A Escola Portuguesa de Macau comemora 20 anos marcados por uma constante evolução da realidade social do território que influencia também o funcionamento do estabelecimento de ensino. O ensino das línguas portuguesa e chinesa continua a ser a prioridade para o presidente da direcção. O reforço do multilinguismo passa também pelo ensino do cantonês que já começou na qualidade de actividade extra-curricular

 

Inês Almeida

 

No quinto ano da sua presidência da direcção da Escola Portuguesa de Macau (EPM) Manuel Machado acredita que o percurso do estabelecimento de ensino tem sido “bastante positivo” a vários níveis. “O sucesso escolar tem sido gradualmente maior, as taxas de insucesso são muito pequenas. Em muitos anos de escolaridade as taxas de aprovação são de 100%. Baixa um bocadinho ao nível do ensino secundário por causa dos exames porque basta um aluno não fazer uma disciplina para ficar retido. Ao nível da aprendizagem e aplicação de conhecimentos adquiridos e no que diz respeito à prestação de provas de avaliação quer internas, quer externas, os resultados têm sido muito bons”, destacou Manuel Machado em entrevista à TRIBUNA DE MACAU.

Substituir Maria Edith da Silva foi “um grande desafio” desde logo por a ex-presidente da direcção ser “uma figura carismática”. “Suceder-lhe foi algo de grande responsabilidade. Tendo Maria Edith da Silva e a sua equipa sido a principal obreira da afirmação da EPM em Macau e no seu reconhecimento enquanto instituição de ensino de qualidade, quer em Macau, quer lá fora, nomeadamente em Portugal, obviamente que o desafio é manter e, na medida do possível, melhorar estes padrões. É um grande desafio”.

Questionado sobre os pontos altos e baixos destes 20 anos de existência da EPM, Manuel Machado aponta que “em educação, não há nada que não esteja em constante mudança”. Assim, “um dos grandes desafios é procurar acompanhar e dar resposta às necessidades que vão surgindo ao longo dos anos”. “Vamos apanhando alunos com características diferentes, a realidade social também se modifica e a escola tem de estar bastante atenta para dar resposta à situação na sua globalidade”, frisa o presidente da direcção.

Uma das apostas da EPM, além da língua portuguesa, passa pelo ensino do mandarim. “O ensino da língua chinesa foi implementado no tempo de Maria Edith da Silva e depois em Agosto de 2009 foi aprovada uma portaria no Ministério da Educação em Lisboa que regulamenta os currículos da EPM. E, na sequência dessa portaria, foram criadas as duas vias de ensino, a via A e a via B. Na via A, os alunos podem frequentar o mandarim do primeiro ao 12º ano de escolaridade, com carácter de obrigatoriedade desde que o escolham, e na via B têm um currículo igual, sem o mandarim”, recorda.

Além disso, os currículos têm sido adaptados à realidade do território, “nomeadamente no que diz respeito ao ensino da história e geografia, quer de Macau, quer da China”. “Alargou-se o leque das áreas que os alunos frequentam no primeiro ciclo. Além das disciplinas, todos têm inglês, educação física e educação musical e, desde que estejam na via A, o mandarim”, frisou Manuel Machado.

Uma das principais mudanças ao longo dos 20 anos é o facto do número de alunos que não têm o Português como língua materna ter vindo a aumentar e a escola tem actuado para fazer face a essa tendência. “Temos procurado dar resposta no sentido de fornecer a esses alunos as ferramentas necessárias para fazer um acompanhamento do currículo, através da criação do ano preparatório, da avaliação contínua dos resultados obtidos no ano preparatório, e, na sequência disso, temos vindo a introduzir modificações por forma a melhorar a qualidade do ensino e aprendizagem do Português por alunos que não o têm como língua materna”, aponta.

Manuel Machado destaca também que tem sido dado “um acompanhamento muito próximo aos alunos com necessidades educativas especiais, cujo número também tem vindo a subir”. “Temos vindo a contratar professores do ensino especializado para fazer o acompanhamento. O serviço de psicologia e orientação tem vindo também a alargar-se. Neste momento temos duas psicólogas a tempo inteiro e quatro professores de ensino especial, o que mostra uma evolução face há cinco anos, quando não havia professores de ensino especial e tempo inteiro e só havia um psicólogo”.

Apesar de uma evolução tendencialmente positiva, “em educação os dossiers nunca estão fechados, estão sempre em aberto”. “Há sempre problemas e questões que vão surgindo ao longo do percurso, umas mais difíceis de resolver, outras menos, e a solução tem de ser dada da melhor forma possível”.

A falta de espaço continua a ser o principal problema, reitera Manuel Machado. “O número de alunos tem vindo a crescer, as instalações não têm acompanhado esse crescimento, e apontaria agora como um dos principais problemas com que a escola se debate o facto de necessitar urgentemente de alargar as suas instalações para poder oferecer o espaço necessário ao processo de ensino e aprendizagem”.

