Pão numa mão, cerveja na outra. Cheirinho a sardinha – que este ano não foi assada na brasa – com música tradicional à mistura e assim se cumpriu mais um São João. A chuva prejudicou ligeiramente a adesão à festa mas o sol e o calor de ontem equilibraram o balanço no que respeita aos participantes. De um modo geral, os petiscos, a doçaria e a música atraíram muitos curiosos, e a organização continua a sonhar que esta “festa da cidade” faça também parte do cartaz turístico de Macau

 

Catarina Almeida

 

Faça sol ou chuva, o Arraial de São João mantém-se. A premissa sempre foi essa e este ano não foi excepção. Mesmo com um sábado bastante chuvoso, que tirou muita gente da rua, o arraial voltou a animar a zona de São Lázaro com a música tradicional, os cheiros, as cores das doçarias e do artesanato que se vendeu durante este fim-de-semana pelas 35 barraquinhas.

“Há pessoas que se assustam com a chuva, já não nos assustamos, são muitos anos disto. E sabemos que a chuva vai e vem e há que aguentar o bocadinho que vem e esperar pelo bocadinho em que vai”, disse a presidente da Casa de Portugal à TRIBUNA DE MACAU.

Mesmo que a chuva tenha influenciado a adesão à festividade no primeiro dia de arraial, a verdade é que o bom tempo de ontem acabou por equilibrar as contas. “Também mexeu com isto o facto de aparecerem os avisos todos de que não se podia fazer isto e aquilo e as pessoas pensam que a feira também não se fazia. Houve uma grande diferença por causa disso. Hoje [ontem] está um dia de sol, espero que se aguente e já se nota uma diferença no movimento”, explicou Amélia António.

De um modo geral, continuaram a aparecer muitos portugueses, macaenses e também chineses. Até porque, como frisa Maria Amélia António, o Arraial de São João é “uma festa da cidade” e “cada vez mais as pessoas vão percebendo isso”. E, por isso mesmo, a responsável volta a criticar o facto deste evento – que vai já na sua 11ª edição – ainda não ter ganho estatuto para integrar o calendário de eventos oficiais. “A adesão do público também é proporcional, à medida que cresce e que as pessoas vão ouvindo falar. No dia em que isto estiver no calendário das festas de Macau de certeza que mais público trará”, vincou.

“Temos vindo sistematicamente a falar nisto, provavelmente acharam ainda que não tinha a dimensão que justificasse, mas as coisas são proporcionais, crescem mas também precisam de ser ajudadas a crescer. Há aqui causas-efeitos que se interligam”, defendeu a presidente da Casa de Portugal, uma das entidades organizadoras.

 

Sardinha sem carvão atraiu menos a atenção

Não há Arraial de São João sem sardinha no pão e cabe a Lourenço Lopes essa importante tarefa de agradar tanta clientela que acorre religiosamente ao bairro de São Lázaro em busca de um petisco tão português e típico desta festividade.

O “spot” é sempre o mesmo: em frente ao Albergue SCM, há bifanas no pão, sardinha e as bebidas – das imperiais à água – e muita boa disposição à mistura. Ainda que afastado do centro da festa, o “stand” de Lourenço Lopes podia ser encontrado pelo cheiro que, pela primeira vez, pecou pela falta da sardinha na brasa por decisão das autoridades competentes. Uma regra que em todos os anos do Arraial nunca tinha sido imposta e que acabou, de facto, por prejudicar o negócio e sobretudo o ambiente da festa.

Este ano, Lourenço Lopes diz mesmo que não iria vender nem 50% [encomendou 80 a 100 quilos de sardinha] do que registou na última edição, sendo a chuva meia-culpada. “Foi-nos proibido o cartão que era a base do mais tradicional português. Para o turista também é outra coisa porque os olhos também comem… As pessoas paravam, tiravam fotografias e, automaticamente provavam. Este ano não chama à atenção porque a [chapa] eléctrica está dentro da barraca…”, lamenta.

Para Lourenço Lopes esta restrição chega a ser “caricata”. “Penso que é uma [coisa de Macau], parece que não tem interesse… Não houve abertura. Concordo que o carvão possa ser um foco de incêndio mas não quando está ao lado de um assador, com pessoas ao lado, não será por aí…”, vincou.

Amélia António reconhece o impacto que esta alteração representa para a própria imagem da festa. “A diferença é enorme porque isto tradicional. A sardinha não é a mesma coisa na chapa eléctrica e são 11 anos em que sempre se fez da mesma maneira. É uma excepção”, disse.

“Há pessoas que vêm todos os anos para ter a oportunidade de comer uma sardinha na brasa. É evidente quando se diz que não há, só placa eléctrica, para isso comem em qualquer lado. Rouba o espírito, o cheiro, há toda uma ambiência que se perde e não é ao fim de 11 anos que de repente se tornou perigo ter uma barrica com carvão. Quando acaba a festa deitam água, é tudo apagado. É feito todos os anos com muito cuidado. É a aplicação cega de um regulamento”, critica a presidente da Casa de Portugal, que não percebe que uma “determinada festa e regulamento não possa ter uma coisa com características diferentes que são naquele momento”. “Todas as regras têm momentos de excepção”, concluiu.

 

Doçaria portuguesa e artesanato original

Mas nem só de sardinha e bifanas se faz o São João. Porque também há gostos para tudo, o “stand” de Manuela Guerreiro foi um dos mais concorridos no que aos doces diz respeito. Este foi já o quinto ano em que Manuela Guerreiro deliciou a gulodice de muitos turistas e curiosos que passaram pelas artérias de São Lázaro.

No centro da festa, a barraquinha “Doçuras e Ternuras” tinha à venda um bocadinho desse Portugal doce, do Algarve ao Norte: Pastel de feijão de Chaves, Brisas do Lis de Leiria, Pastéis de Tentúgal, Tarte de Amêndoa de Lisboa, doces finos do Algarve de massa de amêndoa, etc. “No sábado foi mais fraco devido ao estado do tempo, de qualquer forma acho que se cumpriu o propósito de nos divertirmos e vendeu-se razoavelmente, ainda que nada que se compare com outros anos”, observou Manuela Guerreiro.

O nome do “stand” é também o nome da empresa que durante o ano garante doces e bolos aos pedidos feitos. Além da doçaria, Manuela Guerreiro apostou também no artesanato muito em parte devido ao novo projecto “Manuelidades”. “Descobri que até gosto da máquina da costura. Sempre gostei muito de trabalhos manuais, aliás, os bolos são também a prova disso. Descobri que a máquina de costura também pode ser uma aliada, relaxa-me imenso e acabo por fazer coisas relativas ao São João. Tenho as sardinhas porta-chaves, magnéticos, andorinhas – que já vendi todas – uns bacalhaus com alfazema, bonecos de retalhos…”, explicou.

Por sua vez, do lado oposto do “stand” de Manuela Guerreiro, as malas e peças em cortiça, pedras semipreciosas e madeira de Ana Cristina Sarmento faziam parar os que acabavam de entrar no perímetro do Arraial. Com o projecto “Malaninha” – que partilha com os filhos e irmã – o artesanato de Cristina Sarmento é já presença habitual noutras edições do evento.

Contudo, este ano, foi a primeira vez que marcou presença fisicamente pois noutras edições estava sempre em Portugal, de férias. De qualquer forma, para Cristina Sarmento, este arraial é sempre uma óptica oportunidade não só para divulgar os trabalhos mas sobretudo para “nos darmos a conhecer, criamos amizades e conviver”.