades para o desenvolvimento futuro do IFT?
-Há muitas prioridades. Não consigo dizer que determinada vertente vem primeiro porque há diferentes equipas a trabalhar em várias coisas. Por exemplo: há um grupo que está encarregue da criação dos mestrados, outros que se vai ocupar de preservar a gastronomia macaense. Temos vários grupos de trabalhos a ocuparem-se das diferentes prioridades. Também há um grupo a tratar da colaboração no âmbito da Grande Baía. Estão a trabalhar em conjunto para perceber como podemos partilhar recursos educativos e de formação com várias cidades. É particularmente importante para o IFT esta questão porque a Grande Baía estará cada vez mais integrada e no âmbito desta estratégia nacional, Macau deve servir de base de formação e educação para o turismo. É uma missão muito importante. Nunca vamos trabalhar sozinhos, vamos trabalhar com outros departamentos para tal.
-Que desafios antevê nesta área?
-Em termos de coordenação temos uma boa relação com outras instituições e departamentos do Governo, por isso, trabalhar com eles é fácil. Trabalhar com outras cidades da Grande Baía vai envolver muito mais comunicação mas, felizmente, também temos determinadas pessoas para se ocuparem de alguns problemas com os departamentos respectivos da Grande Baía. Temos estado em contacto com o Departamento de Turismo de Guangdong, por exemplo.
-O que é que Macau tem para oferecer à Grande Baía neste âmbito?
-Uma das grandes mais-valias de Macau foi sempre a concentração de recursos de topo, de instalações de grande qualidade ao nível do turismo e da hotelaria. Pode servir como um laboratório. Outras cidades que queiram desenvolver o turismo podem visitar-nos, ver o que temos, perceber como gerimos as instalações. Isso não é fácil. São precisas equipas muito competentes. São necessários profissionais cuja qualidade só é possível com formação. Macau tem uma base muito sólida de formação ao nível do turismo. O IFT, a par de outras instituições de ensino superior, oferece programas internacionais de hotelaria e obtemos reconhecimento para esses programas. A Grande Baía não se foca apenas na indústria. O turismo e serviços são também áreas importantes. Por exemplo: Toda a gente sabe que Hong Kong é um centro financeiro, mas o turismo é também uma indústria importante. Outras cidades como Cantão estão à procura de criar planos estratégicos para o desenvolvimento do turismo, por isso, é algo que pode unir todas as cidades e promover o desenvolvimento social e económico da Grande Baía.
-A gastronomia local é suficientemente conhecida?
-Com a designação da UNESCO irá ter mais exposição internacional. De qualquer forma, a Direcção dos Serviços de Turismo (DST) faz muitas promoções lá fora e enviamos “chefs”. Até o IPIM, quando vai à China ou a outras regiões, organiza uma parte dedicada à partilha gastronómica. São boas formas de melhorar a imagem da gastronomia de Macau mas, claro, agora com a designação da UNESCO ela vai ser mais conhecida pelos visitantes internacionais. Às vezes, enquanto turista, vamos a sites como o “TripAdvisor” ou outros que fazem o “marketing” dos destinos. Além disso, muitas actividades são anunciadas nas redes sociais. As pessoas vão ficar a conhecê-las. De cada vez que as pessoas falarem da cozinha, saberão automaticamente que é porque Macau faz parte da Rede de Cidades Criativas da UNESCO na área da Gastronomia, que este é o ano da Gastronomia em Macau e que a culinária macaense tem uma determinada história. Torna-se tópico de conversa e é facilmente transmitido através das redes sociais. Se alguém vier a um dos nossos eventos de promoção da gastronomia, tirar uma fotografia e depois partilhar na internet, é uma forma rápida e eficiente de partilhar informação.
-Este maior investimento na gastronomia terá impacto no turismo?
