A desistência de um aluno há alguns anos terá levado a que as entrevistas para ingresso na Escola Oficial Zheng Guanying passassem a ser conduzidas em mandarim, no entanto, a directora do estabelecimento admite haver margem para rever os métodos usados na entrevista para o ensino infantil. De qualquer modo, ressalva Wu Kit, as competências linguísticas não são o único parâmetro avaliado
Inês Almeida
Para o ano lectivo 2018/2019, a Escola Oficial Zheng Guanying já recebeu 10 inscrições de alunos de língua materna não chinesa, metade dos quais falam Português, recordou ontem a directora do estabelecimento de ensino. No caso do primeiro ano do ensino infantil, o processo de entrevista decorre em mandarim, acompanhado de outras línguas “por exemplo o cantonês e inglês”.
“Porquê fazer a entrevista em mandarim? Porque quando [as crianças] entrarem na escola têm pelo menos sete horas diárias, entre aulas e actividades extra-curriculares, ministradas em mandarim. Na entrevista queremos ver se o aluno está ou não interessado na língua chinesa. Os alunos chineses aqui em Macau falam cantonês, por isso, se calhar, mesmo eles não percebem bem o mandarim”, indicou Wu Kit quando questionada pelo recurso a esta língua.
De qualquer modo, ressalva a directora, “os conteúdos da entrevista relacionam-se com a vida diária dos alunos, por exemplo, a relação com os amigos, os sentimentos, as partes do corpo, não são coisas muito difíceis para crianças de três anos”.
No entanto, nem sempre foi assim. “No ano lectivo 2014/2015 a entrevista para o primeiro ano do ensino infantil era feita em Português mas até Setembro [desse ano lectivo] houve um aluno que desistiu da escola porque não conseguia habituar-se a sete horas de aulas e actividades extra-curriculares ministradas em mandarim. Por isso, este aluno frequentou um mês e depois desistiu da escola”, explicou.
É com esta situação que Wu Kit justifica a decisão de recorrer à língua oficial da China durante o processo de entrevista. A directora destaca ainda que “até agora, os alunos da escola de língua materna não-chinesa tiveram entrevistas em mandarim e continuam a frequentar a escola”.
Ainda assim, Wu Kit admite a possibilidade de alterar a língua utilizada na entrevista. “Todos os anos o conteúdo e a forma da entrevista são aperfeiçoados e agradeço as sugestões dos pais”, disse, prometendo continuar a melhorar “este método de acesso das crianças”.
Além disso, reiterou que “as entrevistas não servem apenas para verificar o nível linguístico da criança, têm também outros fins”. “Numa criança de três anos queremos saber se se conhece a si própria, sabe as partes do corpo ou os sentimentos que tem e temos também outras línguas de apoio”, afirmou, destacando que no caso de a criança falar Português, “há professores portugueses que conhecem a língua e também aceitamos as respostas”.
As entrevistas para o primeiro ano do ensino primário e secundário geral decorrem em “mandarim, português e inglês.”. “A entrevista para os alunos do segundo e terceiro ano do ensino infantil é feita em mandarim e Português, mas acompanhada de cantonês e inglês”, destaca a directora.
No ano lectivo que ainda está a decorrer houve mais de 300 inscrições incluindo seis crianças de língua materna não chinesa, no entanto, cinco não compareceram à entrevista. “Só uma é que chegou a fazer a entrevista e admitimos esta criança”, frisou Wu Kit.
No próximo ano lectivo, no segundo semestre, o estabelecimento de ensino vai implementar “uma ou duas aulas de apoio de 15 minutos cada para as crianças poderem acompanhar a turma no ensino infantil”. “Vamos verificar o progresso destas crianças e, se não acompanharem a aula, vamos dar-lhes apoio extra para progredirem”.
Wu Kit destacou ainda que nos últimos anos tem-se registado um aumento no número de inscrições de crianças de língua materna Portuguesa e disse estar “muito contente” com a tendência.
Música para aprender Português
Wu Kit falou à margem de uma visita à Escola Oficial Zheng Guanying que tinha como objectivo apresentar as aulas do projecto-piloto bilingue. Numa aula de Português do primeiro ano do ensino secundário geral, os alunos estavam concentrados a criar postais alusivos ao Dia do Pai que se comemorou ontem em Portugal. Os trabalhos decorrem com música de fundo, também em Português, neste caso, “Não dá”, do grupo D.A.M.A.
Luísa Borges, professora de Português, explica que os seus alunos têm diferentes níveis de língua. “Há alunos que começaram no ensino infantil, outros na primária. Este ano entraram novos alunos para a turma bilingue vindos de outras escolas onde já tinham iniciado o Português. Temos uma aluna que tem o Português como língua materna dela mas está perfeitamente integrada, fala mandarim na perfeição e não há qualquer dúvida quanto ao currículo dela. Apesar de ter aula comigo, tem um português diferente, mais exigente, por ser primeira língua”, explicou. Os restantes elementos da turma têm aula de Português Língua Não Materna.
O recurso à música durante as aulas “é normal”, assegura Luísa Borges. “É para eles conhecerem grupos portugueses, saberem cantar músicas em Português, conhecerem autores. Hoje [ontem] estão a fazer um cartão alusivo ao Dia do Pai. Eles não o festejam na mesma altura aqui em Macau mas achei que era bonito hoje oferecerem uma coisa em Português aos pais, apesar de eles serem chineses.”.
Enquanto trabalham nos postais, a letra da música que estão a ouvir é projectada uma vez que estão a “treinar” o tema para “qualquer dia cantarem aos colegas”, contou a professora de Português.



