O Governo deveria ter ouvido e esclarecido a população sobre a intenção de construir o crematório na Taipa. Esta foi a principal mensagem transmitida durante o protesto de ontem que, segundo os organizadores, juntou mil pessoas na rua, enquanto a polícia aponta para cerca de cinco centenas. Apoiados por Sulu Sou e Pereira Coutinho, os manifestantes mostraram-se contra a construção daquela infraestrutura em Macau e disseram sentir-se enganados. Alegam mesmo que a intenção de construir o crematório foi motivada por uma troca de interesses

 

Catarina Almeida e Rima Cui

 

A chuva ameaçou mas a indignação falou mais alto. O projecto de construção do crematório no Cemitério Sá Kong, na Taipa, levou sensivelmente mil pessoas à rua, segundo a organização, ou 480, de acordo com os dados do Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP). A manifestação contra o crematório foi apoiada por Sulu Sou e Pereira Coutinho, apesar do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) ter recuado e desistido da construção do equipamento no cemitério da Taipa.

O grupo de manifestantes saiu da Praça do Tap Seac às 16:00 em direcção à Sede do Governo onde deixou uma carta, com 2.500 assinaturas, rejeitando a construção do crematório, convictos de que “Macau não tem condições para construir” essa infra-estrutura. “Estamos cá para ajudar os residentes com este protesto para transmitir a nossa opinião de forma clara. Não aceitamos a desistência [da proposta] queremos que cancelem o [projecto]. Estamos fortemente contra a construção do crematório”, vincou Sulu Sou, que esteve ao lado de Coutinho na linha da frente do protesto.

“O Governo tem de explicar bem se Macau tem ou não condições para construir o crematório. Em segundo lugar, tem de esclarecer se a cremação é a única solução para tratar os cadáveres. O Governo fingiu que respeitou a opinião da população, pois o problema existe há muitos anos e se quisesse mesmo rever a lei, já o tinha feito há muito tempo”, salientou Sulu Sou.

Apesar da indignação contra a construção do equipamento na Taipa, o Governo defendeu, na última semana, que o cemitério da Taipa é o local ideal. Porém, a população diz-se desconfiada e pouco informada. “O local onde queriam construir o crematório é demasiado perto da minha casa, escolas primárias, creche e lares de idosos. Desde o estabelecimento da RAEM o Governo nunca tinha mencionado a construção de um crematório, só agora começou a falar. É óbvio que o assunto envolve troca de interesses. Precisamos de fazer o Governo conhecer as nossas opiniões”, criticou a moradora Wan, em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

A tese de que há interesses por detrás deste projecto é também defendida por Coutinho que, no entanto, não quis desenvolver as alegações. “As decisões estão tomadas e o mais grave é o conluio de interesses. Temos recebido informações de que há pessoas interessadas no crematório. Há empresários… Não recebo o salário dos polícias e do CCAC por isso que investiguem! Se recebesse o salário fazia muito mais”, disse o deputado no arranque do protesto.

Mesmo apesar do presidente do IACM ter vincado que a população não quis ouvir as explicações do Governo e conhecer os planos de construção, os promotores do protesto mostraram-se indignados com a falta de informação sobre o projecto. “O Governo adiou a construção desta instalação por mais de 20 anos, mas agora forçaram os residentes a aceitar esta má localização. Não podemos aceitar isso. Não há neste momento qualquer informação. Queremos comunicar com o Governo mas não tem havido resposta até agora”, frisou Sulu Sou.

O vice-presidente da Associação Novo Macau regressa hoje à Assembleia Legislativa e, nessa circunstância, fez saber que irá submeter uma proposta de debate sobre a construção de crematórios. A intenção? Saber se o território tem, ou não, condições para construir uma infraestrutura dessa índole. À semelhança da deputada Agnes Lam, que também apresentou a mesma intenção, Sulu Sou não sabe para já se irá assinar a proposta com o deputado Pereira Coutinho.

Chan, residente de 69 anos, também saiu à rua indignada contra este projecto. “Coloane tem uma montanha tão grande. Porque é que o Governo não escolheu Coloane para construir o crematório?”, disse a este jornal. “Construir o crematório em Coloane irá afectar relativamente menos a saúde dos cidadãos. Como cidadão não posso ficar isolado dos assuntos sociais. Quando me sinto zangado, preciso de sair para me manifestar contra coisas irrazoáveis”, afirmou Chan.

Entre o grupo de protestantes, estiveram presentes membros da Associação dos Compradores de Pearl Horizon. Em declarações a este jornal, o presidente da associação, Kou Meng Pok, explicou que fez questão de estar participar – juntamente com “uma centenas de membros”- para criticar o “facto de o Governo tomar decisões sem consultar o público”.

“Estamos contra os dirigentes governamentais que não fazem nada. Se o caso do Pearl Horizon continuar a não ser resolvido, iremos participar sempre nas actividades ligadas a assuntos sociais”, afirmou.