Um estudo promovido por dois académicos de Macau e Hong Kong revela que os estudantes de enfermagem do território têm uma postura positiva em relação aos idosos mas poucos admitem interesse em trabalhar em cuidados geriátricos. A preferência recai na especialidade de obstetrícia, segundo refere o documento a que a TRIBUNA DE MACAU teve acesso
Catarina Almeida
Os estudantes de enfermagem assumem uma postura positiva em relação aos idosos mas estarão dispostos a prestar cuidados geriátricos em início de carreira? A questão é respondida num estudo-piloto desenvolvido por Mei Hua Kerry Hsu e Man Ho Ling, académicos do Instituto Politécnico de Macau (IPM) e da Universidade de Educação de Hong Kong, respectivamente.
Embora reconheçam que a investigação tem algumas limitações relacionadas com a dimensão da amostra e o facto de envolver alunos da mesma instituição de ensino superior, os autores do estudo “Atitude dos estudantes de enfermagem em relação a idosos e às escolhas de carreira futuras” concluíram que dos 30 inquiridos apenas 33,3% revelaram interesse em trabalhar em cuidados geriátricos no início da carreira, mas só 6,7% desse grupo admitiram trabalhar num lar de idosos ou instituição semelhante. “Os estudantes de enfermagem de Macau têm uma atitude positiva em relação aos idosos, mas muitos não escolheriam essa carreira profissional”, indica o documento consultado pela TRIBUNA DE MACAU que servirá de base para que os “educadores e o Governo compreendam o ponto de situação actual em relação ao enfermeiros de Macau”, sustentam Mei Hsu e Man Ling.
À semelhança da tendência global, o envelhecimento populacional é também uma realidade no território com as previsões a apontarem que 23,7% da população terá 65 ou mais anos de idade em 2036. “Como resultado serão necessários mais profissionais de saúde que providenciem cuidados directos a idosos ao domicílio, em zonas comunitárias e noutros espaços médicos como clínicas, hospitais e lares de idosos”, referem. Não obstante, “o envelhecimento ‘oferece’ desafios e cria oportunidades para os prestadores de cuidados de saúde”.
Perante este contexto, é “importante” prevenir e apetrechar o sector adequadamente por forma a responder a este envelhecimento sobretudo ao nível dos estudantes de enfermagem, já que dentro dos profissionais de saúde são o grupo que “oferece cuidados mais directos à população idosa quando terminados os estudos”. “Como os estudantes de enfermagem irão desempenhar um papel crítico no cuidado à população que tenderá a ser mais envelhecida, é importante que eles possuam as habilitações necessárias e mantenham uma atitude positiva em relação aos idosos”, observam.
Estudos anteriores concluíram que os recém-graduados acabariam, em regra, por trabalhar nesta área, apesar de essa não ter sido a primeira opção profissional que desejariam. “Infelizmente, muitos países estão a encontrar dificuldades com contratações de enfermeiros dispostos a trabalhar com idosos ou em cuidados geriátricos”, contam os académicos, ressalvando que “alguns até mostraram uma atitude positiva em relação a esta faixa etária”.
Desde 2008 que a saúde dos idosos foi reforçada nas vertentes teóricas e práticas dos cursos oferecidos pelas instituições locais, contextualizam. Hoje em dia, de acordo com a base de dados do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior, o IPM e o Instituto de Enfermagem Kiang Wu são as únicas instituições com licenciaturas em Enfermagem. O Instituto do Kiang Wu dispõe, por outro lado, de um curso de licenciatura em ciências de enfermagem e um complementar, respectivamente.
No caso do IPM, os alunos são introduzidos à enfermagem de saúde geriátrica no 3º ano estando ainda incluído no plano de estudos um estágio clínico na mesma área com duração de três semanas. No Instituto do hospital privado o contacto com a disciplina de enfermagem em geriatria é obrigatório e ocorre no terceiro de quatro anos. Todavia, através do curso de estudos avançados de especialização em enfermagem leccionada pela mesma instituição de ensino, os estudantes têm oito especializações à escolha, sendo a enfermagem gerontológica uma delas.
Área de obstetrícia domina preferências
“Quanto mais compreendidas forem as atitudes dos alunos de enfermagem em relação às pessoas idosas e à sua carreira, melhor preparadas serão as cadeiras de geriatria o que, em segunda instância, encorajará que mais estudantes de enfermagem enveredem por este caminho académico e profissional”, defende a dupla de investigadores.
Segundo o inquérito propriamente dito, entre os que admitiram a possibilidade de trabalhar em cuidados geriátricos, 33,3% entendem ser necessário ter prática na área. Ademais, 30% preferem exercer na área da “obstetrícia”, 20% em saúde pública e apenas 6,7% se mostraram interessados em exercer em institutos de cuidados a idosos como primeira opção profissional – uma percentagem semelhante à verificada em estudos anteriores na Bélgica, Austrália e Jordânia. “A segunda preferência profissional dos estudantes são os cuidados intensivos (23,3%) e a terceira psiquiatria (16,7%)”.
Por outro lado, 80% dos alunos disseram dar-se bem com pessoas idosas e 66,7% gostariam de passar mais tempo com elas, mas apenas 33,3% revelaram-se interessados em exercer nesta área clínica. “De acordo com a situação actual, a maioria dos enfermeiros de Macau gostaria de trabalhar no hospital público ou em centros de saúde para ter acesso a mais benefícios e ‘desenhar’ um melhor futuro. Centros de cuidados de idosos ou centros de cuidados prolongados não oferecerem os mesmos benefícios, logo, muitos estudantes de enfermagem inquiridos no âmbito deste estudo escolheram como futuro profissional trabalhar nos centros de cuidados a idosos”.
Por sua vez, em relação à atitude destes jovens face à população mais envelhecida, o estudo revelou resultados animadores já que “os estudantes de enfermagem de Macau mostraram uma atitude mais positiva em relação aos idosos”, indicam. No entanto, ressalvam os académicos, “é necessário explorar mais esta componente já que foram apenas inquiridos 30 estudantes”.