 

Futuro em Mandarim

Em jeito de balanço, o presidente da direcção considera que “a EPM, ao longo destes anos, conseguiu alicerçar-se na RAEM e ser reconhecida como instituição de ensino de qualidade, aberta, não só aos portugueses, mas também a alunos oriundos de outras comunidades residentes em Macau e a prova disso é que temos alunos de 24 nacionalidades”. “O facto de a EPM, com a dimensão que tem, ser procurada por variados agregados familiares de diferentes culturas e de outras nacionalidades é uma prova de que é reconhecida em Macau”, indica Manuel Machado.

No futuro, o ensino das línguas portuguesa e chinesa será a grande prioridade. “Obviamente que o ensino da língua chinesa é muito desafiante porque estamos inseridos num meio em que os alunos só praticam o mandarim dentro da aula. Não praticam no recreio nem lá fora, não vêem filmes em mandarim ou compram livros. Por consequência, o número de aulas curriculares que damos não é suficiente  para uma aprendizagem que gostaríamos que acontecesse”, vincou o presidente da direcção.

Assim sendo, “um dos desafios é continuar a apostar e melhorar o ensino da língua chinesa”. “Iniciámos este ano um projecto de ensino da língua chinesa que diferencia, em termos de distribuição, os alunos que já têm alguns conhecimentos de chinês daqueles que não têm nenhum. Criámos turmas de nível em que aos vários alunos não é leccionada a língua da mesma maneira porque as suas bases são diferentes. Isso tem-se mostrado bastante bom para a aprendizagem da língua por parte dos alunos com diferentes conhecimentos anteriores”.

O reforço no multilinguismo não deixa de fora o cantonês. “Este ano, abrimos o ensino do cantonês em regime extra-curricular e houve alguma adesão. Os resultados têm sido favoráveis também, portanto, continuaremos a apostar nisso. Paralelamente ao ensino curricular do chinês temos vindo a criar um conjunto de actividades extra-curriculares, também no domínio da língua chinesa, como é o caso da caligrafia chinesa, da dança do leão, do clube de mandarim, para que os alunos tenham acesso à língua de uma forma mais lúdica”.

Manuel Machado adianta que no final deste ano será feita uma avaliação da procura pelas aulas de cantonês e o que pode ser melhorado. “Nunca está fora de questão que, havendo procura, seja dada uma resposta à altura”, frisou, sobre a possibilidade de aumentar a carga horária do cantonês. Actualmente 16 alunos frequentam estas aulas.

 

Diversidade cultural

Uma comunidade educativa cada vez mais multicultural devido à diversidade da origem dos alunos obriga a direcção da EPM a trabalhar também “numa melhoria da comunicação com a comunidade educativa porque se há uns anos ela era maioritariamente constituída por portugueses, hoje continua a ser, mas tem muitos outros agregados familiares não portugueses”.

“Somos uma Escola Portuguesa em Macau, somos uma representação cultural de Portugal em Macau e temos a grande responsabilidade de transmitir a nossa cultura e os nossos valores. Eles têm de ser sentidos e vividos na cultura e ambiente da escola. Continuaremos a apostar na diversificação dos apoios na medida do possível e no aprofundamento do ensino especial e na formação profissional de todos aqueles que aqui trabalham”, nomeadamente professores e funcionários. “Eles deparam-se com alunos que têm características diferentes daquelas que tinham há alguns anos e isto exige formação no sentido de a relação entre todos ser a melhor possível”, defende Manuel Machado.

No que respeita à cultura, o presidente da direcção destaca vários projectos que considera “muito interessantes”. “Temos a filosofia para crianças que tem uma grande adesão por parte dos alunos e dos encarregados de educação. Todos os anos que curricularmente não têm filosofia, têm agora filosofia dada de uma outra forma e acredito que é um projecto muitíssimo importante para o desenvolvimento do raciocínio e do pensamento das crianças. É um projecto em que continuaremos a apostar”. Além disso, “temos o acompanhamento à leitura, e uma sala de leitura onde os alunos do primeiro ciclo vão semanalmente acompanhados pelos professores para ler em conjunto, interpretar, fazer perguntas e falar sobre as diferentes obras adaptadas às idades”. Posteriormente, numa altura em que os estudantes já têm alguma autonomia, “vão sozinhos e requisitam os livros”, explicou.

 

Escola Portuguesa em números:

577 alunos

2 membros da direcção

59 professores, dois a tempo parcial

2 psicólogos

5 professores de ensino especial, uma a tempo parcial

2 animadores culturais

7 funcionários administrativos

17 auxiliares de educação

5 profissionais da categoria “pessoal especializado”