A Cinemateca Paixão transmite hoje os dois filmes de encerramento do Festival de Cinema entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Em destaque estão os primeiros trabalhos do realizador Manoel de Oliveira: “Douro, Faina Fluvial” e “Aniki-Bóbó”

 

Inês Almeida

 

Chega hoje ao fim o Festival de Cinema entre a China e os Países de Língua Portuguesa, integrado no Festival de Artes e Cultura. Os filmes de encerramento são versões restauradas de películas de Manoel de Oliveira que chegam às telas da Cinemateca Paixão. Pelas 19:30, numa sessão já esgotada, serão transmitidos os dois primeiros filmes do realizador português: “Aniki-Bóbó” e “Douro, Faina Fluvial”.

Douro, Faina Fluvial

Com 70 minutos, “Aniki-Bóbó” a primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira conta uma história de amor e mentiras junto ao rio Douro, cujos protagonistas são crianças da escola primária. Transferindo para o Porto e margens do Douro o conto de João Rodrigues de Freitas, “Os Meninos Milionários”, escrito em 1930, o filme “gira em torno da atribulada entre o tímido Carlitos e o agressivo Eduardinho que competem pelo afecto da colega Teresinha”, lê-se na sinopse publicada no “site” da Cinemateca Paixão. “A sua crescente rivalidade acaba por levar a roubo, violência, dano físico, expulsão e mesmo uma tentativa de exílio voluntário”.

A primeira longa metragem de um dos mais conceituados realizadores portugueses “é um notável drama que examina os rituais de passagem de dois rapazes e uma rapariga em busca de liberdade num espaço definido pelas opressivas normas sociais do Estado Novo”.

Do mesmo modo que as crianças “despertam para a vida” no ecrã, Manoel de Oliveira faz o mesmo fora dele, com “Aniki-Bóbó” a anunciar uma carreira que continuaria até à sua morte, em 2015, com 106 anos.

Aniki-Bóbó

Na mesma sessão será apresentado o filme “Douro, Faina Fluvial”, com a duração de 21 minutos, o primeiro da carreira do realizador. “Filmado por um empregado bancário, montado numa garagem e vaiado na estreia: quem teria pensado, em 1931, que ‘Douro, Faina Fluvial’ se tornaria num marco, tanto para o cineasta como para a história do cinema português, senão do cinema em geral?”, lê-se no “site” da Cinemateca Paixão.

“Mais conhecido na época como filho de um industrial, corredor de automóveis e actor ocasional, Manoel de Oliveira, na sua estreia como realizador, tenta apropria a estética e temas de Berlim: Sinfonia de Uma Grande Cidade, de Walter Ruttmann, para retratar o Porto, a sua cidade natal”. Com 22 anos, acabou por conseguir isso mesmo “e muito mais”. Ao mesmo tempo que cria uma experiência formalista, com o seu jogo de luz, montagem e ângulos de câmara oblíquos, a película “também documenta o labor humano e como as ocupações tradicionais, pesca e pastorícia, chocam com a modernidade dos aviões e automóveis: o filme encena um ‘acidente’ entre um carro de bois e um carro em marcha atrás, dando o tom à apetência que Oliveira cultivou, ao longo de toda a carreira, por fundir a realidade e a ficção”.