Fotografia de Chu Kimpo tirada nos anos 70
Fotografia de Chu Kimpo tirada nos anos 70

O website “1844” ganhou um espaço físico, no coração de Macau antigo, tal como as fotografias que guarda online. O “1844 Macau Photography Art Space” vai ser inaugurado com a exposição de 28 fotografias a preto e branco de quatro artistas locais, retratando e pensando o passado do território, mas olhando também para o futuro

 

Liane Ferreira

 

No início, era um repositório virtual de fotografias antigas do território. Agora, o website “1844macau” vai passar para o mundo real com a abertura do “1844 Macau Photography Art Space”. O lançamento físico da iniciativa será acompanhado pela exposição “O passado é o futuro – fotografias a preto e branco de Macau Antigo”.

Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, Ben Ieong Man Pan, um dos criadores da página de internet, começa por explicar que o site nasceu naturalmente. “Via que havia muitos fotógrafos de gerações anteriores, mas as suas colecções eram privadas e só eles podiam ver as fotografias. Por isso, pensei que devíamos mostrar as fotografias a outras pessoas”, disse.

A partir desta simples ideia, começou a trabalhar no “website” e, depois deste, com a galeria. Yoyo Wong e Kim Chan fazem também parte da iniciativa.

Actualmente, o “site” conta com 4.000 fotografias de cerca de 500 fotógrafos, incluindo 30 a 40 profissionais, abrangendo um período compreendido entre a década de 60 e 2010.

Yoyo e Ben Ieong, criadores do espaço de arte

A exposição inaugural integra 28 fotografias, umas já disponíveis online e outras que irão ser mostradas pela primeira vez.

Yoyo explicou que a maior parte das imagens exigiu muito trabalho de restauração digital, o que por vezes pode alterar um pouco o original, como é o caso de alguns exemplares da década de 60. Para além disso, como as fotografias eram captadas em modo analógico, por vezes nem o próprio autor tinha a certeza da data em que foram tiradas, pois revelavam tudo de uma vez.

Sobre a recolha de imagens, Ben explica que “as pessoas em Macau aceitam as coisas novas a uma velocidade mais lenta”. “Quando sugeri expor as fotos, os autores acharam que era uma coisa totalmente nova. Tive de me encontrar com alguns deles três e quatro vezes para ter o rolo das fotografias”, avançou, salientando que, como não o conheciam, era preciso criar uma ligação de confiança para depois nascer a ideia de colaboração.

“De cada vez que nos encontrávamos, levava um género de contrato com os itens e rolos que iria trazer deles”, contou.

As fotografias são trabalhadas e imprimidas no primeiro andar da galeria, na Rua do Infante, um local que não foi escolhido ao acaso por Ben e Kim. “Gostamos do ambiente antigo, da arquitectura tradicional chinesa e também dos restaurantes e cafés com ‘snacks’ tradicionais”, que se calhar já não se encontram em cafés mais modernos”, referiu Ben.

“Muitos jovens têm interesse em fotografia e esta rua possui uma atmosfera do passado muito forte. A localização da galeria condiz perfeitamente com as características da mostra e a intenção do website”, destacou.

Portas do Cerco, em 1987 (Wong Sang)

A aspiração dos curadores da exposição “é construir uma relação entre a história e a sociedade moderna, através da fotografia, para enfatizar e ao mesmo tempo criar um rastro histórico da relação entre a fotografia e o seu contexto cultural e local histórico”. Pretende-se assim, mostrar como se pode promover o significado da fotografia no desenvolvimento da cultura local.

“Achamos que, olhando para o passado, podemos fazer uma introspecção, pensar no que correu mal e no que podemos melhorar. Repensar através das fotografias. Limpar estas peças dos resquícios do passado e colá-las, mostrando às pessoas como era,  mas também permitindo que se pense num futuro melhor”, frisou Yoyo.

Assim, entre 15 de Março e 15 de Abril, no espaço de arte 1844, vai estar patente a exposição “O passado é o futuro” com obras de Chu Kimpo, Chan Wenghon, Chan Hinio, Wong Sang e Vong Sekkuan. “Embora não sejam muitas fotografias, queríamos cobrir eventos significativos como a vida da população vietnamita nos barcos e as Portas do Cerco”, disse Yoyo.

 

Indústrias renascem mais profissionais

Para os empreendedores artistas, Yoyo e Ben, as indústrias criativas estão a desenvolver-se, “mas como ainda se encontram nesse caminho de crescimento há sempre espaço para melhorias”. Esta realidade significa que, por um lado, lhes permitiu desenvolver o projecto que tinham em mente.

“Esperamos que no futuro haja outros tipos de projectos  artísticos. A economia está boa e o Governo deve encorajar os jovens a apostar nesse caminho. Nos últimos anos, tem havido mais oportunidades e mais financiamento”, afirmou Ben.

Destacando que Macau é muito especial por causa do seu multiculturalismo, Ben que também é fotógrafo, nota que existem talentos graduados dentro e fora do território, por isso, ainda há muito desenvolvimento pela frente.

“Com recursos e oportunidades as pessoas vão fazer o que desejam e de forma profissional, porque é o que gostam. As industrias tradicionais criativas foram reactivadas, mas o espírito é diferente, é mais profissional”, frisou o empreendedor, para quem as pessoas também estão mais abertas mentalmente para as indústrias criativas e culturais e existem mais canais de divulgação.