Macau não deve investir na produção de energias renováveis mas antes na formação de recursos humanos para gerirem essa área e na criação de um sector de serviços de apoio, considera Han Wenke, vice-director geral do Fórum Internacional sobre Energias Limpas, defendendo ainda que o Executivo deve conceder subsídios para aquisição de veículos eléctricos. Por sua vez, Beni Suryadi, do Centro da ASEAN para a Energia, acredita que a RAEM pode apostar na definição de critérios de desempenho energético

 

Inês Almeida

 

A energia produzida pelo sol e pelo vento esteve em destaque no segundo dia do Fórum Internacional sobre Energias Limpas (IFCE, na sigla inglesa), evento que chega hoje ao fim. À margem da sessão por si coordenada, o subdirector geral do IFCE defendeu que tanto a China como Macau ainda podem fazer muito para promover o uso das energias renováveis.

Han Wenke

“A China tem já um mapa muito claro para a guiar até um melhor futuro. Em primeiro lugar, deve apostar na redução do actual consumo de energia, depois, promover as energias renováveis e desviar o seu desenvolvimento energético para que não esteja tão dependente de recursos e mais da tecnologia e inovação”, apontou Han Wenke em declarações à TRIBUNA DE MACAU. Esta transição já está a acontecer, acredita o também director do Instituto de Investigação sobre Energia da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, porém, as emissões de carbono ainda podem ser reduzidas.

Nos últimos cinco anos, “o consumo de energia na China diminuiu 8% e a promoção das energias renováveis cresceu também”, referiu o especialista. Porém, numa próxima fase, deve ser encorajada “a tecnologia e inovação” associada à energia.

Nesse âmbito, a RAEM pode ajudar. “Macau não deve investir muito dinheiro na produção de energias renováveis. A melhor opção é usar energia mais limpa que pode importar e tentar atrair investigadores na área das tecnologias limpas e empresas tecnológicas que possam vir cá”. No fundo, explicou Han Wenke, pode ser criado no território um “sector de serviços das energias” ao invés de produção. “É algo que tem a ver com a educação, como dando formação a recursos humanos e encorajando as companhias do exterior que venham criar alguns centros para inovação. Macau pode servir o sector da energia em vez de a produzir, porque o espaço é limitado mas é uma grande janela para o mundo”.

Ao mesmo tempo, a RAEM pode actualizar algumas infra-estruturas para o fornecimento de energia. “Por exemplo, no que respeita à rede pública e à ligação às habitações, pode usar-se novas tecnologias e novos critérios para garantir maior eficiência e encorajar as pessoas a usar a energia de uma forma mais eficiente”.

Han Wenke acredita ainda que deviam existir mais veículos eléctricos em circulação nas estradas, porém, o Executivo tinha de dar apoios. “Podia haver muito mais carros eléctricos. Macau tem apenas carros tradicionais. O Governo podia dar subsídios para a aquisição de veículos eléctricos”.

Beni Suryadi

Por sua vez, Beni Suryadi, do Centro para a Energia da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), acredita que há outros problemas a resolver primeiro. “Uma das principais fontes de procura de energia é o consumo dos edifícios. Mais de 50% da energia é gasta para fazer face a estas necessidades, como os ares condicionados. Cá a temperatura é quente e húmida, por isso, essa deve ser uma das grandes preocupações”, acredita o especialista. Por isso, o Governo deve “pensar sobre como fornecer electricidade de uma fonte mais limpa”.

 

Critérios ecológicos e apoio de todos

Ainda que o Executivo tenha um papel a cumprir, não deve depender apenas dele a eficiência energética do território. Os consumidores também podem agir. “Toda a gente se queixa do custo da electricidade mas mantêm-na sempre ligada. O foco deve estar em usar energias limpas. A mudança na tendência de aquecimento global não pode depender só dos governos ou do sector privado, é uma função de toda a gente”.

A poupança energética pode ser promovida de duas formas. Em primeiro lugar, trata-se de escolher melhores fontes de energia. “Devemos investir mais nas energias renováveis. A segunda questão é aplicar critérios mais ecológicos a todos os edifícios. Há estudos que indicam que se conseguirmos criar regras de forma a que todos os equipamentos que temos em casa tenham critérios de desempenho energético, podemos poupar entre 40% e 60%. É isso que toda a gente deve procurar”.

Os primeiros passos podem ser dados com mudanças como a utilização exclusiva de lâmpadas LED. “Isso corta o consumo de energia entre 60% e 70%. Há um custo associado no início mas, a longo prazo, é melhor para toda a gente”.

Por outro lado, “o transporte é um grande problema”. “Incentivar o uso dos transportes públicos é algo que pode poupar muita energia, seja através de partilha de veículos ou do aumento do número de veículos eléctricos em circulação. Isso é acessível e toda a gente pode contribuir”.

No que à Ásia-Pacífico no seu todo diz respeito, o principal obstáculo à utilização das energias renováveis tem a ver com as despesas associadas. “A maioria dos países do sudeste asiático ainda enfrenta dificuldades e as energias renováveis não são a solução mais barata, por isso, recorrem ao petróleo”.

Thit Linn Ohn

Exemplo disso mesmo é o testemunho de Thit Linn Ohn, Embaixador do Myanmar na China. “Hoje em dia o aquecimento global tem impacto em todos os países, não é só um problema dos países desenvolvidos mas também dos países em desenvolvimento e todos têm de colaborar para perceber porque estamos a usar tanta energia, sobretudo à medida que os países se desenvolvem”, disse à TRIBUNA DE MACAU.

“No Myanmar temos muito sol, muitas correntes e rios bem como uma área costeira muito longa, quase 2.000 quilómetros, por isso, podemos recorrer à energia do vendo mas precisamos de financiamento e tecnologia dos países mais desenvolvidos”, destacou o embaixador. A cooperação com os países da ASEAN e, em particular, com a China, está já cimentada, garantiu.

A sessão que decorreu na manhã de ontem contou com mais de uma dezena de oradores, a maioria dos quais da China Continental, havendo ainda espaço para representantes do Myanmar, Laos e Vietname partilharem as suas experiências.