Macau é “muito interessante” e foi “relativamente fácil chegar a um desenho que se encaixe bem na paisagem urbana” até porque o território tem uma longa história de junção de culturas devido à influência portuguesa. Quem o diz é Diogo Machado, conhecido no ramo do design como “Add Fuel”, que vai apresentar uma obra numa fachada virada para a Praça de Ponte e Horta. O artista está também a criar uma peça de chão que estará patente no MGM Cotai
Começou pelo design gráfico e a ilustração mas em 2007 vocacionou o seu trabalho para a área artística. Já lá vão mais de 10 anos, recorda Diogo Machado, conhecido no meio como “Add Fuel”, destacando uma evolução “curiosa”. “Quando queremos muito uma coisa e focamo-nos no que queremos fazer, a vida ganha sentido, uma orientação, e com muito trabalho, sorte e um bocadinho de talento, conseguimos. É um processo curioso”, sustenta em declarações à TRIBUNA DE MACAU.
Embora tenha influências de muito pessoas como nos elementos dos vídeo-jogos e da ficção científica, o foco do trabalho é a azulejaria de padrão portuguesa. “É um trabalho de reinvenção e de re-imaginação da azulejaria. Há mais ou menos 10 anos comecei no universo da azulejaria, e encontrei o caminho de trabalho que queria fazer com mais insistência”, frisou Diogo Machado.
“Se pensarmos um bocadinho no que é o nosso azulejo como património e elemento da cultura, os próprios elementos presentes no azulejo tradicional, à partida, não são visíveis, mas muitos deles vêm do trabalho do ferro, do couro e do floral. Os nossos azulejos tradicionais têm elementos naturalistas e já pré-existentes e eu substitui-os pelos meus”, acrescentou.
É a primeira passagem de “Add Fuel” por Macau. “Quando surgiu o convite fez logo bastante sentido. Fiquei muito contente porque o meu trabalho anda muito à volta da cultura, tradição, e Macau com todo o historial que tem fez-me muito sentido”, assegurou. “É bom quando há esta matéria-prima para se trabalhar. Há países em que é difícil fazer isso. Quando pinto nos Estados Unidos tenho imensa dificuldade em pensar no que vou fazer porque é um país com uma história muito curta, que não tem grande matéria-prima para ter por base e fazer esse trabalho de reinterpretação”.
Pelo contrário, ressalva Diogo Machado, “Macau é muito interessante e tem estas coisas todas que dão para trabalhar e foi relativamente fácil chegar a um desenho que pudesse encaixar bem na paisagem urbana de Macau”.
Assim, surgiu um mural seccionado. “Tenho vindo a desenvolver esta linguagem já há algum tempo, que é uma linguagem do que se passa por baixo da parede. Uso o efeito quase tridimensional do recorte, do rasgão, que vai muito ao encontro do conceito do meu trabalho, com a ideia de que a tradição vem de trás e é visualmente aplicada na parede com o efeito de rasgão”, explicou.
Nesta parede haverá zonas em que será aplicado stencil, que vai redireccionar para a linguagem do azulejo português, o branco e o azul. “Há zonas onde tem simbologia mais de vermelho, amarelo e até dourado, que faz a ligação cromática local. O elemento principal é um dragão que é um animal mitológico com muita influência cultural porque é considerado um animal de força, que dá sorte. Fazia bastante sentido aplicá-lo aqui”.
A metamorfose do dragão
Além disso, o dragão encaixa com a temática do “Alter Ego” porque “o dragão tem em si cromática tanto vermelha e amarela como azul e branca, ou seja, é um dragão que sofreu uma metamorfose e está incluído em duas culturas”. “A flor de lótus também vai estar presente, a tipografia em Português e em chinês tradicional”, apontou Diogo Machado.
O artista está também a trabalhar numa peça de chão no MGM Cotai. “Prevejo que nos próximos dias sintamos o cansaço. É uma peça de padrão, que entra um bocado no anamórfico tridimensional, de camadas e sombra para criar profundidade. A peça não é muito grande. É quase um ‘extra’ ao evento”.
A participação no Festival de Artes entre a China e os Países Lusófonos é “muito interessante” para Diogo Machado no sentido em que tem a oportunidade de conhecer outros artistas, “outras pessoas que vivem com os mesmos ideias e as mesmas visões”. “Mais de metade dos artistas que estão aqui hoje já conhecia, pessoalmente até. Há pessoas que só vejo em diferentes partes do mundo e é curioso que acabam por criar-se relações muito facilmente porque vivem a vida um pouco como eu. Há uma ligação quase instantânea porque há sempre assunto para falar, ideias para trocar”, sublinhou Diogo Machado.
Quando sair de Macau, “Add Fuel” vai investir o tempo a trabalhar em peças para uma exposição individual em Montreal, no Canadá. “É uma exposição maioritariamente feita com azulejo pintado à mão, que é trabalhoso, cada peça demora muito a ser feita”, destacou. O artista vai marcar presença também num festival de arte urbana no norte de Manchester, no Reino Unido.
A mostra “Alter Ego” está inserida no âmbito de uma exposição colectiva com o mesmo nome, que será inaugurada na segunda-feira.
I.A.



