Uma exposição de Marta Stanisława Sala e Cheong Kin Man, activada no passado dia 6 com um “Midissage” no Instituto Internacional de Macau (IIM), está a ser, segundo a dupla, “gradualmente desmontada” até 14 de Agosto, numa investigação artística sobre migração, linguagem e ligações históricas entre diferentes geografias.

A mostra integra “As Espantosas e Curiosas Viagens”, série expositiva itinerante da dupla, e foi construída desde o início do mês durante uma residência artística e antropológica no IIM, depois de uma etapa apresentada em Julho na Fundação Rui Cunha.

Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, o casal conta que o projecto foi surgindo progressivamente da procura de relações entre os respectivos territórios de origem, Macau e Polónia, e os contextos de Berlim e Lisboa, onde grande parte da sua prática conjunta tem vindo a desenvolver-se.

No centro da apresentação encontra-se “A Bússola da Utopia”, conjunto de 13 trabalhos têxteis produzido maioritariamente em Berlim, dos quais sete ocupam actualmente o espaço da galeria do IIM.

A série coloca histórias familiares de migração em relação com acontecimentos e personagens de diferentes momentos da história global. Entre as referências estão as experiências migratórias dos pais de Cheong Kin Man para Macau e figuras polacas ligadas ao território, como o jesuíta Miguel Boym e o aventureiro conde Benyowski.

As peças incorporam igualmente elementos da paisagem urbana de Macau e da “Flora Sinensis”, publicada por Boym em 1656. O jesuíta foi enviado à Europa pela corte dos Ming do Sul numa missão diplomática destinada a procurar apoio para a dinastia, então ameaçada pelo avanço dos Qing.

“A Bússola da Utopia” foi desenvolvida ao longo de anteriores etapas de “As Espantosas e Curiosas Viagens”, passando por Nuremberga e Katowice, antes de assumir, no Verão passado, uma forma integral de instalação no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, onde as 13 peças foram articuladas através de uma estrutura de bambu.

A apresentação no IIM inclui ainda uma instalação têxtil e vídeo com um excerto de entrevista ao casal António dos Santos Capitulé e Ida Capitulé. António fala em patuá, acompanhado por legendas experimentais geradas através de inteligência artificial em escrita lontara, utilizada na Indonésia.

Para os artistas, a experiência procura criar uma nova distância entre língua falada, escrita e compreensão, inserindo-se numa reflexão sobre barreiras linguísticas e numa leitura relacional e diaspórica de Macau.

Estão também patentes um vídeo experimental dedicado à filósofa francesa Sarah Kofman e “Ou Mun Ian, Macaenses”, vídeo realizado em 2009 e agora recuperado no contexto da exposição.