Numa análise às Linhas de Acção Governativa para 2024, especialistas manifestaram-se esperançosos quanto à economia no próximo ano, mas há outros assuntos que suscitam preocupações. São os casos dos “desafios” enfrentados pelos jovens e os apoios aos idosos
Em reacção às Linhas de Acção Governativa (LAG), especialistas mostraram-se confiantes no ano de 2024, no que respeita ao desenvolvimento da economia, mas há aspectos que não deixam de preocupar, como são os casos dos “desafios” enfrentados pelos jovens e os apoios aos idosos.
Samuel Tong, presidente do Instituto de Gestão de Macau, salientou que a RAEM recuperou cerca de 70% do nível pré-pandemia em meados deste ano e está confiante de que as taxas de desemprego e subemprego poderão diminuir ainda mais no próximo ano, de acordo com a tendência actual.
O economista acredita que a subida dos salários dos funcionários públicos a partir de Janeiro do próximo ano, “seguida de aumentos salariais nas empresas com capacidade, irá aumentar o poder de compra da região e reforçar a confiança social, o que, por sua vez, beneficiará as pequenas e médias empresas (PME)”. Na sua opinião, um melhor planeamento urbano e uma melhor acessibilidade a todas as zonas ajudariam a melhorar o ambiente empresarial. “As PME poderão melhorar a sua capacidade comercial em resposta às mudanças nos padrões de consumo e de viajantes”, afirmou ao “Ou Mun Tin Toi”.
Já Ip Kuai Peng, director do Centro de Investigação para o Desenvolvimento Social e Económico de Macau da Universidade Cidade de Macau, considera “razoável” que o Governo seja “prudente” na gestão financeira. “Apesar de não haver cartões de consumo no próximo ano, vai ajudar as PME a resolver os seus problemas”. Na sua visão, o mais importante é “revitalizar o ambiente empresarial na comunidade”.
Num seminário organizado pelo Centro de Estudos de Macau da Universidade de Macau (UM), Samuel Tong sugeriu ainda que se “evite a infiltração de elementos do jogo na revitalização das zonas antigas” e que se tire “o máximo partido” de Hong Kong para atrair turistas internacionais.
Wong Seng Fat, professor associado da Faculdade de Ciências e Tecnologias da UM, defendeu que as autoridades devem “acelerar” a construção da quinta ponte Macau-Taipa, para “ajudar a resolver os problemas trazidos pelo desenvolvimento urbano”.
Por sua vez, Kuan Fung, professor assistente da Faculdade de Ciências Sociais da UM, considera que as LAG transmitem uma “mensagem de luta pelo progresso, assegurando simultaneamente a estabilidade”. A estabilidade, na sua visão, está relacionada com a salvaguarda dos meios de subsistência das pessoas através de apoio social, políticas de habitação e apoio às PME, “com ênfase na consolidação dos resultados da recuperação económica pós-pandemia, dando assim à sociedade maior confiança para avançar no próximo ano”.
Já o “progresso” diz respeito à diversificação do desenvolvimento económico. O académico salientou ainda que, além de um maior foco nas indústrias emergentes, “a abordagem política também envolve o aprofundamento da compreensão e da participação da comunidade na diversificação, entre as quais a exploração de medidas para atrair turistas internacionais parece ser um caminho de desenvolvimento relativamente simples a curto prazo em 2024”.
Lei Chun Kwok, professor associado da Faculdade de Gestão de Empresas da UM, está preocupado com as políticas macroeconómicas. Segundo disse, as políticas relativas aos recursos de terras, recursos humanos, atracção de investimento e indústrias diversificadas “estão a ser implementadas de forma ordenada e em conformidade com as estratégias nacionais”. Quanto à atracção de turistas, a tónica será colocada na expansão das fontes de turismo internacional.
Neste âmbito, Lei Chun Kwok salientou que a recuperação do mercado turístico do Nordeste Asiático, que tem um poder de compra mais elevado, ainda é relativamente lenta após a pandemia, devendo o Governo “prestar atenção à situação do mercado em causa”. Além disso, no actual contexto de taxas de juro elevadas, o elevado custo dos empréstimos poderá ter impacto no mercado obrigacionista de Macau.
