Coroas de flores nas cabeças. Velas a iluminar a noite. Véus brancos a cobrir o rosto das fiéis. O cenário que serve de fundo à procissão do 13 de Maio no território mantém-se, bem como a adesão multicultural
Salomé Fernandes
As luzes das velas eléctricas sobressaíam cada vez mais à medida que anoitecia em Macau. Centenas de pontos amarelos acusaram ontem a presença de fiéis a serpentear por entre a cidade, acompanhados de cânticos e passagens citadas em português, chinês e inglês, na procissão de Nossa Senhora de Fátima.
Quando terminou a missa que “deu vida” à Igreja de São Domingos no final da tarde, já inúmeros fiéis aguardavam a passagem da imagem de Nossa Senhora, bem como turistas de telemóvel e câmara fotográfica em riste. Meninas de branco, que minutos antes ajeitavam as coroas de flores nas cabeças, invocavam anjos ao criar corredores laterais pelo percurso que as “meninas da Congregação de Fátima” viriam a realizar.
Não apenas de locais é composta a comunidade católica da RAEM. Celae é filipina e trabalha em Macau há já vários anos e quando no ano passado viu a procissão passar a partir do seu local de trabalho não se sentiu bem por não poder participar, pelo que prometeu a si mesma que não voltava a faltar. “Tirei um dia de férias pela senhora da Penha. É muito importante para mim porque é só um dia por ano”, disse à TRIBUNA DE MACAU. Mostrando-se feliz com a decisão de abdicar de um dia de férias para evitar trabalhar durante o turno da tarde/noite, confessou esperar ser abençoada por Maria.
Era apenas uma das várias fiéis que integravam o evento. A multidão regressou este ano ao percurso habitual, com homilia na igreja de São Domingos e saída em direcção à Ermida da Penha, com passagem pela Sé Catedral e pela Avenida da Praia Grande. À passagem da multidão olhares curiosos voltavam-se para presenciar o fenómeno religioso que ano após ano decorre no 13 de Maio.
E há quem venha de longe para poder participar. “Venho todos os anos do Brasil”, lançou Frederico Martins. Nascido em Macau, o macaense aproveita esta data para visitar a família que tem no território e da qual vive longe há já 42 anos. “Sou católico e esta é uma das principais procissões que temos em Macau. Venho todos os anos a esta procissão”, indicou. Frederico vê sempre “muita gente” na procissão e o contexto aparenta não ter sofrido alterações, mantendo o cortejo religioso uma dimensão semelhante a anos anteriores.
A abrir o percurso seguiam os três pastorinhos. Margarida Figueiredo é mãe de dois deles, e a sua filha mais velha participa também na procissão, como um dos anjinhos. “Tanto eu como o meu marido tivemos uma educação cristã, religiosa, por isso os meninos foram tendo um acompanhamento na fé, tanto em Coimbra, onde vivemos antes, como agora. Aqui em Macau é particularmente importante a catequese também, que vai sendo o acompanhamento deles, e a ida à missa”, disse à TRIBUNA DE MACAU.
Margarida sente sobretudo que a vontade de participar em eventos como as procissões parte dos seus filhos, a quem pergunta sempre se querem ir por não os querer forçar. Algo que é também por eles demonstrado na catequese, visto terem sido escolhidos para o papel de destaque pelas catequistas, em resultado do seu empenho. Mas não são as únicas crianças a participar, sendo a procissão composta de pessoas de idades muito diversas.
“No ano passado fomos a Fátima, eles já tinham idades que permitiam explicar o que era, o que envolvia, e fomos, pelo que isto não é novo para eles. Mas permitiu voltar a falar no assunto”, comentou Margarida. Dos cinco anos que já passou em Macau, sente que há maior adesão pelo número de crianças que vai à catequese e à missa. “Penso que foi importante os meninos terem começado a participar na missa também, como acólitos”, frisou.
Margarida lamenta apenas que em Macau não haja uma missa dirigida para as crianças. “Em Portugal conseguíamos encontrar isso com frequência, nomeadamente em muitas paróquias há missa para os meninos da catequese e aqui não temos isso. Portanto para eles é difícil acompanhar e mantê-los interessados”, referiu. Motivo pelo qual a participação como acólitos é tão bem acolhida. “Vão fazendo pequenas coisas mas que os mantém atentos, interessados, e lá chegará o tempo em que vão perceber o sentido da missa, das homilias”, explicou.



