Entre Setembro de 2018 e ontem registaram-se 13 casos de gripe A no território. Um deles diz respeito a uma criança de quatro anos que veio a desenvolver encefalite e se encontra internada no hospital público em estado crítico. O caso é raro, mas voltam a surgir alertas para a importância da vacinação nesta época

 

Salomé Fernandes

 

Um rapaz de quatro anos, que deu entrada nas urgências do Centro Hospitalar Conde São Januário (CHCSJ) com suspeita de gripe A, desenvolveu encefalite e encontra-se internado em estado crítico. De acordo com Jorge Sales Marques, chefe do Serviço de Pediatria, o prognóstico é “extremamente reservado”.

A criança foi pela primeira vez às urgências na noite de sexta-feira, 4 de Janeiro, com febre, tosse e suspeitas de gripe. O teste rápido veio a confirmar a condição tendo-lhe sido administrado o medicamento “Tamiflu” de imediato, explicou o médico pediatra em conferência de imprensa convocada pelos Serviços de Saúde.

A criança foi para casa, um procedimento apontado como habitual, mas passadas algumas horas mostrou sintomas de má reacção à medicação. Depois da primeira dose, começou a vomitar e a sua temperatura subiu, pelo que os pais levaram o filho novamente às urgências, já no sábado. Com o agravar da sua condição, que incluiu crises de convulsão, realizou-se uma ressonância magnética cerebral que confirmou suspeitas de quadro de encefalite.

“Esta ressonância mostrou-nos um exame com alterações bastante graves e sendo assim o prognóstico é altamente reservado. É mau, com uma taxa de elevada mortalidade. E mesmo se porventura conseguir sobreviver o risco de sequela é muito grande”, disse Jorge Sales Marques, assegurando que está a ser feito “todo o tipo de medicação possível”.

Lei Wai Seng, director substituto do hospital público, apontou para uma taxa de mortalidade “muito alta”, situando a taxa de sobrevivência nos 30%, de acordo com os dados do Japão.

O caso é raro. A encefalite associada ao quadro clínico da influenza A tem uma incidência mundial de quatro em cada milhão de casos, e Jorge Sales Marques não se recorda de encontrar outro semelhante nos últimos anos. Notou, porém, que a criança não tinha tomado a vacina da gripe, alertando para a importância dos cidadãos recorrerem a este sistema de prevenção.

Para além disso, a família do rapaz viajou para Taiwan entre 26 e 31 de Dezembro de 2018, tendo o irmão da criança desenvolvido também sintomas de gripe, mas já recuperou após tratamento médico. Lam Chong, chefe do Centro de Prevenção e Controlo da Doença, indicou que apareceram sintomas leves de gripe a outros 27 alunos da escola frequentada pelo rapaz, tendo sido enviadas instruções ao estabelecimento.

 

Administradas quase 120 mil doses de vacina

De acordo com os Serviços de Saúde (SSM), Macau já entrou no pico inicial da gripe, prevendo-se que a epidemia se agrave ainda mais, especialmente antes e depois do Festival da Primavera. O período de pico deverá durar entre dois a três meses. Das 150 mil doses encomendadas, 118.881 já foram administradas à população, e os SSM indicam que a maior parte das estirpes de gripe é sensível à vacina em uso.

Entre Setembro de 2018 e o dia de ontem registaram-se 13 casos de gripe A no território, tendo os utentes entre quatro a 86 anos de idade, 10 dos quais eram do sexo masculino. Entre os casos registados, 10 pessoas não receberam vacina contra a gripe, tendo um caso recebido vacina quando os sintomas se iniciaram e os restantes dois tomaram a vacina antecipadamente. Actualmente, para além do rapaz em estado crítico, encontra-se internado um homem de 86 anos com um quadro clínico estável.

Note-se que a nível da taxa de ocupação de camas devido à gripe, no Hospital do Kiang Wu o número situa-se nos 83%, contra uma percentagem habitual de 75%. Já no Conde São Januário a taxa de ocupação ascende aos 94%. Ainda assim, Lam Chong acredita que o hospital público é capaz de dar resposta às necessidades da população.

Em termos de grupos etários, foram vacinadas 43,3% das crianças até aos três anos, 79,9% dos alunos de jardins de infância, 76,5% dos estudantes das escolas primárias e 65,9% do secundário. Já dos cidadãos com mais de 65 anos, 32,3% encontram-se vacinados, e nos lares de idosos a taxa de vacinação situa-se nos 91,2%.