A Galaxy Entertainment investiu 927,5 milhões de dólares para adquirir 4,9% do capital da Wynn Resorts, dando a entender que só não terá ido mais além devido ao limite imposto pela Lei do Jogo de Macau. Noutra operação, Steve Wynn vendeu a dois “investidores institucionais” a restante participação de 7,8% e deixou a estrutura accionista da empresa, onde se destaca agora a ex-esposa. O Governo da RAEM considera que estas alterações não afectam o sector do jogo

 

Sérgio Terra

 

Com a venda das acções que eram detidas pelo seu ex-CEO, a Wynn Resorts sofreu alterações surpreendentes na estrutura accionista, mas a Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ) assegura que este processo “não afecta o sector do jogo na RAEM”.

A saída de Steve Wynn da empresa que fundou há mais de 16 anos concretizou-se em duas operações distintas, começando pela venda de 5,3 milhões de acções à Galaxy Entertainment, por 927,5 milhões de dólares americanos, correspondentes a 4,9% do capital da “empresa mãe” da Wynn Macau. Por outro lado, segundo um comunicado conjunto das operadoras, “dois investidores institucionais de longo prazo”, ambos já com participações na Wynn Resorts, concordaram em comprar os restantes oito milhões de acções de Steve Wynn, equivalentes a uma quota de 7,8%, por 1,4 mil milhões de dólares.

De acordo com a Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ), a venda das acções está em conformidade com as disposições legais e foi “objecto de comunicação prévia” ao Governo por parte da Wynn Resorts (Macau). Asseverando que tem “acompanhado de perto a situação”, nomeadamente através de reuniões com a concessionária, a DICJ frisou que, atendendo às “informações existentes sobre o caso, não se verifica qualquer violação ao número 10 do artigo 17º da Lei nº 16/2001, nem se denota qualquer impacto no funcionamento normal do sector de jogos de fortuna ou azar da RAEM”.

A referência da DICJ prende-se com o facto do regime jurídico que regula a exploração de jogos de fortuna ou azar estabelecer que “as concessionárias, bem como os seus accionistas titulares de valor igual ou superior a 5% do respectivo capital social, não podem ser proprietários, directa ou indirectamente, de percentagem igual ou superior de capital social de outra concessionária” em Macau. Ao adquirir 4,9% da Wynn Macau, o investimento da Galaxy atingiu assim o limite máximo permitido por lei e afastou potenciais concorrentes, como o grupo malaio Genting, que opera um dos dois casinos de Singapura mas nunca escondeu interesse por uma eventual entrada no mercado da RAEM.

No comunicado que anunciou o negócio, o vice-presidente da Galaxy Entertainment, Francis Lui, salientou que esta é uma “oportunidade única” para investir num grupo de entretenimento “globalmente reconhecido”, com uma “qualidade de activos excepcionalmente alta” e um “significativo canal de desenvolvimento”. Por sua vez, Matt Maddox, CEO da Wynn Resorts, destacou a “honra” de ter como accionista “uma empresa tão distinta como a Galaxy Entertainment, que partilha muitas das mesmas filosofias e valores operacionais nucleares”.

 

Um negócio “win-win”

“As implicações do que parece ser um investimento passivo (nesta fase) são importantes tanto para a indústria do jogo de Macau como para o mercado mais amplo”, considera a Sanford C. Bernstein, concordando que o negócio produzirá “resultados positivos” para as duas operadoras. Numa nota aos clientes da consultora, os analistas Vitaly Umansky, Zhen Gong e Cathy Huang admitem que Wynn e Galaxy poderão “colaborar em futuras oportunidades de desenvolvimento na Ásia”, sobretudo no Japão.

Por outro lado, salientam que a Galaxy poderá usar a sua participação de 4,9% para bloquear qualquer tentativa de aquisição da Wynn. “Não acreditamos que a Galaxy venha a comprar a Wynn Resorts na totalidade, mas com a aprovação do governo (…) uma aquisição dos activos da Wynn Macau pela Galaxy criaria a empresa líder” no mercado do jogo no território, acrescentam, antevendo que, nesse cenário, a anterior concessão teria de ser vendida, eliminada ou cedida a uma empresa local.

A venda das acções de Steve Wynn foi consumada poucas semanas depois do magnata ter renunciado ao cargo de CEO da companhia, na sequência de acusações de assédio e agressão sexual dirigidas por várias mulheres. Até ao início deste mês, o magnata e a ex-esposa, Elaine Wynn, estavam proibidos de vender acções da empresa mas chegaram a acordo para revogar essa restrição.

Com a saída do magnata, Elaine Wynn deverá passar a ser a principal accionista da Wynn Resorts, com uma participação de cerca de 9,3%.

 

Nevada vai avaliar idoneidade da Galaxy

A Comissão de Controlo do Jogo do Estado do Nevada anunciou que tomará as “diligências necessárias” para analisar a idoneidade da Galaxy Entertainment, depois do grupo liderado por Lui Che Woo ter adquirido 4,9% da Wynn Resorts. Apesar da lei estadual apenas prever avaliações para accionistas detentores de pelo menos 5% do capital de uma operadora, a entidade reguladora do Nevada tem poder discricionário para lançar processos dessa natureza.