As marcas da história e do multiculturalismo podem assumir diferentes formas. O Fórum Cultural entre a China e os Países de Língua Portuguesa contou ontem com intervenções que procuraram demonstrar a importância não só da preservação do património material, como também do imaterial

 

Salomé Fernandes

 

A preservação do património cultural esteve ontem em destaque no Fórum Cultural entre a China e os Países de Língua Portuguesa, numa sessão que mostrou que Macau desenvolveu essa área antes de Hong Kong, embora ambas as regiões valorizem actualmente o seu percurso histórico.

“Quando falamos da cultura de Hong Kong precisamos de olhar para o Rio das Pérolas porque é nele que vemos desenvolver esta migração de pessoas e de ideias. Isto também se relaciona com Macau. Como foi ocupada por mais de 400 anos há um conhecimento que foi transmitido para Hong Kong e para a China através de Macau”, disse Liu Tik-sang, professor associado da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong.

O docente participou no evento com a intervenção intitulada “relevância local da diversidade cultural: estudo de caso de preservação do património cultural intangível em Hong Kong”. Liu Tik-sang descreveu como a tomada do território por parte dos britânicos o separou da China Continental, tendo o império britânico investido no desenvolvimento da produção em Hong Kong, que se veio a tornar um porto seguro fora da Europa em momentos de conflitos, nomeadamente da Índia, promovendo a migração.

“Com o desenvolvimento de Hong Kong, talvez mais rápido, as pessoas viam Hong Kong como mais importante. Mas a verdade é que se olharmos para a transição de ideias, podemos perceber que Macau teve um papel mais importante nesta dispersão de ideias”, reconheceu o professor. A dificuldade de preservação cultural na região vizinha deveu-se a um grande desenvolvimento industrial nos anos 70 que levou à queda das pequenas cidades, aldeias e profissões tradicionais como os pescadores.

Mas Liu Tik-sang atribui também responsabilidade da desvalorização do património imaterial a “pessoas com conhecimento, intelectuais, estudiosos”, que considera estarem habitualmente contra as tradições. “As pessoas chinesas pensam muitas vezes que o seu país precisa de se desenvolver a todo o custo e avançar. E vêem nas tradições e nos costumes um atraso, uma forma não democrática, não científica e por isso querem abandonar todos os festivais, superstições, rituais mais tradicionais”, lamentou. Uma forma de pensar agravada pelas religiões e escolas ocidentais, indicou.

Foi em 2003 que a UNESCO criou a primeira convenção para protecção do património imaterial. Em 2009, a ópera cantonense foi aceite na lista do património mundial e em 2015, criou-se um departamento específico para o património intangível, o qual prepara as novas candidaturas ao estatuto. Mas o património intangível é um conceito abrangente.

“Temos as artes dramáticas, os vários dialectos, que são importantes porque têm a ver com a vida das pessoas. Também a nível das actividades mais tradicionais, as capacidades e habilidades que têm para levar a cabo as actividades tradicionais, e as práticas correntes dessas comunidades”, disse o professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong.

De entre a diversidade de costumes, é necessário tomar decisões. A dança do dragão de fogo, perto de Causeway Bay, tornou-se uma das prioridades. Para além do dragão formado por pivetes, cujo intuito é afastar os maus espíritos, existem bandas de gaita de foles a tocar, mostrando a mistura de tradições chinesas e inglesas.

“Como é que todos estes costumes podem ser listados como património intangível? Temos de dar crédito às associações locais, porque podem fornecer documentos para se apresentar a candidatura à UNESCO”, afirmou Liu Tik-sang. Assim, manter uma cultura de proximidade às comunidades ajuda a preservar estas actividades e a preservar a identidade local. “Percebemos que a história é um factor de atracção de turismo e é necessário preservar esta parte de Hong Kong para a vida das pessoas e a economia”.

 

Classificação de património é apenas o princípio

Maria José de Freitas deu maior enfoque a Macau, e aos cinco séculos de convivência cultural que se reflectem no património da região, tanto material como imaterial. Mas para a arquitecta, é necessário que “as pessoas se consciencializem que um bem ser classificado não é um fim em si mesmo, é um princípio”. A importância da classificação advém, assim, da “dupla atenção” que recai sobre o bem, bem como a avaliação sucessiva para verificar até que ponto corresponde às expectativas.

Esta necessidade tornou-se evidente para o Governo à medida que os casinos foram trazendo muitas pessoas novas a Macau, com novas necessidades, e uma congestão de um território que tem uma área limitada. “Vemos que há um crescendo e uma pressão muito grande sobre a cidade antiga e se destrua e se construa em altura porque a terra é um bem escasso”, disse.

As leis criadas servem um propósito cultural, mas também económico. “Adivinha-se que a cidade vá crescer, com novos aterros. E temos a nova ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau. Tudo isto põe em evidência uma nova realidade onde Macau quer manter diferença em relação a outras cidades, como as do ‘PRD Mega City Project’. Se Macau quer manter competitividade em relação a estas cidades, que têm quatro milhões de habitantes, tem de apresentar diferenciação. E a sua diferenciação é este património que vem de trás e que queremos passar em condições às gerações futuras”, frisou Maria José de Freitas.

A arquitecta salientou também que desde 2005 a população passou a ter “uma atitude mais responsável e criteriosa em relação ao património que herdou e com qual se identifica e quer preservar para o futuro”. Para os 22 monumentos classificados no Centro Histórico, o objectivo é manter um percurso onde não sejam asfixiados pela pressão urbana, permitindo que possam ser vistos, e que de lá se possa avistar a envolvente. “É um património do qual os cidadãos de Macau se sentem orgulhosos”, garantiu.

Um dos exemplos é o Teatro D. Pedro V, o primeiro teatro ocidental nesta zona, cuja estrutura foi corroída pela formiga branca em 1993. Foi a própria Maria José de Freitas a ser convidada para desenvolver o projecto de restauro, durante o qual descobriu elementos novos, como tectos falsos a esconder vãos de janela ocultos.

“Quando fazemos uma investigação cuidadosa podemos descobrir situações que podem alterar e reverter os parâmetros arquitectónicos que vêm de seguida”, referiu. Do projecto resultou o edifício hoje erguido, com elementos antigos a conviverem com outros novos, como um fosso de orquestra. E onde é possível o material unir-se ao imaterial, como sucedeu quando o local foi palco de uma actuação do grupo Dóci Papiaçám di Macau. “Isto denota um património intangível que conta com o património tangível para ganhar a sua expressão”, notou.