A literatura chinesa ainda tem um longo caminho a percorrer para se tornar mais conhecida no mundo ocidental, mas é certo que um dia os autores do Continente serão mais conhecidos no exterior. Quem o diz é Nicky Harman, que se dedica a traduzir romances chineses desde o início do século, e, numa palestra explicou os desafios de traduzir dois idiomas tão distintos

 

Inês Almeida

 

O Departamento de Inglês da Universidade de Macau (UM) recebeu ontem Nicky Harman, tradutora britânica que trabalha sobretudo com literatura chinesa, e que durante uma hora falou sobre os desafios do papel que desempenha, sobretudo quando se lida com duas línguas tão diferentes.

“Não acredito que a língua em si seja um desafio. As línguas [mandarim e inglês] são muito diferentes mas é possível encontrar bons equivalentes para as palavras. A maior dificuldade tem a ver com o estilo e a estrutura do romance que podem ser muito diferentes”, frisou em declarações à TRIBUNA DE MACAU. A título de exemplo, Nicky Harman explica que “os autores chineses, por vezes, contam o segredo, revelam o final logo no início e em inglês isso acontece com muito menos frequência, na maioria dos casos lemos o livro e só no fim sabemos o que acontece”.

Ao mesmo tempo, “os chineses, muitas vezes, gostam de usar a repetição, o inglês é alérgico à repetição, por isso, temos de encontrar formas diferentes de dizer as coisas”, disse à margem da sessão incluída no programa do Festival Literário “Rota das Letras”.

Nicky Harman trabalha com romances chineses desde 1999 ou 2000, porém, o primeiro contacto com a língua aconteceu muito antes. “Aprendi chinês há muito tempo, durante a revolução cultural, mas durante muitos anos não fiz nada com ele. Tive outros trabalhos, fiz outras coisas, depois voltei ao chinês”.

A decisão de aprender a língua partiu de uma genuína curiosidade. “Aprendi chinês porque achei que seria engraçado, os meus pais não, de todo. Eles queriam que fizesse algo mais próximo do inglês mas o chinês parecia-me fascinante, exótico e nunca me arrependi porque a língua é tão fascinante, além da cultura e das pessoas”.

A tradução literária surgiu muitos anos depois. “Apercebi-me rapidamente de que adorava todo o processo, é tão distinto da escrita, não tenho de pensar na história porque o autor já o fez e eu gosto disso”, frisou num tom humorístico.

Nicky Harman acredita que a literatura chinesa precisa de ter muito mais visibilidade, porém, isso só acontecerá depois de um processo lento. “É preciso que muitos mais bons livros sejam traduzidos do chinês e que depois sejam bem promovidos para que os leitores saibam que eles existem. Também têm de ser bem escolhidos tendo em conta o número imenso de escritores na China. É muito difícil para os responsáveis pelas editoras que não lêem chinês encontrar um livro que queiram publicar em inglês e às vezes tenho pena deles porque não sabem o que vão receber até conseguirem ver a tradução completa e talvez seja muito diferente do que estavam à espera”.

“A literatura chinesa e a sua tradução têm um papel incrivelmente importante de mostrar como é a vida da população chinesa e o melhor que a escrita chinesa consegue fazer. Há óptima literatura, por isso, é preciso que haja mais tradução e que mais escritores estejam preparados para fazer o trabalho de promoção”, indicou Nicky Harman. Para isso, é necessário que os autores da China aprendam mais sobre as expectativas dos leitores ocidentais pois elas implicam uma promoção diferente.

Mesmo assim, dar mais visibilidade à literatura chinesa vai demorar algum tempo. “É um processo lento. É como a literatura russa há 100 anos, quando Tolstoy não era conhecido ou Chekhov era só um nome. Agora toda a gente os conhece. Um dia, os escritores chineses vão ser mais conhecidos”, defendeu a tradutora.

 

Comunicação com os autores

Nicky Harman participou ontem também numa sessão intitulada “Escritores VS Tradutores” que contou ainda com Han Dong, Chan Ho Kei e Jeremy Tiang. A tradutora britânica mostra ter visões diferentes de alguns dos outros participantes.

“Quando comecei a falar com Han Dong apercebi-me que ele tem uma ideia algo controversa da tradução porque cita Robert Frost que dizia que a poesia é o que se perde na tradução. Acho que isso é pouco correcto e tenho a certeza que Robert Frost não sabia outra língua ou alguma coisa sobre tradução”, defendeu acrescentando que “se pode fazer coisas maravilhosas como tradutor”.

Para garantir que tudo corre bem, a comunicação entre o autor e o tradutor é muito importante. “Quando estou a traduzir um livro, a comunicação é entre mim e o autor. Tenho a sorte de todos os meus autores estarem vivos. Mesmo que não tenha conhecido o autor, gosto de trocar e-mails para ter a certeza de que estou a fazer tudo bem”.

Além disso, “gosto de encorajar autores britânicos ou de língua inglesa a contactar os tradutores chineses”. “Muitas vezes os tradutores sentem-se envergonhados por fazer perguntas ao autor por considerarem que isso significa que não são profissionais mas isso não é verdade. Os autores gostam que lhes façam perguntas”, acredita Nicky Harman.