Dos 1.265 reclusos do Estabelecimento Prisional de Macau, 273 estão a frequentar cursos do ensino primário e secundário recorrente, para além de que 283 já participaram em 16 cursos de formação profissional. Para os reclusos, é a esperança de uma vida melhor no mundo exterior, enquanto as famílias encaram os cursos como uma oportunidade para estarem ocupados. Paul Pun considera o trabalho “terapêutico” e nota que, após a saída da prisão, embora na sua maioria acabem por trabalhar em áreas em que não estudaram, já aprenderam sobre ética de trabalho e ganharam motivação, factores muito importantes no retorno ao mundo fora de quatro paredes

 

Liane Ferreira

 

Horas marcadas para refeições, para actividades físicas, para dormir. A vida na prisão é normalmente retratada com cruzes nos calendários e o lento passar dos ponteiros nos relógios. Para os 1.265 reclusos das alas masculina e feminina que se encontravam no final de Fevereiro no Estabelecimento Prisional de Macau, em Coloane, os Serviços Correccionais (DSC) estimulam a “introspecção de modo a adquirirem uma visão correcta sobre a vida em sociedade”, com aconselhamento profissional e ainda incentivam à participação em cursos do ensino escolar, de formação profissional e cursos profissionais com certificado, para “permitir aos reclusos o melhor aproveitamento do tempo”.

Dados fornecidos ao Jornal TRIBUNA DE MACAU indicam que no ano lectivo a decorrer 273 reclusos estão a participar em cursos do ensino primário e secundário geral recorrentes, 215 e 58 respectivamente.

Esse número total é muito superior ao registado no ano anterior, quando 115 pessoas participaram nessas aulas. Já em 2014/2015, 132 reclusos passaram pelos cursos de ensino recorrente, que são leccionados em conjunto com a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude.

Em termos de formação profissional, o Estabelecimento Prisional oferece 16 tipos de cursos nas áreas de artesanato, tipografia, padaria, pastelaria, obras de reparação e manutenção, obras de canalização e electricidade, serralharia, carpintaria, alfaiataria, cabeleireiro, cozinha, entre outros. Entre Janeiro e 31 de Março deste ano, 283 pessoas participaram nesses cursos, número semelhante a todo o ano de 2016 quando se registou a participação de 284. Nesta componente de formação, a participação dos presos é relativamente estável, pois em 2015 passaram 275 pessoas pela formação e em 2014 foram 253.

O leque de oferta de cursos de formação inclui ainda programas com certificação profissional, graças à colaboração com diferentes instituições de ensino locais, como por exemplo a Associação de Gestão de Macau, Instituto de Formação Turística, Associação de Bibliotecários e Gestores de Informações , Centro de Produção e Transferência de Tecnologia e Associação de Educação de Adultos. Assim, são oferecidos cursos de arte floral, cosmética e maquilhagem, empregada de mesa, bibliotecário, limpezas e ainda workshops sobre comércio a retalho, artes performativas e cursos de música ocidental.

De acordo com os dados, até 31 de Março deste ano ainda não tinham sido iniciados cursos, no entanto, nos realizados em 2016 participaram 121 pessoas, 148 em 2015 e 111 em 2014. Em 2012, o número de participantes nestes cursos certificados foi de 122.

Além destas actividades educacionais são ainda organizadas outras de carácter recreativo e cultural, relacionadas com o bem-estar físico e psíquico dos reclusos, como palestras sobre a prevenção do vício do jogo, vida saudável e sobre a “família harmoniosa”. Em 2016, as referidas actividades tiveram a participação de 1.616 reclusos e nos três primeiros meses deste ano contaram com 238 pessoas.

 

Famílias agradecem

Em entrevista ao jornal TRIBUNA DE MACAU, a assistente social Mak Si Wai, que trabalha na prisão de Coloane há três anos, explicou que a sua função é “dar assistência a todos os presos, homens e mulheres”, tentando ir ao fundo dos seus problemas.

