A ligação entre o desporto e a saúde mental é hoje conhecida, e a importância dada à vertente psicológica é aceite no desporto de elite, recebendo por vezes mais relevância do que as lesões físicas, indicou o professor Ning Ziheng. O docente do Instituto Politécnico de Macau foi campeão na China de lançamento do dardo, tendo acabado por decidir seguir a vida académica e transmitir o seu conhecimento a outros. Em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, aborda os desafios que a tecnologia coloca à prática de exercício físico por parte das gerações mais novas, bem como a necessidade de colocar o enfoque no treino para se obter sucesso na prática desportiva

 

Salomé Fernandes (Texto)

Tatiana Lages (Fotos)

 

-A actividade física pode ajudar a prevenir problemas de saúde mental?

-Sim, de facto. De acordo com a investigação científica, tem sido senso comum que o desporto ou actividade física previne doenças mentais. Porque melhora a saúde mental, em termos de diferentes aspectos, especialmente na prevenção de depressão, ansiedade e stress. Especialmente nos dias modernos em que há demasiado stress nas nossas vidas diárias, participar nalgum desporto ou actividade física diariamente vai ajudar as pessoas que sofrem dessas doenças mentais.

 

-Os médicos devem prescrever desporto, para além de medicação, a quem sofre esse tipo de condições?

-Depende da situação dos problemas de saúde mental. Se a pessoa sofre demasiado, a combinação entre medicação e actividade física seria perfeita.

 

-Apesar de a prática desportiva ajudar a lidar com estes problemas, no caso do desporto de elite há muita pressão sobre os atletas. Como é que se atinge um equilíbrio?

-Os atletas enfrentam muitas competições, por isso, sofrem problemas emocionais se não estiverem bem ajustados a esses ambientes de stress elevado. Por isso têm de tentar atingir equilíbrio através de aconselhamento psicológico, com psicólogos desportivos, que os ajudam. Por exemplo, podem não conseguir dormir na noite antes das competições, e esse tipo de ansiedade causa muitos problemas psicológicos e físicos aos atletas. Eles precisam de ter ajuda psicológica de profissionais.

 

-Foi campeão nacional de lançamento do dardo em 1980. Na altura falava-se destes assuntos, existia apoio ao nível da saúde mental?

-Nos tempos antigos não percebíamos esse tipo de problemas. Pensávamos que era natural os atletas enfrentarem essas [questões]. Mas agora a investigação científica tem-nos vindo a dizer que se podem ultrapassar esses problemas procurando ajuda profissional e também fazendo treino psicológico. É essa a diferença. Antes não tínhamos ferramentas para lidar com esses problemas. Mas agora há muitos programas de treino psicológico para ultrapassar esses problemas mentais no desporto de elite.

 

-E tornou-se normal? Não é um assunto tabu no desporto de elite?

-Não. Todos percebemos, porque os atletas de elite também são seres humanos. Por isso sofrem, os mesmos problemas que as restantes pessoas. Apercebemo-nos de que é normal e estamos abertos em relação a esses problemas. E também vão a psicólogos desportivos ou psiquiatras.

 

-Presta-se a mesma atenção a estes problemas que às lesões físicas?

-Sim, às vezes penso que prestam mais atenção aos problemas psicológicos do que às lesões físicas. Porque uma lesão física é externa, pode-se ver, mas os problemas psicológicos por vezes estão implícitos, não se podem ver a menos que os atletas reportem esses problemas. Para os atletas que não queiram procurar ajuda pode causar muitos problemas.

 

-De que forma os desportos de grupo afectam o comportamento social das pessoas?

-É preciso haver coordenação e cooperação entre as pessoas quando se está num desporto de equipa. Os desportos individuais são mais catalisadores do desenvolvimento individual (…). Mas nos desportos de grupo não é apenas a responsabilidade do indivíduo, é preciso coordenar com as responsabilidades dos outros atletas. O que significa que pode desenvolver capacidades sociais em termos de cooperação, coordenação e ajuda mútua. Algo que não se consegue pelos desportos individuais.

 

-No que toca aos treinos e competição, como é que se adapta a metodologia às crenças supersticiosas?

-Não encorajamos que se sigam as superstições mas também não nos opomos. Porque as investigações chegam à conclusão que a superstição traz benefícios psicológicos aos atletas. É como um placebo, que ajuda a aliviar a ansiedade e o stress nas competições. É bom para eles. Mas desenvolvem-na da sua maneira. A cultura não os ensina, mas estudam e lentamente desenvolvem os seus rituais para criar comportamentos supersticiosos. Ajuda, do ponto de vista da minha pesquisa.

 

-Quem se interessa por modalidades menos desenvolvidas pode enfrentar dificuldades em melhorar as suas competências em Macau?

