Além de preocupar o sector local da logística de transportes, a abertura da Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau também está a gerar apreensão entre as empresas que operam contentores no Porto Interior. As companhias ligadas à logística marítima receiam que o impacto na sua actividade seja muito negativo quando os camiões puderem circular na ponte, porque, para poupar tempo, os alimentos frescos de luxo passarão a ser importados via Hong Kong. Ouvidos pela TRIBUNA DE MACAU, representantes do sector admitiram, inclusive, que preferem passar a usar também a ponte, pelo que esperam a implementação de medidas prioritárias ou a distribuição de vagas para os camiões
Rima Cui
Apesar de já estar em funcionamento há cerca de um mês, a Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau ainda não tem “luz verde” para a circulação de veículos de mercadorias. O sector da logística marítima de Macau, que opera na zona da Barra e no Porto Interior, ainda não sente, por isso, que os seus negócios estejam a ser afectados, mas teme um grande impacto no futuro. Os receios residem na possibilidade de todas as mercadorias importadas do estrangeiro passarem por Hong Kong antes de chegarem ao território.
“A razão principal do impacto é a grande diferença no tempo gasto. O transporte através da Ponte poderá poupar mais de 90% do tempo. Os empresários que dão valor à pontualidade, com toda a certeza que vão passar a transportar as mercadorias por estrada”, apontou Ivan Kuan, consultor de gestão da empresa “Wui Tung (HK&Macau) Shipping Limited”, em declarações à TRIBUNA DE MACAU.
O chefe de operações da “Macau-Hong Kong Terminal Ltd”, uma das duas empresas da RAEM que usam contentores, explicou que os produtos transportados por via aérea poderão ser um dos segmentos de negócios que sairá das mãos do sector da logística marítima local.
“Alimentos de luxo, como o ‘sashimi’ e a carne de vaca ‘Wagyu’ muito provavelmente passarão a ser transportados por camiões através da nova Ponte, porque é mais rápido e os comerciantes não se importam com os custos. Querem apenas que esses produtos cheguem o mais rapidamente possível porque têm de manter o máximo de frescura”, sublinhou Alex Yu.
Partilhando a mesma opinião, Ivan Kuan inclui ainda as frutas frescas, flores e encomendas de emergência na lista de “produtos em fuga”.
Embora também possua um negócio no ramo da logística de transportes ligado a Zhuhai, a empresa de Alex Yu tem nos contentores a sua principal fonte de rendimento. Nesse sentido, está ansiosa por saber como poderá colaborar e beneficiar da Ponte do Delta.
“Até agora, não sabemos como é que a coisas vão ser, pois o Governo nunca falou com as empresas do nosso sector [logística marítima]. Temos sido muito ignorados pelas autoridades”, lamenta.
Já Ivan Kuan alerta que, “com certeza uma parte dos clientes da logística marítima vai inclinar-se para a logística rodoviária”. “Neste ramo, o número de concorrentes é relativamente grande, pelo que há a possibilidade das outras empresas baixarem muito os preços. Para ganhar terreno, preferem sacrificar os ganhos brutos, mas isso poderá levar à falência de empresas incapazes de sobreviver”, alertou.
Mesmo assim, vão continuar a investir em negócios que envolvem os contentores, porque ainda existem algumas garantias, acredita Alex Yu. “Por exemplo, os comerciantes que importam arroz de produtores longínquos até preferem o transporte marítimo, porque envolve grandes quantidades. Além disso, quando o exportador requer determinado tempo de espera para os produtos serem entregues aos comerciantes, apenas quando todos os procedimentos estiverem bem tratados, temos muitos contentores que podem ajudar a guardar esse tipo de produtos na doca”, garantiu o mesmo responsável.
Os negócios da “Macau-Hong Kong Terminal Ltd” começaram com o investimento de dezenas de milhões de patacas em 1984, altura em que o Governo encorajava muito o aproveitamento do cais. Por sua vez, a “Wui Tung (HK&Macau) Shipping Limited” opera há seis décadas no território, contando agora com 300 funcionários. Além disso, a empresa de Ivan Kuan garante que já investiu mais de 10 milhões de renminbis em projectos na região da Grande Baía.
