A Direcção dos Serviços de Ensino Superior (DSES) recebeu 13 consultas de informação por parte de estudantes de Macau no exterior que apontaram problemas como carência de materiais para a prevenção da epidemia e discriminação por parte dos cidadãos dos locais onde se encontram. A questão da discriminação já motivou pelo menos quatro queixas formais de alunos que estão em Portugal e no Reino Unido. Embora não figure na lista dos queixosos registados pela DSES, Cristiano Xie, que estuda em Londres, diz ter sido chamado de “corona” muitas vezes e garante que, depois de tudo o que tem passado, já não quer ficar na capital inglesa após terminar os estudos

 

Inês Almeida e Rima Cui

 

Até quarta-feira, a Direcção dos Serviços do Ensino Superior (DSES) recebeu 13 consultas de informações feitas por estudantes universitários de Macau que frequentam instituições de ensino no exterior. “Estes estudantes estão a frequentar cursos em Portugal (cinco pessoas), Reino Unido (duas pessoas), Estados Unidos (duas), Itália (duas), França (uma) e outro na Coreia do Sul”, indicou o organismo numa resposta ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Os alunos “apontaram problemas de carência de produtos de apoio à prevenção da epidemia, de discriminação por parte de pessoas nos locais onde estudam e sobre situações envolvendo questões de migração”. “Além disso, mostraram receios referentes às medidas no caso de ficarem infectados no local onde estão a estudar”, acrescentou.

Estes jovens que decidiram contactar a DSES esperam que o Executivo da RAEM lance medidas de apoio para zelar pelos alunos que estão a estudar no exterior, bem como proporcione recursos para os ajudar na prevenção da epidemia.

Para além disso, apontou o organismo, ainda não foram recebidos quaisquer pedidos de ajuda de estudantes universitários de Macau que estudam em Portugal ou no Japão no sentido de passarem a frequentar cursos em alguma das instituições de ensino superior do território.

No que à questão da discriminação diz respeito, a DSES sublinhou que até quarta-feira já tinha recebido quatro queixas de alunos que apontavam situações que aconteceram nos locais onde estudavam, em particular, em Portugal e no Reino Unido.

 

“Chamam-me ‘coronavirusman’”

Cristiano Xie não foi um dos jovens que apresentou queixa junto da DSES, porém, retrata ao Jornal TRIBUNA DE MACAU vários episódios de discriminação de que tem sido alvo.

“As pessoas chamam-me ‘coronavirusman’, como se fosse um super-herói e chamam-me ‘corona’ muitas vezes. Também cobrem a boca e o nariz quando passam por mim”, descreveu o jovem que estuda em Londres, em declarações a este jornal.

A primeira vez que foi alvo de comentários deste género corria o dia 22 de Fevereiro, na véspera de o Reino Unido confirmar quatro casos novos, todos que tinham estado no cruzeiro “Diamond Princess”, subindo a contagem total para 13.

“Acho que foi quando a situação em Itália e no Irão piorou”, indicou Cristiano Xie. De facto, a 23 de Fevereiro, o Irão confirmou 15 novos casos e mais duas mortes, subindo o total para 43 e oito, respectivamente. Em Itália foram confirmados 73 novos casos de contágio, elevando para 152 o número de casos confirmados. Também foi anunciada a terceira morte e a Itália tornou-se no terceiro país com mais casos, atrás da China e da Coreia do Sul. Actualmente o cenário é diferente: Itália ocupa o segundo lugar da lista e o Irão o terceiro.

“Infelizmente, acho que esse sentimento anti-chinês vai continuar por muito tempo. Vou ter mais cuidado quando for para Itália no futuro, por exemplo, porque imagino que as pessoas vão dizer coisas horríveis a pessoas com feições asiáticas”, lamentou o jovem, garantindo que não é apenas ele que se sente assim. “Muitos asiáticos em Londres são alvo de situações semelhantes no Metro. Ouvi dizer que as pessoas olham dos pés à cabeça para uma pessoa asiática. Sobretudo se tiver tosse, todas as pessoas vão ficar a olhar para ele ou ela, como tivesse COVID-19”.

Pouco depois, no dia 24 de Fevereiro, Jonathan Mok, um estudante de 23 anos oriundo de Singapura, foi atacado quando caminhava numa rua de Londres pelas 21:15. Dois jovens, de 15 e 16 anos, terão gritado “não queremos o teu coronavírus no nosso país” e quando Mok os confrontou devido a esses comentários, atacaram-no.

Esta situação deixou Cristiano Xie “com muito medo”. “Depois de ler essa notícia [da agressão], imaginei que também eu podia ser agredido dessa forma. Tentei contar isso a um amigo meu, que é inglês, mas ele disse que a culpa era dos chineses porque comiam animais selvagens e causaram esta desgraça mundial”.

O jovem disse ter procurado sobretudo alguma empatia por parte do amigo, porém, acabou por descobrir que “ele é muito racista ao dizer isso, porque ninguém quer estar doente”. Questionado sobre como reage a estes comentários do amigo, Cristiano Xie diz que prefere não dizer nada porque quem faz este tipo de afirmações quer apenas “desafiar”. “Acho que é melhor não reagir por uma questão de segurança”, frisou.

Perante este cenário, o jovem oriundo da Província de Hunan que estudou na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau entre 2013 e 2017 diz que irá fazer “menos viagens na Europa ou para qualquer outro lugar devido à possibilidade de ser agredido”.

Em Londres, onde estuda e vive neste momento, diz já ter contactado as autoridades policiais para denunciar as situações de discriminação de que tem sido vítima. “Já liguei [à polícia]. Vieram a minha casa e eu contei tudo porque aqui os crimes de ódio são punidos. Sei que é difícil encontrar essas pessoas [responsáveis], mas posso chamar a atenção da polícia para prevenir futuros incidentes”, defendeu o jovem.

Na altura em que denunciou essas situações à polícia, os agentes disseram-lhe apenas que “quando esses incidentes acontecem, é melhor não confrontar [as pessoas responsáveis] e dizer à polícia”.

Atendendo a esse cenário, impõe-se uma questão: vai continuar em Londres? Cristiano Xie tem já uma ideia clara. Por agora, ficará. “Estou a estudar aqui, mas acho que depois disto, não vou ficar para sempre”, garantiu.