Constituída há 30 anos com a missão de formar instruendos e oficiais, a Escola Superior das Forças de Segurança de Macau tem procurado acompanhar o desenvolvimento do território, ajustando a sua estrutura às alterações sociais e políticas. Paralelamente ao aumento das exigências, a Escola instalada em Coloane parece apostada numa maior igualdade de géneros e na preservação de elementos portugueses nas suas rotinas. Mas, ainda enfrenta desafios
Salomé Fernandes e Viviana Chan
Hoi Sio Iong
A Escola Superior das Forças de Segurança de Macau (ESFSM) foi oficialmente criada a 4 de Julho de 1988, em resultado da Declaração Conjunta entre os Governos da China e de Portugal. Antes da constituição da ESFSM, as acções formativas eram ministradas pelo Centro de Instrução Conjunto. Ao longo destes 30 anos, o órgão que funciona na dependência do Secretário para a Segurança foi evoluindo para acompanhar os desenvolvimentos políticos e sociais na região, segundo sublinha o seu director.
“De uma forma geral, antigamente como a exigência académica para admissão era baixa, os candidatos [antes de entrarem para a Escola] eram taxistas, mecânicos, canalizadores, electricistas, trabalhadores de obras, funcionários do banco… As pessoas acabavam a escola primária aos 12 anos e, até chegarem aos 18, tinham seis anos para decidir se queriam ser polícias. Portanto, nos tempos antigos provavelmente tinham outro emprego antes de entrar na ESFSM”, explicou Hoi Sio Iong à TRIBUNA DE MACAU.
Inicialmente, os candidatos eram admitidas com os estudos primários, tendo a exigência aumentado duas vezes desde então. Em 1998, a Escola passou a requerer o 9º ano de escolaridade e em 2012 o 12º.
Lam Io Lam
Hoi Sio Iong, que trabalhava no sector da construção antes de abraçar a mudança de carreira, ingressou nas Forças de Segurança em 1984 e passou por todo esse período de transição após a assinatura da Declaração Conjunta. Agora, é a partir de um escritório decorado com taças e elementos alusivos à força policial que exerce as suas funções, com a bandeira azul onde se inscreve o lema “Bem Saber para Bem Servir” a servir-lhe de fundo.
A ESFSM tem dois cursos à sua responsabilidade. Um de Formação de Instruendos, que dura oito meses e dá formação técnico-profissional a candidatos aos postos de guarda/bombeiro das carreiras de base dos Militarizados das Forças de Segurança. O outro, integrado no ensino superior, consiste no Curso de Formação de Oficiais, leccionado em chinês e português, com a duração de quatro anos lectivos, seguidos de um estágio de sete meses que confere o grau de licenciados em Ciências Policiais.
A instituição começou a cooperar com a Universidade de Macau desde o início, mas o primeiro ano lectivo arrancou apenas em 1990. Em 1995, os primeiros estudantes graduaram-se e entraram em funções. Entre 1990 e 2017, a escola formou 316 oficiais que já desempenham cargos de chefia nas respectivas corporações. Actualmente, tem 37 alunos em formação.
Com a Escola perto de celebrar o 30º aniversário, para o qual vão ser convidados antigos professores portugueses para participar numa cerimónia comemorativa, ainda há desafios por ultrapassar. “Nota-se um envelhecimento das instalações, que já não chegam para tantos estudantes. A capacidade máxima é de 300 pessoas mas gostaríamos de aumentar até 500 estudantes”, lamentou o director.
A possibilidade de admitir mais alunos em formação seria útil “porque agora há falta de polícias”, nomeadamente com o projecto da mega Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, apontou Hoi Sio Iong.
Para além disso, a instituição está em contacto com o Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES) para se adaptar às novas exigências da revisão da lei que estabelece o regime do ensino superior, como a necessidade de uma assembleia geral. Por outro lado, esta revisão permite que a ESFSM abra um curso de mestrado, um processo que está em preparação.
Actualmente, os candidatos têm de passar por um exame físico, uma avaliação das condições físicas e um teste psicológico antes de serem admitidos. Os instruendos precisam ainda de efectuar um exame de chinês, inglês e matemática. Já para oficiais, requerem-se exames de chinês, matemática, física e química. No caso de o candidato ser português, os exames são de português e matemática, física e química. Mas o perfil psicológico é constante. “A meu ver, é preciso ter coragem, ser resistente, determinado, ser disciplinado”, indicou Hoi Sio Iong.
Sou Tak Sen, estudante
“Para o Curso de Formação de Instruendos, temos sempre muitas inscrições. O número de estudantes pode atingir entre 100 a 200 pessoas em cada edição”, explicou o director da escola, acrescentando que as vagas são abertas mediante a necessidade de pessoal. Já o Curso de Formação de Oficiais, só abre candidaturas a cada dois anos. Apesar de não haver falta de candidatos, um dos factores que se destaca como atractivo para a entrada nos cursos oferecidos pela Escola é a estabilidade financeira oferecida por uma carreira nas Forças de Segurança.