Segundo Alex Yu, a companhia possui mais de 100 contentores, bem como seis camiões em Macau e 13 em Hong Kong. Porém, normalmente, também há contentores de exportadores, pelo que os funcionários dividem-se em trabalhos entre 200 e 300 contentores.
Na sua perspectiva, a Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau causará maior impacto às empresas que importam produtos com as próprias embarcações, ao invés de recorrerem a um conjunto de contentores de grande dimensão.
Atitude positiva
“Segundo sei, algumas empresas da logística marítima que têm as próprias embarcações já começam a pensar em comprar camiões, para eventualmente apanharem a ‘onda’ da Ponte do Delta”, revelou Alex Yu.
Alex Yu acredita que, apesar de tudo, a mega ponte vai incentivar o consumo e trazer benefícios à economia local, mas espera que o Executivo da RAEM discuta essas matérias rapidamente com as autoridades de Hong Kong.
“Por exemplo, podíamos ter 100 quotas para a circulação de camiões na ponte. Podiam ser atribuídas através de sorteio ou concurso público, mas o ideal era termos essa garantia”, asseverou, apelando por outro lado a uma “cobrança razoável” pela circulação de camiões na ponte.
O chefe de operações da “Macau-Hong Kong Terminal Ltd” recordou que, “antigamente, havia muitas fábricas de roupa no território, cujos produtos eram exportados para o exterior, sendo que nessa altura a exportação marítima era mais forte do que a importação marítima”. “Porém, neste momento, a exportação só está ligada aos resíduos sólidos e de metais”, lamenta.
De acordo com o mesmo responsável, para além das duas empresas de logística marítima de contentores existem outras 10 do género que detêm embarcações próprias.
No total, a empresa tem cerca de 1.000 empregados, 700 no território e os restantes em Hong Kong, segundo os dados fornecidos a este jornal.
Por sua vez, Vong, gerente da “Mighty Ocean Navegação, Limitada”, prevê que, quando os camiões forem autorizados a atravessar a ponte, “os negócios dos contentores serão muito afectados”. Segundo destacou, os contentores transportam normalmente materiais de construção, alimentos e móveis, enquanto vegetais e frutas vêm directamente de barco. Numa visita à doca “Macau-Hong Kong Terminal Ltd”, a TRIBUNA DE MACAU encontrou dezenas de caixas de ovos guardadas nos contentores.
Ao contrário de Alex Yu, Vong considera que a logística na Ponte poderá nem causar prejuízos ao seu negócio empresa, uma vez que está confiante no potencial dos serviços de logística rodoviária prestados pela empresa.
“Na minha opinião, o melhor para o sector seria se a cobrança pela circulação de camiões de logística na ponte fosse relativamente baixa e que houvesse uma facilitação no processo de passagem pelas fronteiras”, sustentou.
Pedida “prioridade” para “empresas experientes”
A exemplo do caso de Vong, a empresa de Ivan Kuan também já “se preparou bem” com uma equipa para colaborar com o funcionamento da Ponte. Além disso, o consultor de gestão da “Wui Tung (HK&Macau) Shipping Limited” frisou que a empresa já explora negócios de transporte rodoviário em várias cidades da Grande Baía, como Cantão, Shenzhen, Zhuhai e Hong Kong.
“Espero que o Governo melhore as instalações dos postos fronteiriços, divulgando informações sobre as instalações e operações na Ponte, para que o sector se possa preparar o mais cedo possível”, enfatizou Ivan Kuan.
Na sua perspectiva, uma das medidas mais decisivas para o sector passaria pelo Governo da RAEM conceder prioridade à logística marítima local, lançando medidas preferenciais junto das empresas experientes.
“Caso alguém compre um veículo de transporte para operar através da ponte, as despesas envolvidas são baixas quando comparadas com os custos de operação de empresas experientes com uma grande estrutura organizacional. Se assim for, essas grandes empresas vão enfrentar uma concorrência muito forte e até poderão ter de fechar portas, o que levará ao desemprego um elevado número de operários”, alertou.



