Carlos Coelho ficará guardado nas memórias de quem o viu em palco com os “Dóçi Papiaçám di Macau”. Considerado por Alfredo Ritchie como o “melhor actor em patuá em palco”, ofereceu muitas risadas ao público com os seus trejeitos e o dialecto que falava fluentemente
Liane Ferreira*
Nascido em Macau em 1953, Carlos Coelho e a família permaneceram no território quando muitos macaenses partiram para a diáspora. Foi no ensino que trabalhou, e nos palcos e em patuá que brilhou, fazendo parte do grupo “Dóçi Papiaçám di Macau” durante a década de 1990, quando se cruzou com Alfredo Ritchie.
“Para mim, até agora era o melhor actor em patuá em palco. Não só porque falava um patuá genuíno, mas também porque como actor tinha uns trejeitos, fazia uns beiços, uns movimentos com os braços e os ombros que tinham muita piada e se enquadravam muito bem nas peças de Miguel Senna Fernandes”, disse Alfredo Ritchie à TRIBUNA DE MACAU.
Alfredo Ritchie garante não saber porque é que Carlos Coelho se desligou do grupo do teatro, mas lamenta. “Era uma peça muito importante, principalmente quando entrava e fazia par com a Anabela Granados”, salienta.
“Lembro-me de uma cena, não sei de qual peça, em que ele aparece com um quimono japonês e de leque na mão, e fazia uns jeitos com o leque. Foi uma cena de morrer a rir. É difícil de descrever mas ficou na memória”, recorda, ao frisar que Carlos Coelho estava totalmente à vontade no palco. “Mesmo quando os colegas com quem contracenava falhavam a fala, ele entrava no meio e dava uma deixa para continuarem. Ele conseguia fazer isso com toda a naturalidade e o público não percebia nada”, afirmou Alfredo Ritchie.
Anabela Ritchie também ficou muito chocada com a notícia do falecimento de Carlos Coelho. “Teve um grande contributo para a educação, foi durante muitos anos director e dirigente do ensino primário oficial. Conheço-o também como belíssimo actor de patuá. A dupla que ele fazia com a secretária da Assembleia, Anabela Granados, era absolutamente impagável, muitas gargalhadas nos proporcionaram”, disse Anabela Ritchie, notando que por outro lado, os “mais novos do “Dóçi Papiaçám di Macau” só conhecem o Carlos dos vídeos que viram”.
Segundo a antiga líder da Assembleia Legislativa, Carlos Coelho estava aposentado e desligado do ensino, mas continuava a ajudar muito a Diocese.
Para Miguel de Senna Fernandes, trata-se de uma “grande perda” para a comunidade macaense, porque “desapareceu uma das pessoas mais autênticas enquanto falante de patuá”. “Neste momento, já não existem pessoas que falavam aquele patuá antigo de que o Carlos seria das pessoas mais representativas. Ele não só falava como era cultor da própria língua”, disse à TRIBUNA DE MACAU o encenador dos “Dóci Papiaçám”, salientando que na página de Carlos Coelho no Facebook era possível encontrar “textos muito interessantes em patuá, porque falava no dia a dia”.
Após ter ingressado nos “Dóci Papiaçám” em 1994, Carlos Coelho fez um interregno até 2000, quando regressou para a última peça. “Era um actor de qualidades invulgares, cómico e criativo, o mais versátil em teatro macaense, um actor nato”, salientou Miguel de Senna Fernandes.
A notícia do falecimento também chegou ao Brasil, onde o investigador de patuá, Ozias Alves Jr., escreveu no jornal digital “JB Foco”: “Carlos era um apaixonado pelo patuá que, para ele, carregava todo o espírito da antiga cidade de Macau”. Carlos Coelho também era conhecido de Rogério Luz, autor do blog Crónicas Macaenses, a quem partilhou “saudades da Macau Antiga”.
Filho de pai português e mãe chinesa, Carlos Coelho cedo começou a interessar-se pela aprendizagem do dialecto, pelo qual era vítima de preconceito. Tanto a sua mãe como os seus professores consideravam que o Patuá constituía um “português mal falado”. Apesar disso, a sua avó materna, Maria Cecília Gracias, e alguns dos seus familiares falavam o idioma, tendo assim contacto frequente com ele.
A 13 de Outubro de 2006, por ocasião da assinatura do protocolo para promoção da candidatura do Patuá a Património Mundial Intangível, comandou uma peça em patuá, tendo sido considerado um “autêntico mestre no dialecto”.
Com S.F.