“Temos entrevistas com os presos e com as famílias, algumas em separado, para tentar resolver alguns problemas entre eles ou ajudar a fazer algum pedido, porque muitos presos pedem-nos para escrever cartas de defesa de carácter para apresentar ao tribunal a dizer que mudaram ou que desde então nunca mais fizeram coisas más”, declarou, acrescentando que os assistentes sociais ajudam a elaborar os relatórios para os pedidos de liberdade condicional.

Segundo contou, apesar dos reclusos, independentemente do sexo apresentarem problemas semelhantes, as mulheres são normalmente mais faladoras e emotivas, enquanto os homens são mais directos, querem falar do problema e resolvê-lo rapidamente.

“Às vezes as famílias aceitam que eles estão aqui, mas mesmo assim procuram-nos para falar da situação e problemas deles. Nós encorajamos os presos a trabalhar e estudar. A família também quer que eles tenham alguma coisa para fazer enquanto estão aqui dentro, porque não querem que fiquem sem educação”, salientou a profissional.

Na sua experiência, são poucos os casos em que as famílias abandonam os reclusos, sendo que algumas situações estão relacionadas com famílias do Continente Chinês. Neste contexto, o contacto é mais difícil e é aqui que as assistentes tentam ajudar.

 

“Trabalho é terapêutico”

A Caritas é uma das instituições que apoia os reclusos quando saem da prisão. Para o secretário-geral, Paul Pun, o facto de terem aulas no interior ocupa-lhes a mente e dá-lhes esperança de voltar a uma vida normal quando saírem em liberdade.

“Ter aulas dentro da prisão é sempre bom, mesmo que quando saiam venham a fazer outra coisa, porque o trabalho é terapêutico”, declarou Paul Pun ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, acrescentando que os reclusos aprendem alguma coisa, ganham uma qualificação, “que antes nem sabiam que podiam ter”, ou seja conquistam mais confiança nas suas capacidades. “Aprendem, sabem como trabalhar com os outros, ouvir ordens, direcções e os procedimentos. Estes aspectos são comuns a todos os campos”, frisou.

Entre aqueles que saem da prisão e chegam ao centro de abrigo temporário da Cáritas, Paul Pun nota que os que tiveram aulas “têm motivação para trabalhar” e isso é importante para encontrar emprego e sair do abrigo.

“Quanto mais rapidamente começarem a trabalhar, mais depressa podem sair e melhor será a sua reintegração na sociedade. Quando não fazem nada ou não estudam, as melhorias na sua vida são muito lentas, é como se não tivessem futuro”, disse o secretário-geral da Caritas.

“O Governo investe na formação e quando saem vão fazer outra coisa, mas isto não quer dizer que é dinheiro perdido, mas sim que aprenderam uma função que podem desempenhar em casa ou para os amigos. É bom para as relações interpessoais e podem colocar no currículo que têm essa formação e o futuro patrão pode pensar que se ele aprendeu a ser padeiro, também pode fazer outras coisas”, salientou.

Actualmente, o centro de abrigo da Caritas recebe mais de 10 pessoas que ali podem permanecer por três meses e pedir uma extensão por igual período, mas normalmente não a obtêm para que possam trabalhar e integrar-se rapidamente na sociedade.

“Muitas pessoas que ficam que no nosso centro não têm o apoio familiar, por isso ficam lá e têm de viver sozinhos. Alguns não querem, nem tentam trabalhar e dependem dos serviços, mas a maioria quer e pede. A maioria trabalha e às vezes regressa para partilhar a experiência com o nosso pessoal e outras pessoas. Isto pode servir de incentivo para outros, para procurar trabalho”, afirmou Paul Pun.

Actualmente, o Instituto de Acção Social, em colaboração com o Estabelecimento Prisional e empresas particulares, oferece um programa de emprego, prévio à saída em liberdade condicional dos presos. Basicamente, é feito o recrutamento para um emprego ainda dentro do estabelecimento, para que logo após a saída haja uma “ligação sem emendas” entre os dois mundos.

Para além disso, são realizadas palestras para os reclusos na fase final do cumprimento da pena para conhecerem os serviços de apoio existentes e reforçar a preparação para a retoma da vida em sociedade.