Desemprego, impacto nas receitas do jogo e nas pequenas e médias empresas, sector bancário afectado – estas podem ser consequências do encerramento dos casinos-satélite, na perspectiva de António Félix Pontes. O economista anteviu ao Jornal TRIBUNA DE MACAU que “os efeitos económicos adversos, a curto prazo, serão fundamentalmente, a destruição significativa de milhares de postos de trabalho, a redução da capacidade operacional e da oferta das empresas ligadas ao jogo”. Em suma, admite que a economia, a curto prazo, “vai pagar um preço demasiado alto e desproporcional para se alcançarem objectivos de um maior controlo regulatório e de transformação do modelo de negócio do jogo em Macau”
VÍTOR REBELO
Os reflexos do fecho, até ao final do ano, dos 11 casinos-satélite do território podem vir a afectar diversos sectores da economia local, segundo a opinião de António Félix Pontes. O economista disse ao Jornal TRIBUNA DE MACAU que, em termos gerais, o encerramento “acarreta custos materiais e imediatos”, com especial destaque no emprego, nas receitas do jogo e no sector das pequenas e médias empresas, “cuja vida tem vindo a deteriorar-se desde os tempos da pandemia, sem que se descortinem acções de apoio efectivo e realístico às mesmas”.
“A curto prazo, a economia vai pagar um preço demasiado alto e desproporcional para se alcançarem objectivos de um maior controlo regulatório e de transformação do modelo de negócio do jogo em Macau, o que, sejamos pragmáticos, só é possível de concretizar a médio e longo prazos”, defende.
A questão dos trabalhadores dos casinos-satélite é outra das preocupações. “Na realidade, desses 11 casinos-satélites, dois já foram integrados no casino-principal de uma das concessionárias, presumindo-se que todos os seus trabalhadores transitaram para este último”. No entanto, diz, “tal pode não significar que vá ser a regra geral, nem está imposta por lei, desconhecendo-se ‘o porquê’ para tal omissão”.
Sobre os restantes nove casinos-satélites, cuja força laboral deve rondar mais de 5.000 trabalhadores, salienta que “a situação poderá estar cheia de incertezas”, admitindo mesmo que “caso a decisão dessas entidades seja diferente da que ocorreu com a integração supramencionada, o caminho dos trabalhadores envolvidos será, quase que inevitavelmente, o do desemprego”.
A problemática da força laboral poderá não se esgotar nos trabalhadores desses casinos, como indica Félix Pontes, “na medida em que a mesma constitui apenas a mão-de-obra directa. Importa recordar que, “na órbita dos casinos-satélites, gravitam imensas empresas de pequena e média dimensão dentro e fora dos espaços onde estão a operar os casinos-satélites – empresas de limpeza, segurança, lojas diversas, cabeleireiros, hotelaria, restaurantes… -, cujos trabalhadores representam a mão-de-obra indirecta, que convém não esquecer”, adverte.
Considerando que as famílias também serão afectadas, o economista fala em “mistério”, uma vez que “ainda ninguém ousou apresentar qualquer solução exequível” para arranjar emprego a milhares de trabalhadores, de diversos sectores, desde os empregados de limpeza aos que servem nos restaurantes”.
António Félix Pontes observa que os “efeitos negativos” não se limitam ao mercado laboral. “As empresas que dependem da actividade dos casinos-satélites assumiram compromissos financeiros de diversa ordem que terão de honrar – como empréstimos bancários, pagamento dos salários e rendas dos locais onde funcionam -, mas, como é evidente, só estarão em condições de o fazer se tiverem receitas”, considera. Por conseguinte, admite que o futuro para essas empresas é “muito sombrio”.
Sublinha, em resumo, que os efeitos económicos adversos, a curto prazo, serão, fundamentalmente, “a destruição significativa de milhares de postos de trabalho, a redução da capacidade operacional e da oferta das empresas ligadas ao jogo, a perda de certos nichos de mercado (jogadores VIP), as dificuldades acrescidas para as empresas locais que estão muito dependentes da actividade dos casinos-satélites, o impacto económico negativo nas zonas onde estes operam e a redução nas receitas das concessionárias e do Governo (imposto sobre o jogo)”.
No que diz respeito aos reflexos no sector bancário, o economista considera ser “natural” que o “efeito dominó” se faça sentir. Com o desemprego, os trabalhadores “ficarão coarctados do seu salário” e os empresários afectados “deixarão de auferir receitas devido ao fecho das suas empresas, pelo que terão muitas dificuldades em amortizar os empréstimos”.
Nesse cenário, diz, “os bancos terão, obrigatoriamente, de constituir provisões para o crédito malparado, cujo nível actual já é preocupante, em particular, para determinadas instituições financeiras”.
Período transição foi “curto”
Analisando as razões que estiveram na base da decisão do encerramento dos casinos-satélite, relembra a base legal que decorre da lei que altera o ‘Regime jurídico da exploração de jogos de fortuna ou azar em casino’, em que se estabelece um período de transição de três anos para os casinos-satélites, o qual termina no dia 31 de Dezembro de 2025. “Esse período foi curto, uma vez que se deveria ter considerado uma certa flexibilidade, atendendo ao comportamento da economia local, que cresce, mas pouco e a diversos ritmos, consoante os sectores económicos”, afirmou.
Quanto a motivos de outra ordem, de realização a longo prazo, crê que radicam em aspectos como o “reforço da supervisão e um controlo acrescido do sector do jogo, por imposição do Governo Central, e a concentração da actividade por operadores de maior grandeza”.
Enumera igualmente a “diminuição dos riscos financeiros relacionados com a actividade dos casinos-satélites e o seu possível contágio ao sector financeiro e na promoção de um modelo de negócio mais orientado para o turismo de massas e lazer das famílias, contribuindo, desta forma, para a tão almejada diversificação económica da RAEM”.
Na sua opinião, deveria ter havido uma “maior ponderação e bom senso” no sentido de se ter procurado “um equilíbrio entre os custos sociais, a curto prazo, que a medida implica com a finalidade pretendida, a médio e longo prazos”.
Presumindo que previamente à tomada de decisão “deve ter sido feito um estudo custo-benefício, ou por outras palavras, sobre as vantagens e inconvenientes dessa medida, nas vertentes económica, financeira e social (emprego)”, Félix Pontes entende que se isso aconteceu, “em nome da transparência”, o mesmo deveria ser do conhecimento público, “até para evitar eventuais incorrecções na análise”.
Concluindo, fala do desafio que as concessionárias irão enfrentar no futuro, frisando que a principal preocupação será de recuperar e, “eventualmente, superar”, as receitas que os seus casinos-satélites lhes têm vindo a proporcionar. “Terão, ou não, capacidade para isso?”, questiona, acrescentando: “Terão de fazer muito ‘trabalho de casa’ para resolver esse problema”.



