Não obstante os resultados que o Fórum Macau tem alcançado ao longo de 15 anos, deve-se também pensar no futuro. Numa sessão com representantes dos países participantes ouviram-se apelos a maior intervenção do Fórum junto do sector comercial, nomeadamente de associações. Apesar dos “resultados notáveis” já registados, é também tempo de focar atenção nos trabalhos de apoio ao sector empresarial, como reconheceu a secretária-geral Xu Yingzhen
Catarina Almeida*
A comemoração do 15º aniversário do Fórum Macau e da Plataforma entre a China e os Países de Língua Portuguesa serviu de oportunidade para perspectivar o futuro deste projecto estratégico lançado em 2003 por iniciativa do Governo Central. A efeméride foi assinalada ontem com um seminário em que se aplaudiu o trabalho desenvolvido ao longo de mais de uma década, mas também se ouviram apelos. Um desses foi manifestado por Jorge Costa Oliveira, ex-secretário de Estado da Internacionalização de Portugal. Para o actual CEO da JCO Consulting é necessário perceber que o “Fórum tem de ter mais meios. Não se podem continuar a pedir mais omeletes com os mesmos ovos”, vincou durante uma sessão que procurou recordar a origem, abordar o desenvolvimento e prever o futuro do Fórum.
Além disso, Jorge Oliveira defende que importa trabalhar mais no sentido de criar “novas possibilidades” e encontrar “novos mecanismos de financiamento”. “Em relação a algumas das medidas que julgo saber que o Governo de Macau está a preparar era muito importante que o Fórum se juntasse a elas para todos obterem vantagens, ou que esse novo fluxo de capital fique disponível para reforçar o papel do Fórum Macau enquanto plataforma” sino-lusófona, frisou.
Para o ex-Secretário de Estado, há ainda “muito trabalho para fazer”. “O trabalho do Fórum tem sido muito a nível institucional embora haja uma tentativa muito grande de envolver entidades públicas e agências publicas a nível central, provincial e local. A verdade é que quem importa e exporta são empresas. Portanto, o meu grande repto é que o Fórum, além do magnífico trabalho que já vem fazendo, faça um trabalho mais próximo com as associações empresariais”, frisou.
Tanto que, o “grande salto” deve ser dado no sentido de criar uma “grande proximidade e articulação com as associações empresariais para que se chegue de forma mais directa ao mundo das empresas e, por essa via, contribuir ainda mais para aumentar as trocas comerciais e o investimento”.
Sugestões que são abraçadas pela secretária-geral do Secretariado Permanente do Fórum Macau que quer injectar no mecanismo uma “nova vitalidade” para que consiga atingir “sucesso na nova era”. À margem do seminário, Xu Yingzhen reconheceu a necessidade de criar “mais contactos com diferentes associações de diferentes níveis (central, provincial e local)”. “Nos últimos anos, o Secretariado também envidou muitos esforços nesse tipo de contactos e associações, firmámos alguns memorandos com associações locais do Interior da China, e todos os anos participamos em encontros empresariais organizados por associações de diferentes partes (por exemplo, IPIM, AICEP…). Esperamos concretizar estes esforços e, no futuro, vamos envidar mais esforços [nesse sentido]”, garantiu Xu Yingzhen, que ocupa o cargo desde Junho de 2016.
Outra área de potencial desenvolvimento envolve o sector empresarial. À semelhança do que foi sugerido, a secretária-geral do organismo considera ser “muito alentador para o futuro desenvolvimento do Fórum dizerem que é [preciso] uma orientação focada no trabalho de servir ao sector empresarial”, até porque isso “coincide com o propósito do Fórum”. “Se é de cooperação económica e comercial claro que o corpo principal é o sector empresarial e por isso temos de trabalhar mais para que esse sector de cada parte possa aproveitar mais este Fórum”, frisou.
Maior abertura
Xu Yingzhen, Secretária-geral do Fórum
Neste mês, celebra-se também a admissão de São Tomé e Príncipe como oitavo país lusófono participante. Hélio Almeida, governador do Banco Central em S. Tomé e Príncipe, entende que o Fórum atingiu uma fase de “consolidação”, no entanto, é necessário estar consciente das realidades de cada país. “O grande problema das zonas económicas é a especificidade de cada um, sobretudo quanto maior for a diversificação mas difícil é conseguir-se ter uma linha orientadora concreta”, notou.