-Vai ter um impacto positivo. A gastronomia é parte do que é viajar. Primeiro escolhe-se um destino porque se gosta da cultura ou de algum elemento do Património tangível ou intangível, são os principais factores de atractividade de um lugar, mas quando se está no local quer-se experimentar a gastronomia, quer-se provar um sabor diferente do que se come em casa. É uma parte essencial da viagem. Se formos a algum lado e acharmos que o lugar é bonito, as pessoas são simpáticas mas que não há nenhum sabor que associe àquele local, vamos achá-lo insípido, nada de especial. Falta alguma coisa. Macau oferece este tipo de experiência aos visitantes e diferentes tipos de comida. Mesmo os visitantes que estão cá só um dia, de cada vez que cá vêm, podem experimentar várias iguarias de Macau, da China, de Portugal, do Sudeste Asiático. Quer tenham vindo para passear ou em negócios, têm algo por que ansiar: a gastronomia. Torna a experiência mais rica.
-O Plano de Desenvolvimento Geral do Turismo apresentado pela DST consegue resolver os problemas que se verificam actualmente?
-O Plano é uma estratégia a longo prazo, planeia para os próximos 10 anos. Sei que eles entretanto vão revê-lo. Toda a gente sabe que há factores externos que não é possível prever agora que vão acontecer e alterar o plano, portanto, não posso garantir que ele vai resolver todos os problemas. Não tenho como saber o que o futuro reserva. Por aquilo que conseguimos ver agora, o plano deu uma resposta adequada aos problemas que temos. Se todas as propostas apresentadas resolvem os problemas de facto, ainda temos de ver. Falaram em usar tecnologia de “turismo inteligente” para dispersar o fluxo de turistas de uma maneira mais eficiente, mas estas questões devem ser tratadas de acordo com o plano. No entanto, tudo depende de como o plano vai ser implementado. Podemos ter uma óptima solução no papel mas como é que vai ser implementada? Quem é que a vai implementar? Têm o conhecimento profissional para o fazer? O plano também incluía propostas para implementar a curto prazo e gostava que isso acontecesse. Se essas sugestões para o curto prazo forem implementadas, alguns dos problemas mais iminentes podem ser resolvidos, por exemplo, dispersar o fluxo de turistas usando a tecnologia.
-Como assim?
-Em lugares como as Ruínas de São Paulo ou o Templo de A-Má, em alturas de pico, com a tecnologia inteligente os turistas, através do telemóvel, podem ver logo quão lotado está um local e decidir ir a outro sítio primeiro. Também podemos usar esta tecnologia para mostrar que Macau não tem só as Ruínas de São Paulo e o Templo de A-Má, também há outros locais próximos. Se isto for implementado a um ritmo acelerado pode resolver os problemas. A indústria está também sempre a falar da qualidade dos recursos humanos e falta de mão-de-obra, porque, assim, não conseguem contratar recursos humanos de qualidade. Também por isso estamos a ponderar diferentes níveis de programas, começando pela linha da frente, direccionados às pessoas que são mesmo as que recebem os clientes, até cargos de gestão e supervisão. Esperamos que oferecendo diferentes níveis de programas seja possível melhorar a qualidade dos recursos humanos. As infra-estruturas são outro problema ao nível de como estamos a movimentar pessoas pela cidade e para fora dela. É uma questão de perceber quão eficientes somos, sobretudo em alturas de pico. Não tenho soluções porque não trabalho no ramo dos transportes mas há soluções. Não há soluções fáceis.
-Como vê o futuro do turismo em Macau?
-Há muitos factores positivos que influenciam a forma que o sector turístico está a tomar como a criação da Grande Baía, o apoio do Governo Central ao turismo, não só em Macau mas também na China. As expectativas são positivas mas é sempre uma questão de como é feita a gestão. Ao mesmo tempo, o desafio é como é que se gere o processo de crescimento e desenvolvimento? Como é que se integra o turismo de Macau na Grande Baía para que não só Macau cresça mas também ajude os outros a crescer?