Os “desafios” dos jovens
Por seu turno, Paul Pun mostrou-se apreensivo com o desenvolvimento global e o bem-estar dos jovens. “Devido à responsabilidade futura de cuidar dos idosos, a habitação económica pode não ser a opção preferida dos jovens”, defendeu. Para já, o Chefe do Executivo indicou que a habitação intermédia fica “suspensa”, porque, segundo disse, não é uma “necessidade premente”.
Além disso, “a localização do Novo Bairro de Macau em Hengqin e a concorrência de talentos de fora são fontes de preocupação para os jovens”, observou Paul Pun. Neste sentido, sugeriu que o Governo “preste mais atenção aos desafios que enfrentam”. Numa nota positiva, o secretário-geral da Caritas salientou que a decisão do Executivo de incluir permanentemente um subsídio para os cuidadores é “benéfica” para o sector dos serviços sociais.
Sou Kuai Long, por sua vez, reconheceu o enfoque do Governo na saúde mental dos residentes, uma vez que, os dados mostram que, apesar do fim da pandemia, “a tendência para o suicídio não diminuiu e a felicidade e a satisfação com a vida dos jovens de Macau continuam abaixo da média”. “Estes dados indicam que as pessoas continuam a sofrer um stress significativo”, sublinhou. O académico manifestou assim esperança de que as políticas relacionadas com esta matéria possam ser “melhoradas e implementadas” para responder a estas preocupações.
O docente considera ainda que a revisão do sistema educativo “constitui uma oportunidade” para incluir no currículo conteúdos relacionados com a tecnologia e o bem-estar psicológico dos jovens. “Por exemplo, o Governo pode melhorar o ensino profissional e técnico para melhorar a percepção dos ‘trabalhadores técnicos’ entre o público em geral, de modo a encorajar mais jovens a considerar a possibilidade de seguir carreiras nestes domínios”, defendeu Sou Kuai Long.
Por outro lado, Chan Kin Sun, professor assistente na mesma Faculdade, salientou que, para além das medidas universais, específicas e suplementares de segurança social, o Governo pode introduzir medidas de segurança social mais orientadas para o mercado. “Exemplos de tais medidas incluem o projecto de Residência para Idosos recentemente introduzido, bem como produtos financeiros adaptados aos idosos, como as hipotecas inversas”, disse, acrescentando que é também necessário “alinhar o projecto de habitação para idosos com as políticas de renovação urbana”.
Revitalização dos bairros com aspectos positivos e negativos
Outro dos temas abordados no seminário organizado pela UM foi a revitalização dos bairros antigos pelas operadoras de jogo, um plano que, para Lei Chin Pang, professor assistente da Faculdade de Ciências Sociais da UM, tem “vantagens e desvantagens”. “Do lado positivo, as operadoras de jogo demonstram eficiência e proactividade. No entanto, há também inconvenientes, como a falta de uma compreensão clara da cultura local e de uma plataforma eficaz para comunicar com o público”, sublinhou. Além disso, alertou que uma “ênfase excessiva” nos elementos comerciais nestes projectos de revitalização “pode ter um impacto negativo na vida das pessoas e no tráfego da cidade”.
No que diz respeito à indústria do entretenimento, Lei Chin Pang considera que, na última década, Macau tem vindo a “desenvolver com sucesso pessoas talentosas, que também alcançaram bons resultados fora de Macau”. Por isso, a política de criação de uma “Cidade das Artes e do Espectáculo” pode centrar-se no estabelecimento de mercados para atrair estas pessoas a desenvolverem-se no território.
Sobre a “Cidade dos Espectáculos”, So Siu Ian, professora associada na Faculdade de Gestão de Empresas, afirmou que “Macau tem uma vantagem em termos de locais e instalações, mas é necessário realizar a segmentação do mercado e equilibrar o desenvolvimento de pessoal na indústria, de modo a beneficiar o mercado local com oportunidades internacionais”.
C.P.