“O Fórum tem essa especificidade de ser formado com base naquela irmandade que é secular, o nível de confiança que é fundamental em matéria de negócios já existe. Então vamos especializar-nos em cada região e, a partir daí, trilhar novos caminhos”, sustentou.
Garantindo que o seu país está “motivado e comprometido” com a causa que é intercâmbio económico e comercial sino-lusófono, Hélio Almeida defende porém que se deve trabalhar para “dar uma nova roupagem ao tecido empresarial”. “Acreditamos que estaremos em condições de melhorar o tecido empresarial e internacionalizarmos as nossas empresas. Sinto que depois destes 15 anos é chegada a altura de ao nível do Fórum tentarmos moldar alguns instrumentos disponíveis, particularmente financeiros, que possam facilitar precisamente o acesso por parte dessas pequenas empresas mas numa visão mais abrangente para que possam ter acesso a isso”, vincou.
De Timor-Leste, o director-executivo da “TradeInvest” e ex-Ministro do Desenvolvimento do país, Arcanjo da Silva aproveitou para destacar o crescimento em “ambição e dinamismo” dos planos de acção resultados de cada Conferência Ministerial – já se realizaram cinco.
A aposta no sector empresarial esteve também presente na sua intervenção ao manifestar que deve ser potenciada uma forma de “melhor facilitar o processo de investidores que vêm de outros países”. “O sector empresarial é um pilar importante para reforçar a cooperação comercial e económica entre nós”, indicou.
Por sua vez, Henrique Horta Santos, ex-Ministro da Economia e Finanças da Guiné-Bissau alertou que se deve ter mais em consideração a língua e a cultura de cada país. “Na verdade, o capital só vai para onde se sabe que os riscos podem ser menorizados. Dentro dos objectivos do Fórum e das empresas que querem investir nos nossos países, é bom ter em conta o factor língua e a cultura de cada país. Com isto podemos vencer essas dificuldades”, concluiu.
Já Malam Sambu, embaixador da Guiné-Bissau em Pequim, observou que o seminário é uma “oportunidade para evidenciar o longo caminho que se percorreu nesta primeira etapa de 15 anos do Fórum Macau”. O decano dos Embaixadores dos países lusófonos na capital chinesa considera que o evento é “também uma excelente oportunidade para nos pronunciarmos sobre o desenvolvimento futuro do Fórum cuja sede é nesta bela cidade de Macau”.
Na sua intervenção, frisou ainda que o Fórum “atingiu um patamar que pode ser considerado relevante: conseguimos antever a expressiva dimensão que poderá ter num futuro próximo”.
Resultados “notáveis”
Na abertura do Seminário, o Secretário para a Economia e Finanças salientou os “resultados notáveis” que a cooperação e o intercâmbio económico e comercial sino-lusófono atingiram em 15 anos. Para Lionel Leong, isso merece o “reconhecimento e confirmação de todas as partes envolvidas”.
Desse modo, o Governo “irá continuar como vem fazendo a apoiar os trabalhos do Fórum de Macau e, sob o enquadramento da Comissão para o Desenvolvimento da Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa empenhar-se-á na construção da plataforma, a fim de obter resultados ainda mais notáveis e aproveitar no seu maior expoente as medidas de apoio do Governo Central concedidas à RAEM”.
Por sua vez, o director-adjunto do Gabinete de Ligação do Governo Central da RPC na RAEM, Yao Jian, destacou o contributo do Fórum para a “internacionalização e diversificação” comercial e económica, incentivando “muitos empresários de Macau a [investirem] em diferentes cidades chinesas”. Yao Jian acredita que a edificação do complexo da plataforma de serviços para a cooperação comercial sino-lusófona irá contribuir para que o Fórum alcance um “sucesso ainda mais significativo, sendo um meio importante de ligação e comunicação”.
Com uma visão positiva destes 15 anos de Fórum Macau, Wang Chengan – secretário-geral do organismo entre 2004 e 2008 – antevê um futuro risonho. “Haverá expectativas muito grandes para ainda reforçar e dinamizar as bases que foram deixadas”, frisou em declarações à TRIBUNA DE MACAU.
Ao nível das metas alcançadas, Wang Chengan vê com bons olhos o “intercâmbio entre a China e os países lusófonos no domínio do investimento e ainda o intercâmbio cultural e de recursos humanos” que têm sido “muito dinamizados”, entende. “Não podemos esquecer de salientar que a plataforma de Macau tem desempenhado o seu papel para estimular essa promoção do comércio e investimento”, acrescentou.
* com I.A.



