Mais de 120 funcionários exercem funções actualmente nas três Divisões do Centro de Segurança Alimentar, cujo trabalho a TRIBUNA DE MACAU foi conhecer “in loco” junto de três agentes da linha da frente. Se a Divisão de Gestão e Planeamento tem 60 fiscais repletos de trabalho, a inspeccionar diariamente restaurantes, balcões de “take-away” e fábricas de processamento de alimentos, já a Divisão de Informação de Riscos trabalha na sensibilização do sector da restauração e cidadãos para a segurança alimentar. Funcionando como o “cérebro”, a Divisão de Avaliação de Riscos elabora indicações adequadas para Macau, observando também diariamente problemas alimentares ocorridos em todo o mundo. Porém, o responsável desta secção defende a criação de um inquérito local aos hábitos alimentares que possa servir de referência

 

Rima Cui

 

Quando se pensa no Centro de Segurança Alimentar do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM), uma das primeiras imagens que salta à vista são as inspecções dos fiscais em restaurantes, mas esta é apenas uma parte dos trabalhos do Centro, criado em Outubro de 2013. “A nossa função é supervisionar estabelecimentos da restauração, com inspecções diárias e amostragem”, começa por explicar à TRIBUNA DE MACAU Vong Wai Ting, fiscal especialista da Divisão de Gestão e Planeamento do Centro de Segurança Alimentar.

Embora Macau seja uma terra pequena, os estabelecimentos na lista de inspecção diária da Divisão de Gestão e Planeamento são muito distintos, abrangendo não só restaurantes, cafés e estabelecimentos de comida, como ainda supermercados, balcões de “take-away” e fábricas de processamento de alimentos. Assim, os poucos mais de 60 fiscais têm “uma quantidade de trabalho relativamente grande”, maior do que os funcionários de outros organismos. Estes inspectores trabalham 12 horas por dia e têm folgas flexíveis.

Face à qualidade da comida em Macau, especialmente elogiada pelos turistas do Continente chinês, que se mostram mais confiantes nos estabelecimentos locais do que da terra natal, Vong Wai Ting assevera que a situação da segurança alimentar local “tem sido muito boa”, com a taxa de qualificação dos produtos na amostragem a superar os 99%.

Nos últimos anos, têm surgido muitos restaurantes de “take-away” de sushi, onde se vende comida japonesa a preços mais acessíveis. No entanto, de acordo com este agente da linha da frente, o sushi é o produto com mais risco de gerar problemas ao nível da qualidade alimentar. “Em teoria, é preciso destruir o sushi não vendido do dia”, explicou.

O tratamento dado a alimentos não qualificados divide-se em três etapas: avisos aos estabelecimentos, recolha de produtos e destruição.

Vong Wai Ting

Ao contrário das autoridades policiais, os inspectores do Centro de Segurança Alimentar não têm uma lista negra de áreas problemáticas, pois, “em todas as zonas, os alimentos vendidos no mercado de Macau são mais ou menos iguais”.

Apesar de trabalhar na linha da frente, Vong Wai Ting garante não ser demasiado sensível aos alimentos, porque confia na segurança alimentar do território.

 

“Trabalhar na Divisão de Informação de Riscos é como ser professor”

A par das inspecções, o Centro dispõe de uma divisão de contacto directo com o sector da restauração. “A Divisão de Informação de Riscos transmite conhecimentos actualizados e também ouve opiniões do sector e da sociedade, é como se fosse uma ponte”, indicou Lei Sok In, técnica desta unidade.

Para comunicar com os estabelecimentos da área da restauração, escolas e associações, a Divisão de Informação de Riscos organiza um colóquio por mês, no mínimo.

“Às vezes, há escolas que escolhem a nossa série de colóquios com 20 aulas. Assim precisamos de dar quatro a cinco aulas por dia. Podemos ficar todo o dia fora do escritório”, revelou a técnica.

Para a jovem, trabalhar nesta Divisão “é como se fosse um professor”. “Na segurança alimentar, a prioridade é a prevenção, portanto, os trabalhos principais da Divisão têm a ver com a educação, em que os funcionários têm a tarefa de sensibilizar incessantemente as pessoas”, destacou.

“Fazemos ainda colóquios sobre alimentação nas instituições do ensino, para que as pessoas que cozinham nas creches, centros de explicação e lares de idosos tenham uma noção de que o sabor não é o único indicador da culinária”, salientou.

Em 2015, o Centro de Segurança Alimentar lançou o Programa de Incentivo ao Supervisor de Higiene Alimentar, que conta até agora com mais de 800 participantes, revelou a funcionária. Para encorajar o sector a aprender mais, o Centro promoveu ainda um curso básico sobre segurança alimentar e higiene ambiental de duas horas.

Lei Sok In

No contacto com o sector, os estabelecimentos da restauração pediram para que os colóquios sejam mais frequentes e sublinharam a necessidade de adicionar nessas acções certos temas, como por exemplo a gripe das aves, notou Lei Sok In.

Na sensibilização da sociedade em geral, o leque de temas é superior a duas dezenas, mas para a técnica da Divisão de Informação de Riscos, apesar do sector e dos cidadãos serem informados, não prestam muita atenção ao comportamento. “Entre o saber e o fazer há uma disparidade”, apontou.

A Divisão garante a disponibilidade de todas as informações online, tendo ainda a funcionar uma conta pública no “WeChat”. Por outro lado, possui profissionais que falam cantonês, mandarim, português e inglês para corresponder a todas as necessidades linguísticas gerais.

