Lenora Chu (à esq) participou em mais uma sessão do Rota das Letras
Lenora Chu (à esq) participou em mais uma sessão do Rota das Letras

A China tem muito a melhorar na educação, mas está a caminhar no sentido de colmatar as falhas. Lenora Chu apresenta  no seu livro os dois lados: as desigualdades e ansiedades geradas pelo sistema educativo, e os benefícios de uma cultura de trabalho e da disciplina

 

Exageram, mas acertam em muitas coisas. É esta a perspectiva que a escritora Lenora Chu adopta no seu livro “Little Soldiers: An American Boy, A Chinese School and the Global Race to Achieve”. “As pessoas pensam que estou a comparar os EUA à China mas não, penso que por ser uma americana a escrever sobre o sistema educacional chinês assumem automaticamente que estou a comparar os dois países”, explicou à TRIBUNA DE MACAU à margem do Festival Rota das Letras.

Quando os estudantes de Xangai chegaram ao topo dos rankings internacionais, e a América temeu estar a ficar para trás, Lenora Chu, uma jornalista americana de pais chineses, decidiu, em conjunto com o marido, colocar o seu filho de três anos numa escola pública em Xangai. Tinha-se mudado para a China com a família por acreditar que o país estava a crescer, e uma das melhores escolas da cidade era muito próxima da casa da família. A sua desconfiança inicial quando o filho lhe retratou ter sido forçado a comer ovos na escola, ou forçado a ficar sozinho numa sala como castigo, foi gradualmente ultrapassada pela existência de benefícios como o desenvolvimento da cultura de trabalho. “Little Soldiers: An American Boy, A Chinese School and the Global Race to Achieve” faz um balanço do modelo educacional chinês, das suas vantagens, e dos pontos fracos por ultrapassar.

“É difícil retirar informação de uma criança de três anos, então entrar nestas salas de aula tornou-se a minha missão”, disse Lenora Chu. Nascida e criada nos EUA, não se sentiu acolhida de braços abertos pelos chineses, tendo sido o marido, loiro e de olhos azuis, a conquistar a população local. Saídos de Los Angeles, e de um sistema que consideravam ter muita pressão, aperceberam-se que em Xangai era pior. “Há oito milhões de bebés a nascer todos os anos lá. É um sistema de educação de alto risco. Há escolas que oferecem aulas precoces de MBA”, comentou.

Para além disso, destacou como, por exemplo, o WeChat era utilizado como forma de contacto entre os pais e os professores do filho, com pressão constante para o envolvimento dos progenitores na educação das crianças. “Estamos constantemente a ficar para trás, e isso levanta muita ansiedade”, referiu. Uma exigência que se dirige mais às mulheres do que aos pais, admitiu Lenora Chu.

Mas, se a vivência que teve do sistema educativo chinês foi diferente do americano, isso permitiu-lhe compreender melhor a exigência dos seus próprios pais. “No dia do meu casamento, onde é habitual os pais falarem sobre como estão felizes, o meu pai discursou sobre as minhas notas nos exames SAT, em que universidade estudei, e na altura isso deixou-me constrangida. Mas quando cheguei a Xangai compreendi que era uma coisa cultural”.

As pessoas que afirmam que na China não existe criatividade não conhecem o país, frisou, justificando o argumento com o facto de a forma como as crianças agem nem sempre revelar aquilo que pensam, ou todas as suas vivências. Para além das experiências que acompanhou do seu próprio filho, o livro acompanha as trajectórias de outras crianças.

Darcy é um dos rapazes presentes no enredo. Perfeito, e academicamente brilhante. “Mas descobri que tinha um telemóvel secreto, uma namorada às escondidas, e passado algum tempo percebi que era um rapaz rural mascarado de rapaz da cidade. (…) Descobri que o pai se tinha divorciado, casado com uma mulher de Xangai a quem pagou 50 mil renminbis, para poder ter o filho numa escola em Xangai e lhe dar mais oportunidades de entrar numa universidade de topo. Isto mostra quão longe as pessoas estão dispostas a ir pela educação”, descreveu.

 

Mudanças na educação

Lenora Chu acredita que o ambiente de competição não é bom para as crianças, mas considerando que o sistema educativo da China ainda está em desenvolvimento, as falhas serão colmatadas. “Ainda estão a gastar muito dinheiro a tentar expandir o dinheiro, em garantir que mais crianças possam ir para o ensino secundário. Querem todas as crianças a ter direito a pelo menos pré-escolaridade universal, por exemplo. São coisas que os EUA e a Europa já conquistaram e em que a China ainda está a trabalhar, mas não podem fazer tudo ao mesmo tempo”, frisou.

Para isso, o país está a estudar os modelos de ensino ocidentais para se inspirarem nas mudanças necessárias, enquanto continuam a investir naquilo que são os pontos fortes, como a matemática, a disciplina, e o envolvimento parental. Para além disso, Lenora Chu explicou que na América se olha para a matemática e outros ramos da ciência como algo em que o talento é mais importante do que o esforço, enquanto na China se cultiva uma atitude de trabalho, que impede desistências. E que se respeitam mais os professores.

“Em Xangai estão a pensar reduzir o número de disciplinas e dar uma segunda hipótese nos exames. Mas isto não acontece nos meios rurais. O sítio onde se nasce na China afecta muito o futuro”, comparou. O que faz perturbar a escritora relativamente às desigualdades sociais no país é, no entanto, o facto de ser comunista. “Há muito pouco de comunista na China à excepção da liderança”, afirmou a jornalista.

Para além do dinheiro influenciar o acesso a instituições de ensino ou a possibilidade de as crianças terem tutores, consistia uma desvantagem na medida em que antes a troca de presentes podia deixar o mérito dos estudantes para segundo plano. “O Ministério da Educação tornou ilegal que os professores recebam prendas ou dêem serviços de tutoria aos seus próprios alunos em troca de dinheiro”, sublinhou Lenora Chu, acrescentando porém que “as pessoas estão a começar a refrear-se de o fazer, mas de certeza que ainda acontece de forma escondida”.

“É uma cultura que valoriza prendas. Os ocidentais são muito rápidos em classificar isso como corrupção, e sim, nalguns casos é, mas noutros pode ser apenas uma forma de apreciação do trabalho de um professor”, apontou a escritora.

Questionada sobre a pressão que o fim da política do filho único poderá vir a colocar no sistema, explicou não crer que tenha efeitos. “Não acredito que as famílias chinesas estejam apressadas para ter dois filhos. É muito caro criar uma criança na China e já há muita ansiedade em passar uma pelo sistema, quanto mais duas”.

 

S. F.