-Sim, é um desafio para quem está em desportos menos desenvolvidos. Suponho que não tenham tanto apoio como esperam. É da responsabilidade do Governo atingir um certo equilíbrio, distribuindo os recursos para apoiar diferentes desportos em Macau.

 

-Quando estes atletas querem treinar no estrangeiro ou contactar com outras formas de orientação, quais os principais problemas que enfrentam? É difícil sair de Macau?

-Do meu conhecimento, há desportos, como a arte marcial chinesa wushu e a natação, em que lhes foi providenciada a oportunidade de terem treinos intensivos de dois meses ou quatro semanas na China. É menos possível treinar fora de Macau por exemplo na Europa. Não é possível para a equipa de futebol ter a hipótese de treinar em Portugal. Não é fácil, por causa das despesas.

 

-A iniciativa da Grande Baía também está a prestar atenção à área do desporto? Vai haver mais cooperação?

-Certamente, porque estão a melhorar as conexões e querem construir uma espécie de círculo de desporto na área da Grande Baía. Por isso vão decorrer mais torneios, intercâmbios entre pessoal do desporto, até de académicos da área desportiva. Por isso vamos definitivamente melhorar o desporto nestas áreas.

 

-As raparigas têm as mesmas oportunidades que os rapazes no desporto?

-Tradicionalmente não, mas acho que na última década ou duas estão a ser dadas mais oportunidades às raparigas e mulheres para participarem no desporto. É o que podemos ver em resultados dos dados de pesquisa.

 

-Mas ainda há queixas, nomeadamente sobre a dificuldade de acesso a patrocínios. Como se muda esta mentalidade?

-Tem de ser o Governo a tomar a liderança, como noutros assuntos de direitos humanos. A igualdade de género tem sido um foco da sociedade moderna. O Governo deve tomar a liderança e dar mais atenção a estes problemas ao providenciar mais recursos para trazer mais raparigas e mulheres para o desporto. Não são as pessoas “normais” que conseguem resolver esses problemas, tem de ser o Governo.

 

-Em Macau os idosos parecem bastante activos. Os desportos em Macau são inter-geracionais?

-De acordo com os dados da Europa, como dos Países Baixos, a nova geração está mais envolvida no desporto. Mas em Macau, como se vê, parece que temos o oposto. Temos mais pessoas idosas a participar em actividades físicas e desportiva. Talvez tenham mais tempo porque estão reformados e sem nada para fazer, mas para a geração nova há o stress dos problemas do trabalho e têm menos tempo. Um assunto importante para este fosso entre gerações pode ser a era digital, por exemplo os telemóveis. Hoje em dia estamos muito mais dependentes do uso do telemóvel. Quanto mais dependentes deste tipo de dispositivos, menos tempo se tem para actividade física no exterior. Pode ser um factor. Em Macau temos investigação longitudinal nos últimos 10 anos, em que acompanhámos jovens adolescentes, e descobrimos que passaram cada vez mais tempo a usar de dispositivos móveis este ano, comparativamente há dez anos. Isso significa que os estudantes ou os jovens passam mais tempo a usar computadores e outros aparelhos, e menos para saírem para actividades.

 

-Os pais estão a tomar atenção suficiente a estes assuntos?

-Não é apenas um problema dos jovens, também é um problema dos pais. Os pais também usam mais os dispositivos móveis, por isso, prestam atenção mas não têm uma solução. Não sabem gerir esses problemas. A China já percebeu esses problemas, por isso implementou algumas regulações. (…) Há uma regulação nova a dizer que, desde as 22h da noite até de manhã, a Tencent não providencia jogos online, o que ajuda a resolver o problema de os jovens ficarem viciados nesse tipo de jogos dia e noite. Assim, precisam de ter um período de descanso na noite, de dormir. Esse problema já recebeu muita atenção. Por isso, os pais têm de seguir esse tipo de orientações, por exemplo definir limites às crianças relativamente ao tempo que usam o telemóvel.

 

-Na China também há centros de tratamento para crianças com este tipo de vícios. Esse tipo de instituições seria útil em Macau?

-Se tivéssemos esse tipo de recursos certamente que ia ajudar.

 

-Há dinheiro…

-O Governo tem de considerar esse tipo de soluções. Fizemos estudos sobre a dependência dos estudantes de Macau a telemóveis nos últimos 10 anos consecutivos. A cada dois anos temos um relatório sobre isso. Por isso, do nosso ponto de vista seria muito útil os alunos libertarem-se desse tipo de dependência ou vícios. Às vezes é excessivo, precisam de receber ajuda adicional, as famílias não são capazes de resolver os problemas. No nosso estudo, verificámos que nalguns casos os jovens têm discussões com os pais relativamente ao seu uso. Houve um caso extremo em Hong Kong em que uma rapariga de 14 anos saltou, para se suicidar, porque os pais não a deixavam usar o telemóvel. É um problema aqui também. (…) Em Macau este tipo de problemas deve chamar a nossa atenção para prevenir que aconteça o mesmo tipo de tragédia.

