Leong Vai Kei, subdirectora da DSEJ, procurou distanciar-se das afirmações sobre o diagnóstico de alunos homossexuais invocando “um mal entendido na tradução e na comunicação”. A TRIBUNA DE MACAU falou com profissionais de psicologia, que explicam o tipo de apoio que deve ser dado a estes estudantes
Salomé Fernandes
Depois de afirmar na semana passada que para confirmar se um estudante é efectivamente homossexual este necessita de diagnóstico médico, Leong Vai Kei, subdirectora da DSEJ, procurou distanciar-se destas afirmações invocando “um mal entendido na tradução e na comunicação”.
De acordo com o “All About Macau”, a subdirectora da DSEJ defendeu no sábado nunca ter dito que a homossexualidade é uma doença e que nos manuais do ensino secundário ensinam os alunos a respeitar tendências sexuais diferentes. “A notícia diz que o aluno homossexual vai para o médico, mas não quis dizer isso, quis dizer que quando tem dificuldade em perceber qual a sua tendência, os conselheiros escolares vão prestar apoio”, citou a publicação.
Para além disso, Leong Vai Kei mencionou que “a homossexualidade não pode ser julgada por pais, professores ou conselheiros, apesar de ter sido eliminada da DSM-5, este documento continua a incluir o transtorno de identidade de género”. E referiu um esclarecimento da DSEJ endereçado aos meios de comunicação portugueses na sexta feira.
Note-se que nesta nota não são desmentidas declarações anteriores, indicando-se apenas que os agentes de aconselhamento nas escolas não são “pessoal habilitado para realizar diagnósticos clínicos no âmbito da homossexualidade”.
O organismo declara que “se os alunos tiverem dúvidas, relativamente à sua orientação sexual, e necessitarem de aconselhamentos, a DSEJ proporciona esse aconselhamento” e que “se precisarem de outros tipos de apoio, a DSEJ pode proceder ao seu encaminhamento para os profissionais e serviços competentes, a fim de os alunos poderem usufruir dos devidos apoios”.
No entanto, é acrescentado que “até ao momento, esta Direcção de Serviços ainda não recebeu qualquer pedido de alunos neste âmbito, não tendo, por isso, procedido ao respectivo encaminhamento”.
Homossexualidade sem base para encaminhamento médico
De acordo com Nadia Chan, presidente da Macau Counselling Association, há apenas dois motivos para encaminhamento de jovens – ou adultos – para outros serviços médicos. E nenhum deles é referente a orientação sexual.
Uma das excepções passa pelos casos em que os alunos representam uma ameaça para si próprio ou para os outros, algo que “é independente da sua orientação sexual”. “Se enquanto psicólogos ou conselheiros sabemos que o nosso cliente pode auto-mutilar-se precisamos de agir, nomeadamente através de encaminhamento para hospitais. E de acordo com as leis locais, a segunda preocupação seria com violência doméstica”, explicou a psicóloga.
“Normalmente diria que um psicólogo não encaminharia o estudante para um departamento psiquiátrico ou serviços clínicos por causa da sexualidade, especialmente relativamente à homossexualidade”, afirmou. No entanto, caso um indivíduo fale de transtorno de identidade de género, o psicólogo ou conselheiro pode discutir com o jovem se quer falar com outros profissionais sobre o assunto, ressalvando Nadia Chan que a acontecer é algo acordado previamente e que “orientação sexual e identidade sexual são completamente diferentes”.
Em declarações à TRIBUNA DE MACAU, a Associação de Psicologia de Macau (APM) frisou que o conhecimento científico e a percepção social da sexualidade humana evoluiu ao longo do tempo, e que apesar de a homossexualidade já ter sido considerada um distúrbio mental, actualmente “não há uma associação inerente entre orientação sexual e psicopatologia”.
“Porém, provou-se que o estigma social pode ter um impacto psicológico negativo nos indivíduos homossexuais. O preconceito e a discriminação limitam o seu acesso a apoio social e aumentam os seus desafios de auto-aceitação, ansiedade, depressão e suicídio”, respondeu a APM via email. A entidade indicou que estas pessoas têm as mesmas necessidades de saúde mental que as restantes, pelo que “criar uma comunidade cultural diversificada, solidária e positiva é essencial ao seu bem-estar emocional bem como para a harmonia da sociedade”.
Nesse sentido, a APM frisou a importância dos profissionais que lhes dão apoio serem competentes e obterem mais conhecimento profissional enquanto trabalham com a comunidade LGBT, que é propensa a encontrar vários desafios em aspectos diferentes da sua vida. Estes profissionais podem ajudar os estudantes LGBT “a explorar a sua identidade de género e ajudá-los a ajustarem-se à comunidade e a lidar com ansiedade”, podendo também “promover aceitação social para minimizar o estigma social e discriminação”.