“Há mais candidatos em anos de crise. Isso é verdade”, reconheceu o director. Em 2008, para além da crise que abalou o mundo, houve aumentos salariais na ordem dos 25% [nas Forças de Segurança], e não terá sido por coincidência que se registou simultaneamente um aumento de 60% no número de candidatos, que cresceu para cerca de 1.600.
“Na altura havia uma luta de recursos humanos entre a polícia e os casinos em Macau. Desde a liberalização do jogo [em 2002], se não me engano, um polícia ganhava 11 mil patacas e um ‘croupier’ 14 mil”, referiu Hoi Sio Iong como factor para o aumento salarial na polícia. “Em 2017 houve mais de 2.000 candidatos. Penso que o salário é relativamente alto e é um emprego estável”, sublinhou.
Para os que têm sucesso na candidatura, o treino passa pelas componentes de educação cívica e patriótica. “O desenvolvimento da sociedade deixa as pessoas com expectativas altas sobre a polícia. Por isso, obrigamos os estudantes a cumprir o estatuto da polícia, dando o exemplo no ensino”, asseverou Hoi Sio Iong, esclarecendo que as restrições passam, por exemplo, pela proibição de entrada em casinos ou o aconselhamento verbal a que não se desloquem a discotecas. “Ser polícia tem muitos deveres”, declarou.
Kong Chi Ian, estudante
O aumento da exigência dos cidadãos relativamente aos serviços policiais prestados pelas Forças de Segurança de Macau também incentivou um reforço da educação para os “polícias poderem ter melhor desempenho nas suas funções”. “Devemos aplicar uma exigência elevada quando somos nós a defender o regime jurídico. Uma boa disciplina para si próprio e para o cidadão também”, frisou o director. Por isso, a vertente cívica traduz-se em conhecimentos gerais, de cidadania e do código deontológico.
No entanto, há apoio externo no que à educação patriótica diz respeito. “Normalmente convidamos o Exército Popular de Libertação para educar sobre segurança e defesa nacional. Neste momento, a China é um país emergente em muitos aspectos, portanto esta educação vai dar uma análise geral da estratégia militar da China e dos conhecimentos sobre elementos associados à segurança do Estado”, frisou Hoi Sio Iong. Em causa está que, sendo uma Região Administrativa Especial, “proteger a segurança do país é fundamental para estabilidade e prosperidade de Macau. Se o Estado estiver mal, como é possível Macau estar bem?”.
Uma rotina regrada
O edifício amarelo situado num dos pontos mais elevados de Coloane, foi construído em 1908 e é o mais antigo das Forças de Segurança. “É quase património de Macau”, afirma o director. Entramos numa caserna ali situada, onde o espaço destinado a 150 instruendos é preenchido por colchões cinzentos aos quadrados amarelos, e cabides estreitos que não dão espaço à privacidade.
Antigamente, as casernas não dispunham de ventoinhas nem água quente. Apesar de limitado, o espaço é agora equipado com ar condicionado e as casas-de-banho foram remodeladas. A escola não permite que haja telemóveis durante o tempo de recruta, e isso é comprovado por avisos escritos nos cacifos. Para efeitos de comunicação, há telefones fixos que permitem chamadas locais e internacionais.
É ao almoço, onde se serve um prato semelhante a carne alentejana e sopa que o professor de educação física, Lam Io Lam, nos dá uma breve descrição do seu papel junto dos alunos. A refeição come-se com garfo e faca, em substituição dos tradicionais pauzinhos. Um dos rituais dos tempos da administração portuguesa que a Escola decidiu preservar.
Cacifos têm vários avisos inscritos
A rotina dos pupilos está bem definida. “Acordam às 5:45 da manhã, fazem limpeza da caserna, tomam banho. Às 7:45 começam os treinos físicos. Uma hora diária para começar o dia antes de terem aulas de línguas, às 9h. Nos treinos básicos das 10 semanas iniciais têm oito avaliações físicas, por isso têm de ter um treino mais intenso. Mas, depois desse período raramente há treinos físicos para além dessa hora matinal”, descreveu.
Os treinos são todos realizados em Coloane, embora haja corridas às colinas e marchas fora do terreno da escola, e na componente física não há colaboração com o Exército Popular de Libertação. Há também cooperações transregionais, como por exemplo em acções relacionadas com o combate à droga, mas a actividade fora da RAEM cinge-se a isso.
A função de Lam Io Lam passa por dar aulas e cuidar do dia-a-dia dos estudantes. “Se ficam lesionados ou doentes sou eu que os levo ao médico e faço esse acompanhamento da vida dos alunos”, explicou. Há já cerca de sete anos que a isso se dedica, depois de ter deixado de trabalhar mesmo como polícia. “Mudei porque como tenho mais experiência quis usá-la para ensinar os novos quadros”.