 

“Macau deve ter inquérito sobre hábitos alimentares”

Na organização do Centro, há ainda espaço para a Divisão de Avaliação de Riscos, que funciona como uma espécie de “cérebro” do organismo, porque todas as orientações e guias sobre a segurança alimentar de Macau são ali elaboradas.

Tal como os colegas ouvidos pela TRIBUNA DE MACAU, Chan Kit Hong, técnico superior desta Divisão, também exerce funções no Centro desde a sua criação. “Os alimentos de Macau são maioritariamente importados, por isso, acompanhamos todos os dias os casos de segurança alimentar que ocorrem no mundo, recorrendo ao procedimento de avaliação de riscos, para confirmar quais são os casos que podem afectar a segurança alimentar local”, destacou o técnico superior.

Quando o risco do produto é confirmado, esta unidade do Centro de Segurança Alimentar transmite imediatamente as informações à Divisão de Gestão e Planeamento, para que o produto problemático seja recolhido ou proibida a importação.

Esta secção do Centro trabalha também com um sistema de registo, em que as situações sobre a recolha de alimentos problemáticos no mundo são transmitidas diariamente ao sector de restauração, para que tenha informações em primeira mão.

Para além da análise da segurança alimentar, a Divisão de Avaliação de Riscos elabora orientações e guias, tendo lançado, desde Outubro de 2013, mais de 40 documentos, constantemente actualizados, sobretudo quando ocorrem casos especiais.

“Depois do tufão Hato, muitos sítios foram afectados pelas inundações. Naquela altura, lançámos imediatamente orientações para o sector saber como tratar dos alimentos afectados e as pessoas saberem como conservar a comida em caso de apagão”, contou o técnico superior.

Chan Kit Hong

Segundo Chan Kit Hong, a tarefa mais importante da Divisão é elaborar padrões de segurança alimentar para o território, mas isto também representa dificuldades para o pessoal de linha da frente. “Macau depende principalmente dos alimentos importados e os padrões não podem ser muito diferentes das normas aplicadas nas regiões de origem. Mas também não podemos seguir totalmente os padrões deles, tendo de combiná-los com as situações concretas do território”, referiu.

As normas não são dados simples, pois precisam de ter como núcleo duro os padrões da Comissão de Segurança Alimentar e com base nos países desenvolvidos, sendo depois analisadas consoante os resultados dos testes locais.

“O lançamento de uma medida padrão tem de ter em conta muitos aspectos, nomeadamente se pode efectivamente garantir a segurança alimentar, se não vai afectar a comercialização dos alimentos no mercado, entre outros aspectos. Além disso, precisa de corresponder aos acordos comerciais da Organização Mundial do Comércio”, realçou.

Nesse ponto, o técnico superior sustentou que, para os padrões serem mais precisos, é importante que a RAEM tenha um inquérito próprio sobre os seus hábitos alimentares. Como esta componente é inexistente, têm de ser utilizados dados de referência da Província de Guangdong e de Hong Kong. Segundo adiantou, esse estudo será desenvolvido gradualmente, estando agora em fase de preparação.

Para além disso, esta Divisão de Avaliação faz investigação específica sobre os riscos nos alimentos, principalmente os mais consumidos e acompanhados pelos cidadãos.

Esta secção analisa muitos alimentos sazonais, como os bolos lunares e comida enlatada, que normalmente não está sujeita a inspecção e quarentena específicas. Durante a investigação, o Centro averigua se têm efeitos negativos no corpo humano, guardando os dados para serem usados como base científica na futura elaboração do planeamento.

Os estabelecimentos de comida e lojas de lembranças que vendem sobremesas tradicionais estão espalhados por todo o lado na cidade, mas Chan Kit Hong assegura que o problema de segurança alimentar nesses locais é pequeno.

“A meu ver, as pessoas precisam de ter mais confiança nos alimentos. Não se deve ter medo quando se ouve que um produto tem alguma componente acima dos padrões recomendáveis. O importante é averiguar qual o impacto na saúde e perceber a quantidade desse produto que é consumida”, frisou o profissional.

Em relação à expansão da comercialização de alimentos online, Chan Kit Hong considera que podem ser organizados em quatro tipos: os produtos comercializados em lojas físicas; os vendidos no site oficial, através de lojas físicas; os produzidos e vendidos por indivíduos com recurso a plataformas electrónicas, semelhantes a comerciantes “freelancer”; e ainda os que são entregues por “assistentes de compra” aos clientes.

Na sua perspectiva, os comerciantes “freelancer” são os de maior risco, porque não se conhece a origem da comida, nem como foi confeccionada e conservada. “Vamos ponderar mais medidas de supervisão desta situação, esperando que haja uma nova lei que faça um maior controlo das pessoas que comercializam alimentos online”, apontou Chan Kit Hong.

 

Aumento dos quadros

Lai Chi Weng, porta-voz do IACM, indicou que, neste momento, o Centro de Segurança Alimentar tem mais de 120 funcionários, sendo que quando foi criado contava com 80. “O nosso pessoal tem tido um aumento constante”, afirmou.

Além disso, Chan Kit Hong referiu que, para trabalhar enquanto técnico superior do Centro é necessário possuir pelo menos uma licenciatura. Para se ser técnico é preciso no mínimo um bacharelato. O pessoal deve ser formado em cursos associados à segurança alimentar.

O Centro tem quadros da área de saúde pública, medicina, exame químico e segurança alimentar. “Os alimentos envolvem âmbitos demasiado vastos, por isso, é preciso colegas de áreas diferentes trabalharem em conjunto”, ressalvou Chan.