Desde a passagem do super tufão “Hato”, a resposta das autoridades de Macau a eventos meteorológicos extremos melhorou significativamente, segundo um estudo de dois investigadores do Instituto de Ciência de Tóquio. Hiroshi Takagi e Yuzhe Zhao consideram que a RAEM se tornou mais resiliente, devido em grande medida a um investimento contínuo em mecanismos de alertas antecipados e uma melhor comunicação por parte dos serviços governamentais. O exemplo de Macau poderá inclusive servir de modelo para outras cidades costeiras com riscos de tufões semelhantes, defendem os autores da investigação

 

PEDRO MILHEIRÃO

A resposta das autoridades de Macau a eventos meteorológicos extremos, como tufões ou episódios de “storm surge” melhorou significativamente desde a passagem do “Hato”, em 2017. Segundo um estudo de Hiroshi Takagi e Yuzhe Zhao, investigadores da Escola de Ambiente e Sociedade do Instituto de Ciência de Tóquio, a RAEM tornou-se mais resiliente nos últimos anos, sobretudo graças a um investimento contínuo em sistemas de alerta precoce e a uma melhor comunicação e campanha de sensibilização por parte do Governo, que resultaram numa maior consciencialização da população.

Por outro lado, os investigadores reconhecem que “Macau ainda não é plenamente resiliente a futuros tufões. Um impacto directo de uma tempestade muito forte como o tufão ‘Ragasa’ teria provavelmente causado danos muito maiores, sublinhando a necessidade de melhorias contínuas”. “Soluções híbridas e medidas adaptativas incrementais serão essenciais para lidar com tufões mais fortes e sustentar a resiliência costeira a longo prazo numa cidade que concentra uma das maiores riquezas do mundo e que está directamente exposta ao oceano aberto”, reforçam os autores.

Para o estudo “Respostas às marés de tempestade em Macau: alertas precoces e adaptação gradual”, Hiroshi e Yuhze entrevistaram 28 residentes com idades compreendidas entre os 20 e os 60 anos, sendo que a maioria habitava na zona do Porto Interior, uma das áreas mais vulneráveis da cidade. Os investigadores procuraram saber qual foi a percepção dos inquiridos relativamente ao impacto dos tufões “Hato”, “Mangkhut” e “Ragasa” e à melhoria das medidas preventivas das autoridades ao longo dos anos, bem como os comportamentos de evacuação de cada um dos entrevistados.

Em Agosto de 2017, o tufão “Hato” foi uma das tempestades mais fortes a afectar o Delta do Rio das Pérolas, tendo produzido cerca de três metros de inundação, o nível mais elevado registado desde 1925. Inclusive, a velocidade de deslocação do “Hato” foi aproximadamente de 32,5 quilómetros por hora, “invulgarmente rápida em comparação com outros tufões de intensidade semelhante”, segundo a equipa de investigação, o que complicou os esforços de previsão e reduziu o tempo de antecedência dos avisos.

Na altura, metade da cidade perdeu acesso a água e electricidade, tendo os transportes públicos e múltiplos negócios suspendido operações. Além disso, os casinos sofreram cortes de energia e inundações, que resultaram nas “maiores perdas económicas algumas vez registadas em Macau”, até à data, de acordo com Hiroshi Takagi e Yuzhe Zhao. Mais de duas centenas de pessoas ficaram feridas e 10 morreram.

A insatisfação da população com a resposta do Governo acabou por levar Fong Soi Kun a pedir a demissão do seu cargo como director dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG). No entanto, Hiroshi Takagi e Yuzhe Zhao defendem que as críticas ao responsáveis não foram “necessariamente justificadas”. Para além de uma “velocidade de aproximação significativamente mais elevada”, a chegada do “Hato” coincidiu com o picado da maré astronómica.

