Vários especialistas acreditam que a economia de Macau vai manter este ano a tendência de desenvolvimento positivo, embora possa enfrentar alguns problemas. José João Pãosinho aponta como “grande incógnita” o sector imobiliário que continuará sob pressão. Já José Morgado antevê um ligeiro abrandamento face à tendência de desenvolvimento em 2017, devido a factores relacionados com as barreiras criadas por Pequim à saída de capitais. Por sua vez, José Isaac Duarte acredita que “os principais agentes económicos” procurarão retomar o crescimento anterior a 2014
Inês Almeida
A conjuntura económica para este ano gera um optimismo cauteloso entre os especialistas na matéria do território. “Julgo que a economia continuará na mesma trajectória, sustentada por um crescimento moderado de turistas mas num crescimento robusto das receitas do jogo. Espero que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça entre 8% e 10% e o número de visitantes entre 3% e 5%”, anteviu José João Pãosinho em declarações à TRIBUNA DE MACAU.
Segundo os últimos dados oficiais disponíveis, o PIB da RAEM cresceu 9,3% em termos reais nos nove primeiros nove meses de 2017, em comparação com o período homólogo de 2016, invertendo assim três quebras anuais consecutivas. Recorde-se que o PIB tinha recuado 1,2% em 2014, 21,5% em 2015 e 2,1% em 2016.
José João Pãosinho prevê também que a taxa de inflação, “excluindo o factor rendas”, se fixe entre 1% e 1,3%, e aponta o sector do imobiliário como a sua “grande incógnita”.
“O imobiliário continuará sob pressão apesar de eventuais medidas que venham a ser adoptadas porque a procura excede largamente a oferta, portanto, é difícil encontrar soluções a não ser o aumento da oferta. Podem-se tentar medidas administrativas e fiscais mas são mais paliativas do que soluções”, referiu o economista.
Por este motivo, José João Pãosinho acredita que as rendas das casas também vão continuar a aumentar, “embora a um ritmo não tão acelerado como aconteceu em 2017”.
Por outro lado, “o desemprego continuará a ser inexistente porque em 2018 ainda vamos ter obras dos resorts que estão por completar, portanto, isto vai dar suporte a um determinado segmento do mercado de trabalho”, destacou o economista.
A taxa de inflação não deverá sentir muita pressão. “Poderá vir a acontecer uma estabilização do renminbi. Parte da inflação é determinada por dois vectores, um é o comportamento da taxa de câmbio do renminbi, pelo facto de Macau importar a maior parte dos bens alimentares da China”, referiu.
“Aliás, grande parte do abrandamento da inflação que houve em Macau nos últimos dois anos resulta da queda do renminbi face ao dólar americano e, portanto, face à pataca, e não de medidas de política económica”, defendeu José João Pãosinho, que, no entanto, acredita que o renminbi se vai manter estável em 2018 pelo que “a inflação não sentirá muita pressão no sentido da subida”.
Por seu turno, José Morgado considera que a economia continuará a desenvolver-se positivamente. “Talvez não tanto como em 2017 porque existem alguns factores relacionados com a China, que continua a criar alguns entraves relativamente à saída de capitais, e a economia de Macau, essencialmente baseada no jogo e no turismo, acaba por ser influenciada pelo principal mercado para o qual está virada, o mercado da China”, sustentou o economista em declarações à TRIBUNA.
“A taxa de inflação é capaz de ter tendência para subir, exactamente porque a dinâmica dos casinos normalmente implica uma subida da taxa de inflação, uma vez que Macau importa produtos e, por isso, acaba por ter, além da sua própria inflação, uma inflação importada”, apontou.
Rendas com tendência para subir
Fora deste “cabaz” da inflação fica a questão do imobiliário onde também se poderá verificar uma tendência de aumento. “Se os casinos têm novas dinâmicas e haverá inclusivamente novos casinos, vai haver necessidade de contratar mais gente e essas pessoas precisam de habitação. Com a escassez de terras que Macau tem, naturalmente, os preços vão tender a subir”.
Assim, “a não ser que haja regulação por parte do Governo, o que não tem acontecido de forma sistemática”, as rendas poderão ter alguma tendência para subir. “Com os casinos a precisarem de mais gente, essas pessoas não vão ser só de Macau, também virão do exterior, e terão necessidade de habitação. Tendo essas pessoas contratos relativamente curtos, vão tender para o arrendamento”, defendeu José Morgado.
Além disso, “em alguns casos, as pessoas que arrendam as casas vêm ganhar um salário relativamente elevado e poderão ter mais capacidade de arrendar”. “Há inclusivamente casos em que as próprias empresas custeiam esse arrendamento o que, em termos de mercado, faz subir as rendas”. A esta situação acresce a “escassez de oferta porque, de facto, Macau é um território relativamente pequeno”.
José Isaac Duarte defende que “não havendo choques externos semelhantes aos que estiveram na origem da quebra de receitas nos anos anteriores, a tendência será de crescimento, com os principais agentes económicos, com os casinos à cabeça, procurando recuperar o patamar de crescimento em que se encontravam há três anos”.
À TRIBUNA DE MACAU, o economista considerou ainda que o comportamento da inflação dependerá da velocidade de recuperação da economia. “A inflação encontra-se em níveis baixos que não constituem preocupação a curto prazo. Sem prejuízo de considerar que continua a haver pressão significativa, que poderá agravar-se nos custos da habitação e alimentação, o que não é somenos em termos do bem-estar do cidadão comum”.
No ramo imobiliário, “os factores de pressão para subida persistem e devem acentuar-se, não parecendo haver vontade ou capacidade de atacar as suas fontes principais”, lamentou.



