Tal como noutros territórios que “não conseguiram ganhar independência” depois da “descolonização”, em Macau, o “medir forças” entre o que é local e nacional tem um grande impacto na atitude da população face às línguas. A conclusão é da professora Xi Yan, que avaliou a atitude dos estudantes do ensino superior de Macau relativamente às línguas. Além dos jovens valorizarem mais o Cantonês que o Mandarim, a investigação mostra uma preferência pelo Inglês em detrimento do Português

 

Inês Almeida

 

A situação sociolinguística em sociedades que já foram “colónias” é produto das tensões locais, nacionais e globais e Macau não constitui excepção à regra, diz Xi Yan, autora da investigação “Um estudo sobre a atitude dos estudantes do ensino superior de Macau depois da transferência de soberania”. “À semelhança de outras áreas, como Hong Kong, que não ganharam independência após a descolonização, a medição de forças entre o campo local e o nacional exerce um grande impacto nas atitudes linguísticas da população”, refere.

As conclusões da investigação da professora da Faculdade de Línguas Estrangeiras da Universidade de Huaqiao indicam que os estudantes demonstram atitudes mais positivas em relação ao Cantonês por oposição ao Mandarim “sugerindo as fortes alianças dos estudantes de Macau e a sua distinção psicológica entre Macau e a China Continental”.

“Macau também precisa de lidar com forças coloniais e globais, estando a navegar entre a internacionalização, com a sua ligação ao mundo lusófono através do Português, e uma maior globalização através do Inglês”, defende.

Neste estudo, os estudantes expressaram uma atitude mais positiva em relação ao Inglês em comparação com o Português o que aponta para uma orientação mais “global”, mas a investigação vai mais longe, ao indicar que o Português foi considerado a língua menos importante tanto a nível “integrativo” como “instrumental”.

“O Português não é frequentemente usado pela maioria da população, de etnia chinesa, e a sua proficiência é bastante baixa” apesar de antes da transferência de soberania a língua portuguesa ser dominante no Governo e na lei.

“Embora Macau tenha sido governada por Portugal durante muito tempo, a Administração não promoveu um planeamento sistemático do ensino da língua pelo que uma grande proporção dos chineses não tinham conhecimento do Português”, sublinha a académica.

Pelo contrário, o Cantonês é visto pelos estudantes como a língua mais importante a nível integrativo e a segunda de um ponto de vista instrumental. “O Cantonês é a língua materna da maioria esmagadora da população e amplamente utilizada em todos os aspectos da sociedade de Macau”. No âmbito da educação “o Cantonês ainda é o principal veículo de instrução tanto no ensino primário como secundário”.

Por seu turno, o Inglês surge melhor posicionado face à língua portuguesa uma vez que “pessoas de diferentes etnias usam o Inglês como língua franca para a comunicação”. “Assim, actualmente, o inglês goza de ‘efectiva’ língua oficial de Macau”, sendo “muito usado nos websites e publicações do Governo, nos anúncios públicos e indicações na rua”. “No domínio da educação, é uma disciplina oferecida por muitas escolas e é mesmo língua de ensino em algumas”, observa a académica.

O Mandarim surge como terceira língua no “ranking” tanto a nível de integração como instrumental pois “não representa um meio primário de comunicação entre a população de Macau”. Além disso, sustenta Xi Yan, “a baixa avaliação dos estudantes locais face ao Mandarim pode estar relacionada com os seus estereótipos negativos dos cidadãos oriundos da China Continental e da própria língua”.