Cerca de um ano depois da passagem do “Hato”, em Setembro de 2018, o tufão “Mangkhut” provocou inundações nas zonas centrais. Apesar do nível máximo de água ter sido inferior ao causado pelo “Hato”, a área de inundação foi mais extensa. Porém, as autoridades actuaram “de forma mais rápida e decisiva”, segundo os inquiridos, ao mesmo tempo que as perdas económicas foram inferiores a um décimo daquelas registadas um ano antes, o que resultou numa percepção pública mais favorável relativamente à actuação do Governo.

Em Setembro do ano passado, o tufão “Ragasa” inundou as zonas centrais, com mais de um metro de água, e obrigou as autoridades a interromper o fornecimento de electricidade nas zonas mais baixas, como medida preventiva, após a emissão do sinal vermelho. O sinal nº 10 vigorou durante 10,5 horas, uma duração recorde.

“A rápida intensificação do tufão, a coincidência com o pico da maré astronómica e os atrasos nos avisos explicam provavelmente por que razão uma esmagadora maioria dos inquiridos (85,7%) identificou o ‘Hato’ como o mais forte dos três tufões”, indicam os resultados do inquérito. “Embora o ‘Hato’ tenha sido o mais fraco, passou mais próximo de Macau, originando os ventos mais fortes e a maré de tempestade mais significativa”, refere o estudo.

No que diz respeito às trajectórias e intensidade, o tufão “Ragasa” deslocou-se sobre o mar a sul de Macau e não atingiu directamente a cidade, embora tenha sido consideravelmente mais forte do que o “Hato” e “Mangkhut”, explicam os autores.

 

A importância dos alertas antecipados

Segundo a dupla de investigadores, “apesar de o tufão “Ragasa” poder ter sido o mais intenso dos três e de ter provocado inundações na zona do Porto Interior, os inquiridos consideraram-no menos severo, reflectindo provavelmente uma melhor preparação e a emissão atempada de avisos”.

“Um maior tempo de antecedência é desejável, pois proporciona mais tempo para a evacuação. Em particular, o sinal nº 8 desempenha um papel crítico na tomada de decisão dos residentes. Contudo, durante o tufão ‘Hato’, o intervalo até ao sinal nº 10 foi de apenas 2,5 horas. Em contraste, esse intervalo foi muito mais alargado durante os tufões ‘Mangkhut’ e ‘Ragasa’, atingindo 9 horas e 12,5 horas, respectivamente”, pode ler-se.

“Relativamente à comparação da resposta governamental durante o tufão ‘Ragasa’ com a dos tufões ‘Hato’ e ‘Mangkhut’, cerca de dois terços dos inquiridos responderam que esta melhorou significativamente”, refere o estudo, que foi publicado na revista “International Journal of Disaster Risk Reduction”.

Em suma, “a alteração mais significativa nas respostas administrativas de Macau desde o tufão ‘Hato’ em 2017 é a emissão mais precoce dos sinais de tufão e a adopção de uma abordagem mais preventiva por parte do Governo, incentivando a evacuação dos residentes”, observam os autores. Ao mesmo tempo, “a avaliação positiva dos residentes relativamente à resposta ao tufão ‘Ragasa’ reforça a importância da emissão antecipada de avisos como princípio fundamental da gestão do risco”, segundo Hiroshi Takagi e Yuzhe Zhao.

Entre os inquiridos, mais de 80% afirmaram ter adoptado “alguma forma de evacuação após o sinal nº 1”, relativamente à passagem do “Ragasa”. De acordo com os resultados do inquérito, os residentes abrigaram-se nas suas próprias habitações, nos andares superiores dos edifícios ou nas casas dos vizinhos. Contudo, nenhum dos inquiridos referiu ter recorrido a qualquer um dos 17 abrigos designados pelas autoridades.

Dos entrevistados, 60% afirmaram ter sido motivados principalmente pelas instruções de evacuação do Governo, difundidas pela televisão e pela rádio, enquanto 16% basearam as suas decisões nos sinais de tufão emitidos pelos SMG. Para os investigadores, o facto de 76% dos inquiridos basear as suas decisões nas instruções de serviços oficiais é demonstrativo de “um elevado grau de dependência” da população em relação às autoridades.

