FOTO ROTA DAS LETRAS
FOTO ROTA DAS LETRAS

Ricardo Pinto, director do Festival Literário, admite que a continuidade do evento terá de ser ponderada, depois do cancelamento da vinda de três autores, indicando que o aviso de que não poderiam entrar em Macau partiu do Gabinete de Ligação. O co-fundador, Hélder Beja, abandonará o projecto no final desta edição

 

Salomé Fernandes

 

Na sequência do cancelamento da vinda de três autores, após a organização do Festival Literário ter sido informada “oficiosamente” de que não teriam entrada garantida na RAEM, o director de programação demitiu-se do cargo. Hélder Beja cessa funções a 26 de Março, continuando o seu trabalho até ao final da 7ª edição, que arrancou no sábado e decorre até 25 de Março.

Questionado sobre a possibilidade de voltar atrás na decisão, respondeu negativamente. “A não ser que existissem todas as garantias de que isto não voltaria a acontecer, e não me parece que haja alguém em condições de me dar essas garantias, mesmo. Como foi anunciado, essa mensagem veio do Gabinete de Ligação, que nunca iriam dar garantias de que qualquer coisa deste género não voltaria a acontecer nessas condições. O meu trabalho não deve ser condicionado por questões como essa e não estou disponível para voltar atrás”, disse Hélder Beja à TRIBUNA DE MACAU.

O anúncio foi feito antes do arranque do festival para “marcar uma posição muito clara de não concordância com o que está a acontecer”, explicou, acrescentando ser “uma tomada de posição pessoal e espero que seja visto como um forte acto de defesa daquilo que deve ser a liberdade de pensamento e de expressão”.

Relativamente ao futuro do festival, o director, Ricardo Pinto, indicou que, “depois do que aconteceu, obviamente tudo terá de ser reflectido e ver até que ponto faz sentido continuar com o festival, em que termos, em que circunstâncias, em que condições”. Uma discussão que terá lugar depois do evento terminar.

Ricardo Pinto confirmou ainda a fonte do aviso feito à organização. “Não foi o Governo de Macau, foi da parte do Gabinete de Ligação e nós obviamente não íamos colocar os autores convidados na situação de chegarem a Macau e não poder entrar. Foi-nos comunicado com grande probabilidade que isso iria acontecer”, comentou.

O director garantiu que nunca houve um incidente destes nas edições anteriores. “Justamente por isso é que para nós foi especialmente desconcertante porque não acho que se justifique em situação alguma, mas em relação a estes autores ainda menos. (…) Pensar que se pode ter autores e guardar a liberdade de expressão são duas coisas completamente antagónicas e portanto não faz sequer sentido imaginar que isso possa acontecer”.

Quanto à decisão do director de programação e co-fundador da Rota das Letras, Ricardo Pinto explicou que o tentou demover, mas que compreende as razões da demissão. No entanto, quer que o programa permaneça como o foco principal do festival. “O importante para nós é que neste momento o festival possa ser bem organizado e com o menor ruído possível depois de todo o ruído que já existe”.

 

Turismo garante apoio

A directora dos Serviços de Turismo, Helena de Senna Fernandes, presente na cerimónia de inauguração, comprometeu-se a manter o apoio ao festival. “Desde as primeiras edições que o Turismo está envolvido e agora como Macau entrou na Rede de Cidades Criativas, que também inclui a literatura, vamos continuar a apoiar o festival e a incentivar mais a colaboração entre os diferentes ramos da criatividade”.

A organização espera que ao longo dos 15 dias passem pelas diversas actividades entre 10 a 20 mil pessoas. Para além disso, o director assegurou que os autores presentes têm muita qualidade. “Têm muito a dizer, seguramente muito a dar ao festival e julgo que seria mau para eles, mas também para o público, enfim, não agarrar essa oportunidade de poder contactar com esses autores”.

“Temos dezenas de grandes autores, muitos autores locais também, que são em si mesmos um excelente cartaz e uma garantia de que as pessoas que aqui se dirigirem não se arrependerão”, assegurou Ricardo Pinto. Também a colaboração com as escolas continua, apesar de este ano os Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) se terem afastado do projecto. “O facto de a DSEJ não ter este ano querido ou podido fazer essa coordenação não impediu que tivéssemos feito esse trabalho com as escolas. Aliás, várias delas dirigiram-se ao Festival no sentido de que pudéssemos levar lá os autores e é isso que vai acontecer”, comentou o director.

Por sua vez, Hélder Beja acredita que “a China vista dentro e fora é de longe o tema mais forte do festival neste momento. Temos autores sino-americanos, britânicos, chineses, que escrevem sobre a China e são ou etnicamente chineses ou ocidentais que viveram na China durante muitos anos, e que têm uma obra longa e muito importante”.

 

Director do Gabinete de Ligação diz desconhecer caso dos três escritores

O director do Gabinete de Ligação do Governo Central na RAEM garantiu desconhecer a alegada intenção de proibir a entrada em Macau de três escritores convidados para o Festival Rota das Letras. Em declarações ao “Ou Mun Tin Toi”, em Pequim, Zheng Xiaosong frisou apenas ser essencial ter uma compreensão correcta da Lei Básica para resolver os problemas que eventualmente surjam. Por sua vez, o Secretário para a Segurança, Wong Sio Chak, também assegurou desconhecer a interdição “oficiosa” dos convidados, situação que classificou mesmo como um “rumor”. Segundo disse, o Corpo de Polícia de Segurança Pública “também afirma não ter informação sobre o assunto”. Wong Sio Chak frisou que as entradas e saídas do território são uma questão do foro privado das pessoas, pelo que as autoridades nunca divulgam informações sobre essa matéria.