 

-No IPM há uma licenciatura em Educação Física. Alguns estudantes deverão tornar-se professores. Qual o papel do professor na orientação deste tipo de comportamento?

-Actualmente temos uma licenciatura e um mestrado. Temos dois campeões mundiais no programa de mestrado. Em termos de como ajudam os estudantes quando se tornam professores, acho que podem motivar os alunos a envolverem-se em mais desportos. Se as crianças gostam de desporto estão dispostas a passar mais tempo no exterior e isso significa que passarão menos tempo a jogar no computador ou a usar o telemóvel. As actividades físicas também podem prevenir este tipo de problemas.

 

-Em Macau as crianças passam muito tempo nas escolas. Têm tempo suficiente para brincar e ser fisicamente activas?

-Há dois tipos de escolas em Macau. Nas escolas chinesas tradicionais têm um horário académico rígido. Esses estudantes têm uma aula de educação física, normalmente de duas horas por semana, mas não é suficiente. As escolas precisam de dar mais atenção a encorajar os estudantes a fazer mais actividade física, seja nas aulas ou por interesse depois das aulas. Deviam encorajar os estudantes.

 

-Qual é o outro tipo de escola?

-Na Escola Internacional, onde os meus filhos estudam, na Escola das Nações, e talvez na Escola Portuguesa, têm mais tempo para os estudantes. Por exemplo, acabam a escola às 15h30, por isso, os estudantes têm um dia maior. Podem planear actividades. Mas nas escolas chinesas normalmente saem da escola tarde, quase às 17h. No Inverno fica escuro às 18h, por isso só lhes resta uma hora de dia. Não é bom para terem actividades desportivas no exterior.

 

-Como foi o seu passado como atleta?

-Quando tinha 7 anos fui seleccionado para ser o líder da pista de atletismo. Mais tarde, com 10 ou 12 anos, comecei a focar-me no lançamento de dardo. Ainda detenho o recorde de lançamento de dardo de Macau. Depois fui novamente seleccionado para a equipa da Província. Mais tarde, participei nos jogos nacionais e quando cheguei à idade da universidade tive sorte de ser seleccionado para uma das universidades de topo da China. Então, representei a minha universidade nos jogos universitários da China. Depois, ganhei o campeonato, e após uma boa performance parei porque queria investir na minha carreira académica. Por isso estudei para o meu programa de mestrado, posteriormente tive a oportunidade de ir estudar para Coimbra (…) e fui para os EUA para a minha bolsa pós-doutoramento. Transferi completamente a minha carreira desportiva para a academia.

 

-Porque decidiu fazer essa mudança?

-Estou a ficar velho, não tenho a mesma capacidade de competir que um homem jovem e preciso de ajudar com o meu conhecimento para desenvolver mais as próximas gerações.

 

-As carreiras no desporto têm vida curta. Há orientações suficientes para os atletas saberem o que fazer depois?

-No geral, temos membros de equipas que não conseguem fazer esta transição. Não é fácil fazer a mudança de um atleta de elite para as carreiras normais. Só 5% são capazes de fazer esta transição para as carreiras académicas porque demora muito tempo.

 

-São muitos anos…

-Estamos a falar de 20 anos a estudar, a investigar. É muito esforço e tempo, não é fácil. Em Macau temos este mecanismo para quando os atletas se reformam. Os meus estudantes aproveitaram este mecanismo do Governo. Foram pagos para estudar no nosso programa. É como um bónus, porque fizeram muitas contribuições para o desporto em Macau. Por isso quando se reformam têm uma [espécie de] bolsa de estudos. Estudam aqui e é um passo para transferirem a carreira para no futuro serem talvez treinadores, ou professores de desporto.

 

-Ser bom no desporto requer mais talento ou treino?

-Do meu ponto de vista, treino, sem dúvida. Talento não é suficiente para se chegar à elite. Treino é o factor mais importante, com base na minha própria experiência e pesquisa. Sou investigador na especialidade de desporto. Todas as minhas observações, toda a informação, 99% das ‘super estrelas’ trabalham e treinam no duro, passaram por todas as dificuldades.

 

-Então pode ter a genética contra si e obter sucesso na mesma?

-Sim. Criação ou natureza, é o debate que existe há muito tempo. Compreendo que existem diferentes pontos de vista. Há quem diga que a genética é mais importante porque se nasceu para ser uma ‘super estrela’, mas a meu ver é através do treino que [alguém] se torna uma ‘super estrela’. (…) Muitos de nós não sabem como treinar. Mesmo que treinem há 10 anos não é eficaz. O que estou a estudar é prática deliberada. É o método de treino mais eficiente do mundo. Através da prática deliberada é possível atingir um nível muito alto, a que chamamos desempenho de especialista.