Embora reconheça a importância do Edifício Dona Leonor e de acções que defendam a sua preservação como a que juntou no domingo Rui Leão a Agnes Lam e Billy Au, Carlos Marreiros entende que o imóvel não deve ser classificado. O arquitecto defende que, entre outros prédios e muitas tabuletas publicitárias, o edifício deixou de ter “relevância histórica no contexto urbano”
Inês Almeida
Apesar de aplaudir a iniciativa da Associação Energia Cívica de Macau, que juntou Rui Leão, Agnes Lam e Billy Au na defesa da preservação do Edifício Dona Leonor, Carlos Marreiros acredita que o edifício, dado o seu estado actual, não deve ser classificado.
“O edifício foi muito importante e marcou o perfil urbano nesta zona da cidade”, começou por reconhecer o arquitecto. “Ao tempo, tinha uma presença notável. Era uma lâmina. Era o único elemento, um edifício rectangular voltado ligeiramente a Norte. O edifício Dona Leonor é de 1961, portanto, era um elemento marcante na leitura da paisagem urbana desta parte de Macau”, frisou em declarações à TRIBUNA DE MACAU.
No entanto, Carlos Marreiros sustenta que, actualmente, “em termos de inserção urbana” o Edifício Dona Leonor “perdeu todo o sentido”. “Construiu-se o edifício do [Hotel] Sintra e o Pacapio, da autoria do arquitecto Manuel Vicente, portanto, ele já não tem a importância urbana que tinha. Hoje, entalado entre edifícios e muitas tabuletas publicitárias não faz qualquer sentido, não tem relevância histórica no contexto urbano”, defende Carlos Marreiros.
Mantém-se o valor arquitectónico. “É um edifício muito bem projectado pelo arquitecto José Lei. É um edifício notável, muito bem desenhado, com características do modernismo de Macau. Se me perguntar se o edifício é bom, digo que é muito bom sob o ponto de vista da arquitectura, projecto e representatividade em termos de historiografia urbana de Macau. Agora, se me perguntar se ele deve ser classificado, provavelmente não. Nem passaria pelo Conselho do Património Cultural porque já está desinserido no contexto”, entende o arquitecto.
Neste momento, o Dona Leonor “é um edifício residencial, há uma parte de lojas, mas a torre em si é residencial e não é visitável pelo público e as condições actuais são péssimas”. “Só um elevador funciona, outro foi retirado há coisa de dois anos. A manutenção é muito elevada. Constantemente a Santa Casa da Misericórdia tem de fazer obras por causa de infiltrações, conserto do elevador, o único existente, cujas peças sobressalentes já não existem devido à antiguidade do elevador”.
Além disso, “quando há uma chuvada maior cai um reboco e é perigoso. Está em condições bastante degradadas o que faz a Santa Casa da Misericórdia ter de fazer um grande esforço para manter aquilo, uma vez que as rendas não chegam, não pagam sequer a manutenção”, destacou Carlos Marreiros.
Nesse sentido, acredita o arquitecto, também não faz sentido a classificação do imóvel. “Lista-se um edifício porquê? Não é só para dizer que temos mais um edifício na lista de classificação, é para preservá-lo e revitalizá-lo, porque um edifício sem gente, alma e a vida palpitante das pessoas é apenas uma escultura. Se não pode ser viabilizado de forma permanente, classificá-lo para quê?”, interroga o arquitecto.
Em alternativa, acredita que o Edifício Dona Leonor pode “ser objecto de estudos, inventariação do desenho, estudos académicos, pode ser feito um bom levantamento fotográfico” também. “Agora, classificá-lo julgo que não tem muita viabilidade até porque a entidade patronal defender-se-á dizendo que os custos de manutenção são muito grandes e é difícil de se reabilitar para voltar a ser a sua traça original de edifício habitacional”.
Uma questão antiga
A manutenção ou eventual demolição do imóvel é uma questão já antiga, alertou Carlos Marreiros. “O Provedor [da Santa Casa] disse que punha a hipótese de demolir o edifício e, naturalmente, que tinha que passar pela Assembleia Geral e posso dizer que esta questão já se levanta desde os anos 80, também por causa da manutenção”.
Com uma eventual demolição do imóvel, fará sentido a construção de um outro edifício com uma altura máxima de 75 metros, conforme a Planta de Condições Urbanísticas que vai ser analisada amanhã pelo Conselho do Planeamento Urbanístico? “Claro que faz. Basta olhar em redor. O antigo Banco Comercial de Macau, o ‘Macau Square’, todo aquele quarteirão era feito de edifícios mais baixos que o Dona Leonor e já foram todos substituídos por prédios altos”, apontou Carlos Marreiros.
Tendo em conta que, de qualquer modo, o imóvel se encontra “entalado entre o Pacapio e o Hotel Sintra”, ele “já não tem qualquer leitura”. “Poder crescer faz todo o sentido porque os edifícios à volta são assim. Porque é que há-de se prejudicar a Santa Casa da Misericórdia?”, interroga Carlos Marreiros.



