A remodelação do edifício do Antigo Tribunal numa nova Biblioteca Central está mais próxima, com o Governo a anunciar que o concurso público para a elaboração do projecto está aberto até 9 de Julho. Para o deputado Eddie Wu, as autoridades deveriam fazer uma inspecção detalhada à estrutura interna do edifício do antigo Tribunal, para avaliar a capacidade de suporte tanto de frequentadores como das próprias instalações. Além disso, entende que o projecto da biblioteca deveria incluir um espaço com cerca de metade da área do edifício, para ser usado como centro de lazer, desconcentrando o fluxo de visitantes da zona central da cidade. Já para Sulu Sou, a biblioteca tem de ser preservada completamente e não deve ser considerada com um ponto de turismo. Por outro lado, Lam U Tou receia que, devido à sua proximidade, as futuras instalações “repitam” as funções da Biblioteca Ho Tung, causando assim um desperdício de recursos
Rima Cui
Está aberto o concurso público para a elaboração do projecto da nova Biblioteca Central no edifício do Antigo Tribunal. Segundo o anúncio publicado no Boletim Oficial, as propostas podem ser entregues até ao meio-dia de 9 de Julho no Instituto Cultural, entidade responsável pelo processo do concurso. O acto público realiza-se no dia seguinte na sede do organismo.
Com prazo máximo de execução de projecto de 320 dias seguidas, os candidatos têm de submeter o pagamento de uma caução provisória de 600 mil patacas não havendo, porém, um preço base definido. Ademais, só serão admitidas pessoas singulares ou colectivas inscritas na Direcção dos Serviços de Finanças e/ou na Conservatória dos Registos Comercial e de Bens Imóveis.
No que diz respeito aos critérios de adjudicação, o conceito do projecto preliminar (40%) é o que mais pesa seguindo-se o preço (30%), a estrutura organizacional do concorrente e composição, currículos e experiência da equipa técnica (25%) e, por fim, o plano de trabalhos (5%).
Embora ainda não se conheça o caderno de encargos do concurso, Eddie Wu, deputado e presidente da Associação dos Engenheiros, considera que seria vantajoso dividir o projecto de transformação do edifício do antigo Tribunal na Nova Biblioteca Central para incluir também um centro de lazer, aberto a turistas e residentes.
À TRIBUNA DE MACAU, o deputado garantiu que apoia a localização da Nova Biblioteca Central no edifício do antigo Tribunal, bem como a preservação da escadaria e do design antigo e nostálgico do espaço interior. No entanto, considera que, além de funcionar como biblioteca, o edifício deveria abarcar mais funções, tais como um local de visita e lazer para turistas, que também dê lugar a actividades familiares, de desenvolvimento e aperfeiçoamento contínuo dos cidadãos.
“A Zona Central enfrenta problemas relacionados com o elevado fluxo de visitantes. É preciso um sítio adequado por onde dividir os turistas, no entanto, na zona há poucos locais para os turistas pararem para descansar ou tomar café. Embora no Largo do Leal Senado exista um centro de turismo, não tem sido muito aproveitado”, argumentou.
Segundo prevê, sobretudo no Verão, entrará na biblioteca um grande número de visitantes em busca de um espaço com ar condicionado. Assim, convém dividir o edifício em duas partes, uma para visita e descanso, outra para as pessoas lerem livros, que deve estar numa área mais reservada, para garantir a tranquilidade do espaço de leitura. Referindo que as proporções das duas partes devem ser planeadas consoante a procura e a utilização, o engenheiro entende que a biblioteca tem de ocupar pelo menos 50%. “Isto não vai modificar a aparência do edifício, mas adicionar mais funções. Se o edifício for usado como apenas uma biblioteca, surgirão no futuro muitos problemas”, advertiu.
Apesar do edifício do antigo Tribunal não poder ser reconstruído, Eddie Wu acredita que deveria ser feita uma obra de reabilitação na parte traseira da Rua Central, para que a estrutura se adapte à utilização e até se torne numa parte integral da biblioteca.
Para além disso, o engenheiro mostrou-se preocupado com a capacidade de suporte da estrutura antiga, pedindo às autoridades uma inspecção detalhada, antes do concurso público. “Como a remodelação passa pela decoração interior, é necessária uma inspecção sobre a capacidade de suporte da estrutura de construção, incluindo o número de frequentadores e objectos. Caso a solução passe pela consolidação, as construções nas imediações não serão afectadas, mas se for preciso alterar a estrutura interior e sejam necessárias escavações, poderá influenciar a geologia. Por isso o trabalho de inspecção tem de ser feito com antecedência”, notou.
O deputado acredita ainda serem necessários dois a três anos para que esteja concluído o projecto de remodelação.
Sulu Sou contra funções turísticas na biblioteca
Em contrapartida, Sulu Sou considera que as autoridades têm de respeitar o princípio de que “a biblioteca não é um ponto de turismo”. Se for aberto um centro turístico, o ambiente e a atmosfera da biblioteca serão afectados, pois durante as ocasiões festivas, o volume de turistas será muito grande. Nesse sentido, o deputado suspenso defende o controlo de visitantes à entrada do espaço.
Sulu Sou insiste na importância de salvaguardar completamente o edifício do antigo Tribunal, por se tratar de uma construção que precisa ser protegida em conformidade com a lei. Na sua perspectiva, é necessária a preservação do ambiente histórico do edifício e deve-se tentar recuperar a estrutura em vez de a modificar.
“Além disso, a inspecção e avaliação da estrutura da construção antes do arranque do concurso público são necessárias”, sustentou.
Lam U Tou receia “desperdício de recursos”
Por sua vez, apesar de reconhecer que a localização da Nova Biblioteca Central já não vai sofrer qualquer alteração, o director da Associação da Sinergia de Macau critica a escolha, considerando-a “desadequada”. “O plano foi delineado há 10 anos, numa altura em que a densidade populacional da Zona Central ainda não era tão alta como hoje. Temo que haja ‘contradição’ entre a biblioteca e o ambiente sobrecarregado de veículos e pessoas”, sustentou.
Para Lam U Tou, a Biblioteca Central deveria funcionar num local com acesso fácil e ambiente confortável, condições que poderiam aumentar a participação e interesse pela leitura.
A par disso, o director da Associação da Sinergia salientou à TRIBUNA que a Biblioteca Sir Robert Ho Tung está a desempenhar um papel eficaz, respondendo à procura dos cidadãos da Zona Central. Tendo em conta que, entre o edifício do antigo Tribunal e a Biblioteca Ho Tung, a distância é de apenas 700 metros, Lam receia que haja uma “repetição” de funções entre os dois estabelecimentos, provocando um desperdício de recursos.
Na sua opinião, o design do projecto deve, acima de tudo, ser simples e funcional e a sua altura também tem de corresponder ao desenvolvimento urbanístico. Para além de um ambiente confortável, Lam U Tou sugere que a nova biblioteca seja utilizada na divulgação cultural, tendo instalações e espaços destinados à realização de colóquios.
No que respeita à proposta de Eddie Wu sobre a criação de espaços virados para os turistas, Lam U Tou entende que “não deve ser assim”. Ressalvando que não está contra as visitas de turistas à biblioteca, defende que esta deve ser aproveitada para servir bem os residentes.
“Essa hipótese não é viável, porque não corresponde ao objectivo principal da divulgação de leitura. Sabemos que hoje em dia, a participação de leitura em Macau é pequena”, sublinhou.