De acordo com o docente, “as pessoas começam a preparar-se um ou dois meses antes de chegarem, por isso não custa tanto e há menos desistências”, dada a confirmação antecipada da aceitação para os cursos.
E as dificuldades que os alunos enfrentam associam-se tanto aos treinos físicos como psicológicos. “Quando a pessoa chega à sua capacidade física máxima podem ultrapassá-la com a mentalidade. Por isso, o treino psicológico pode ajudar à componente física também”, relacionou. Alguns dos exercícios “requerem técnica, não apenas força. Mesmo quem tem muito músculo pode não conseguir”, explicou.
Treinos físicos começam às 7h45
Porém, as dificuldades enfrentadas por Sou Tak Sen, colega de turma de Kong Chi Ian, são outras. “Sou casado e tenho um bebé. Começo às 7h e saio às 19h. Tenho algum tempo para cuidar do bebé mas se fica doente é complicado. Fico acordado até às 4h da manhã para cuidar da família, mas tenho de treinar todos os dias. Por isso é complicado. Mas não sou quem mais sente falta de tempo, porque há colegas com três crianças”, relatou.
Para além disso, o seu percurso foi diferente. “Quando estava na escola secundária fui premiado pela polícia por ser um bom cidadão, por ter ajudado a apanhar um ladrão. Na altura, a entrega do prémio foi impressionante, e achei que ser polícia é muito ‘porreiro’”, recorda. Quando acabou o ensino secundário, como não conseguiu entrar no Curso de Formação de Oficiais enveredou pelo curso de oito meses da polícia. “Tomei a decisão em conjunto com a minha família, que achou que a profissão tem uma imagem positiva e que trabalhar na função pública dá mais estabilidade”.
Trabalhou a içar bandeiras na Praça de Flor de Lótus, e nas brigadas anti-violência, mas não desistiu da ideia original e em 2015 conseguiu ser aceite. “Este curso é um caminho rápido para poder subir na carreira e poder ser chefe”, disse, acrescentando que o problema em mudar o percurso não foi a nível financeiro. “O sacrífico que fiz foi em já ter sido promovido, na altura, e ao entrar na Escola tive de abdicar dessa promoção”.
Apesar disso, mostrou-se satisfeito com a escolha. “Tenho interesse em línguas e tive oportunidade de estudar português aqui. (…) Na educação física não sabia nadar e agora sei diferentes técnicas. Mas o que me influencia profundamente é aprender código civil. Saber os direitos e deveres das pessoas e saber que é preciso ser leal e honesto para respeitar as regras da sociedade”, concluiu.
O caminho pela igualdade de género
Antigamente, aplicava-se um regime de quotas que limitava o número permitido de polícias do género feminino. “Estava definida uma proporção entre mulheres e homens. A partir de 2005, por motivos de igualdade de género deixou de haver restrições”, explicou Hoi Sio Iong. Foi nesse mesmo ano que se verificou o maior número de sempre de candidaturas femininas à Escola Superior das Forças de Segurança.
Para além do “boom” registado nas candidaturas, elas tiveram nesse ano mais sucesso do que os candidatos masculinos, tendo entrado 67 homens e 109 mulheres para a recruta. Esse momento foi, no entanto, uma excepção, dado que actualmente apenas 20% são mulheres.
Disciplina é um pilar essencial da formação
De acordo com o director da Escola “as candidatas têm requisitos de admissão mais baixos, como por exemplo, a altura e exigência das condições físicas”, mas a menor taxa de candidatura “é um resultado natural”, visto que “as mulheres podem pensar que ser polícia é uma profissão cansativa”.
O cansaço esteve, porém, longe de retirar a Kong Chi Ian o sonho de entrar na profissão. “Considero-me uma pessoa justa e quero punir criminosos, é a minha personalidade”, declarou a jovem que se encontra no terceiro ano do Curso de Formação de Oficiais. Depois de várias tentativas falhadas, conseguiu integrar este curso após a conclusão do curso de inglês na Universidade de Macau (UM).
Apesar de ter estudado num colégio feminino, a passagem pela UM permitiu-lhe uma mudança gradual de um ambiente dominado por mulheres, para um ambiente onde prevalece o masculino. Quando entrou no curso de inglês só havia quatro homens numa turma de 50 pessoas, um desequilíbrio que foi compensando com o gosto por actividades extracurriculares, onde fez amigos homens. “Não foi difícil habituar-me a este ambiente”, relativizou.
A maior dificuldade reside nos treinos de educação física. “As exigências físicas são iguais [para homens e mulheres], temos de fazer exactamente as mesmas coisas, e isso é um sofrimento. Mas isso também é bom, porque quando andarmos atrás de criminosos eles não vão correr mais devagar se a polícia for mulher. A exigência faz sentido”, reconheceu.
Apesar de factores como o dinheiro poderem ser tidos em consideração, Kong Chi Ian acredita que o fundamental é os candidatos saberem se gostam da profissão para a vida. “Para ter um sentimento de pertença, de que a profissão é efectivamente boa”, rematou.