Em defesa das autoridades, os dois especialistas esclarecem que “a formação de marés de tempestade significativas depende não apenas de factores meteorológicos, como pressão atmosférica, velocidade do vento e dimensão da tempestade, mas também de factores topográficos e geográficos, incluindo o local de impacto, a velocidade de aproximação, a geometria costeira e a profundidade do fundo marinho. Estes factores tornam a previsão particularmente complexa”, sublinham.

Além disso, “como as ‘storm surges’ e as marés astronómicas ocorrem de forma independente, a previsão do seu efeito combinado, a chamada ‘maré de tempestade’, é ainda mais difícil”, observam os autores. “Os avisos devem ser emitidos com antecedência suficiente, considerando as incertezas meteorológicas, geográficas e de modelação”, sugerem.

Por outro lado, “os falsos alarmes podem desencadear o chamado efeito ‘Pedro e o Lobo’, reduzindo a percepção de risco”, advertem os investigadores. Contudo, a ocorrência de tufões, especialmente aqueles capazes de provocar marés de tempestade mortais, é menos frequente do que outros fenómenos meteorológicos, ressalvam.

O Governo da RAEM também passou a instalar postes de aviso codificados por cores, em cinco níveis, nomeadamente em azul, amarelo, laranja, vermelho e preto, em função da altura da inundação e com informações explicativas em chinês e português. Os postes também incluem altifalantes para a difusão de mensagens de alerta. No entanto, tendo em conta que Macau é uma cidade turística internacional, os investigadores sugerem que seria vantajoso que os postes incluíssem informações em inglês.

 

Implementação de medidas “soft”

Para além de uma melhoria no sistema de avisos e da emissão mais rápida de instruções de evacuação, os inquiridos destacaram a aplicação de medidas como a instalação de bombas de drenagem para remover água das áreas inundadas, a utilização de comportas portáteis, as patrulhas, a proibição de permanecer em zonas comerciais e a rápida limpeza da cidade após a passagem do “Ragasa”.

“Segundo um funcionário de uma loja, graças à instalação de uma comporta contra inundações e de uma bomba de drenagem, o estabelecimento conseguiu minimizar os danos durante o tufão “Ragasa”, ao passo que outras lojas próximas, sem essas medidas, sofreram inundações”, refere o estudo.

Para os autores, “estas medidas são relativamente pouco dispendiosas e altamente eficazes, sendo expectável a sua adopção por um número crescente de agregados. Contudo, por se tratar de soluções essencialmente privadas, implicam custos para os utilizadores, que devem também verificar o seu desempenho”.

A presença de mangais nos aterros também permite reduzir a necessidade de estruturas de protecção mais elevadas, constituindo um exemplo de soluções naturais ou híbridas de protecção costeira, defendem Hiroshi Takagi e Yuzhe Zhao. “Dado que estas zonas são terrenos conquistados ao mar e sujeitos a subsidência, o que aumenta o risco de marés de tempestade, a expansão dos mangais poderá contribuir para mitigar esses impactos”, explicam.

Contudo, “como os mangais são ainda jovens e pouco densos, não se espera que tenham, por agora, uma capacidade significativa de redução das marés de tempestade, embora contribuam para a criação de habitats costeiros. Apesar de não terem sido referidos pelos residentes como medida prioritária, são considerados uma solução promissora”, ressalva o grupo de investigação.

“Embora Macau tenha sofrido danos em três tufões recentes, os impactos foram sobretudo económicos, com perdas humanas limitadas. Este resultado pode ser atribuído à eficácia das medidas centradas na evacuação, combinadas com elevados padrões de infra-estrutura urbana, incluindo a habitação”, resumem os autores.

“O facto de as medidas adoptadas em Macau após os eventos de ‘storm surge’ se centrarem sobretudo em soluções não-estruturais (‘soft’) constitui um exemplo relevante para outras cidades costeiras”, argumentam. Esta abordagem contrasta com regiões como o Japão ou os Países Baixos, onde predominam abordagens baseadas em infra-estruturas pesadas”, concluem Hiroshi Takagi e Yuzhe Zhao.