A rede escolar de Macau deve ser mais inclusiva, ainda que se tenham registado melhorias e evolução ao longo dos últimos anos. Ainda assim, carece de “hardware” especializado na escola, recursos humanos e experiência neste tipo de ensino, advertem três académicos com base nos depoimentos recolhidos de professores locais. Para que as escolas caminhem cada vez mais em prol de um sistema de ensino inclusivo, importa sobretudo avançar com legislação adequada, defendem os autores do estudo, apontando ainda o dedo às escolas “elitistas”
Catarina Almeida
Embora a abordagem do sistema educativo em relação ao ensino especial tenha progredido, ainda há margem para melhorias, considera um grupo de 10 professores inquiridos no âmbito de uma pesquisa elaborada por académicos da Universidade Cidade de Macau, a que a TRIBUNA DE MACAU teve acesso. Numa primeira instância, resta contextualizar o que se entende por educação inclusiva, uma vez que este sistema pode ser, por si só, “dono” de uma definição ampla.
Em termos sintéticos, o sistema educacional inclusivo reconhece não só que todas as crianças podem aprender como identifica e respeita diferenças de idade, sexo, etnia, língua, deficiência, entre outras condições. Ademais, permite que as estruturas, sistemas e metodologias de ensino entendam as necessidades de todas as crianças, estando, portanto, em evolução constante. Pelo exposto e, atendendo às conclusões desta investigação, a educação inclusiva em Macau carece de “experiência e recursos humanos” – isto é, a massa de docentes capacitados para ensinar turmas com alunos cujas necessidades são em parte diferentes das demais crianças deve ser mais e melhor formada.
A par de outras sugestões, a maioria dos docentes inquiridos adverte para a falta de legislação relacionada com a educação inclusiva, sobretudo para diminuir ou eliminar determinados cenários que persistem nos dias de hoje. “Cada escola deveria receber estudantes com necessidades especiais e cumprir as obrigações do sistema”, destacam Chiman Tong, Sungyi Lee e Tongcheong Wong, autores do estudo. Além disso, fortalecer a via legislativa iria permitir contrariar o facto das “escolas sugerirem aos alunos que abandonem os estudos a meio do percurso” e de haver “pressão junto dos professores que trabalham em instituições de ensino que financiaram a integração, de modo a que cada aluno seja melhor assistido”.
Por seu turno, os 10 inquiridos no âmbito desta análise qualitativa foram consensuais ao concordar que o “hardware” (ou seja, materiais) essencial ao normal desenvolvimento deste tipo de ensino necessita de “ser melhorado”. “Fortalecer a defesa do trabalho de ensino inclusivo, estabelecer uma licenciatura em ensino especial e melhorar os serviços de avaliação” são outros aspectos que mereceram a atenção e motivam mais preocupações da camada docente inquirida.
“Esperemos que o Governo confira valor aos resultados deste estudo. Em particular, devemos atribuir importância aos pontos de vista dos professores. Além disso, esperamos também que o Governo tome como referência as sugestões apresentadas para formular melhores políticas em educação inclusiva”, realçam.
Começando pela necessidade de criar uma licenciatura especializada neste segmento educativo, a Universidade de São José viu aprovado, em 2016, o plano curricular que inclui o ramo de Educação Especial, mas enquanto opção de mestrado, com vista a colmatar parcialmente a falta de profissionais na área. Ora, nove em 10 docentes consideram que há um “aumento do número de alunos inclusivos numa escola, o que poderá levar a mais carga de trabalho para os professores”, isto porque “perder mais tempo é dedicar trabalho a papelada como o programa de educação individualizada, reuniões e trabalho administrativo relacionado”.
A este tipo de tarefas acresce a necessidade de dedicar mais carga horária para “aconselhamento educativo e emocional”. Por fim, “abrir espaço aos professores para encararem mais alunos com necessidades especiais na mesma turma” contribui para “dificuldades operacionais”.
Partilhar a responsabilidade social
Tendo como ponto de partida o resultado das entrevistas conduzidas aos professores, os académicos da Universidade Cidade de Macau chegaram a algumas conclusões que permitem traçar um cenário de crescimento em termos de alunos inclusivos, justificado por vários motivos: “Sob a promoção da educação inclusiva, o Governo fará com que professores e pais compreendam melhor a educação especial para detectar e diagnosticar mais cedo estudantes que precisam de educação especial”, destacam. Outra razão importante é o facto dos professores tenderem a achar que as famílias têm “cada vez menos interacção com as crianças o que pode levar a um desenvolvimento infantil menos saudável”.
Por acréscimo, como as escolas “ditas regulares não aceitam alunos com necessidades especiais”, os estabelecimentos que o fazem acabar por acolher “mais crianças”, refere o estudo. “Alguns pais pensam que as crianças de hoje têm mais problemas com desenvolvimento inato e a própria sociedade dá mais ênfase à educação inclusiva”, refere o estudo.
Em contrapartida, os professores apontaram seis argumentos que corroboram os motivos pelos quais nem todas as escolas criam turmas inclusivas. Primeiro porque, no seu entender, a integração do sistema inclusivo nestas redes escolares contribuiria para “diminuir a actual pressão que persiste nas escolas e professores que lidam com ensino inclusivo” e “aumentar o número de escolas inclusivas em Macau.
Por outro lado, seria igualmente positivo no sentido em que “não há um sistema de turmas que seja justo na educação [local]” e porque iria contribuir para “partilhar a responsabilidade social” e “elevar a qualidade do sistema de ensino inclusivo”. Paralelamente, seria meio caminho andado para “aumentar o reconhecimento do sistema educativo inclusivo noutras escolas”.
Neste campo, dados da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude apontavam para a existência de 38 escolas particulares e públicas com sistema de educação inclusiva no ano lectivo 2016/2017. Deste modo, do ponto de vista dos docentes é “injusto” que as escolas não sejam de certa forma obrigadas a participar num modelo de ensino inclusivo. Ao mesmo tempo, as escolas tradicionais não optam por este modelo também porque se focam nos números: “as escolas querem receber bons alunos ou, noutros casos, serem mais elitistas”, salienta a pesquisa. “Há escolas que temem perder ou ver a sua reputação afectada se abrirem vagas a alunos com necessidades especiais”, lamentam os académicos com base nas visões dos docentes.



